TOWARD EUTOPIA: THE WOMEN’S SHELTER MOVEMENT
4.2 Three Women’s Shelters
4.2.5 A Diminished Membership of Veterans
A fim de preservar seus laços identitários, suas redes de sociabilidade, e ter um local de lazer, os imigrantes alemães e seus descendentes formaram, desde a sua chegada em nosso país, os mais variados tipos de sociedades: de canto, de tiro, esportiva, entre outras (VOGT, 2006). De certa forma, podemos presumir que foi com esse mesmo espírito associativo que o descendente de alemães José Roberto Lenhard idealizou, em 1983, o grupo de danças folclóricas alemãs de Campo Bom/RS.
José Roberto Lenhard, o principal idealizador do grupo de danças campobonense60,
passou sua infância e juventude na cidade de Estrela/RS. Isso, talvez, explique seu gosto pela cultura alemã, tendo em vista que a cidade de Estrela já possuía um grupo de danças folclóricas alemãs, desde 196461, bem como realiza uma festa de origem étnica alemã, desde 196562. Além
disso, Lenhard era músico de bandinhas típicas alemãs, o que nos leva a crer que tal histórico de vida, repleto de “heranças” e memórias das festas de etnia alemã e de trocas culturais, o que certamente deu origem a sua ideia de montar um grupo folclórico alemão em Campo Bom, cidade para a qual se mudou na juventude.
Embora a data específica de fundação do Grupo seja 9 de março de 1984, quando foi denominado Grupo Folclórico Alemão, nome que perduraria por alguns anos, até 1991 – a partir de então o grupo passou a se chamar Grupo de Danças Folclóricas Alemãs do Centro Cultural Eintracht – o momento determinante para a idealização do grupo Eintracht aconteceu durante um baile organizado pela Fundação Evangélica de Novo Hamburgo, no ano de 1983, quando os personagens citados, juntamente com alguns amigos, trocaram ideias que deram origem ao grupo no ano seguinte63. A data de fundação do grupo é uma referência às comemorações do
Jubileu de Prata do município de Campo Bom. Já o novo nome do grupo foi uma sugestão do professor, e ex-diretor do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo, Telmo Lauro Müller, amigo de Lenhard. Eintracht – quando traduzido para o português, significa Concórdia, mas
60 Acrescenta-se a esta tarefa de construção do grupo o nome de sua esposa Cristiane Lenhard e de sua irmã, Córdula Braun (in memoriam).
61 O histórico do grupo de Estrela está disponível em: <http://www.gruposfolcloricosdeestrela.com.br/>.
62 Sobre a festa do Chucrute e o grupo de danças folclóricas de Estrela consultar: NICOLINI, C. A construção da identidade territorial partir das manifestações culturais no vale do taquari: etnografia dos Grupos de Danças Folclóricas Alemãs de Estrela e do 47º Festival Do Chucrute. 2013, 206p. Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento Regional) – Universidade de Santa Cruz do Sul. Santa Cruz do Sul. 2013.
também se refere a um grupo de amigos, uma entidade associativa, como eram chamadas as antigas sociedades fundadas por imigrantes alemães, no Brasil.
O município de Campo Bom também teve papel fundamental na estruturação e manutenção do Eintracht durante todos esses anos. Mesmo que a entidade tenha se desatrelado do Departamento Cultural da Diretoria de Educação, Cultura e Assistência Social do município, no ano de 1991, a promoção da festa anual realizada pela entidade, e que lhe rende a verba mais representativa para seu custeio, sempre foi custeada pela instância executiva do município. De modo mais específico, a prefeitura custeou, ao menos até o ano de 2015, as despesas com a contratação de bandas que se apresentavam na festa anual do Eintracht, além de ceder o espaço para esse evento/baile – o ginásio municipal Karl Heinz Kopittke. Todavia, deixemos esse assunto para mais adiante, no subcapítulo em que discutimos a referida festa.
Tendo o Grupo Folclórico Alemão deixado de fazer parte do Departamento Cultural do município de Campo Bom, em virtude, principalmente, do seu auge estrutural, e também para possuir maior autonomia e isonomia nas suas decisões, o mesmo criou, em 10 de novembro de 1991, o seu estatuto64, dando origem a uma segunda fase da entidade. Nessa nova fase, com seu
estatuto de entidade jurídica, sem fins lucrativos, o grupo passou a se chamar Centro Cultural Eintracht.
A mudança de nome ocorreu pelo fato do grupo desenvolver atividades diversas, as quais transcendiam as atividades sobre as danças do folclore alemão, passando, também, a desempenhar outras atividades: como uma orquestra instrumental e a prestação de serviço social no atendimento a crianças carentes. Como consta no seu estato: “Para o Centro Cultural Eintracht, cultura, arte, cidadania e responsabilidade social andam juntas”.
Essa análise, voltada à história do grupo, nos permite dizer que o surgimento das danças folclóricas alemãs no município de Campo Bom, no Vale dos Sinos vincula-se, direta ou indiretamente, ao intercâmbio com a Alemanha. No entanto, o movimento dessas danças no município também se relaciona à história local, o que pode ser observado nos propósitos da fundação do grupo e, também, nos objetivos da “Ein Deutsches Volksfest”, traduzindo “Uma festa popular alemã”65 – e da sua “Noite alemã”, e que podem ser percebidos em algumas
matérias de jornais, como as seguir: “[...] reflorescer as raízes que seus antepassados plantaram”
64 Os objetivos do estatuto do Eintracht estão disponíveis no anexo c.
(O fato, 09/07/1993, p. 3; NH, 12/07/1993); “[...] a festa objetiva a preservação da cultura alemã no município” (comentário de José Lenhard ao jornal NH, 05/06/1987).
Embasados nas concepções de memória de Candau (2011), poderíamos também fazer uma associação entre as mencionadas matérias de jornais e a campanha de nacionalização do Estado Novo66. Mesmo que indiretamente, a ideia de preservação da cultura alemã no município
poderia, sim, ao menos em nosso entendimento, ser uma continuidade do movimento de reestruturação identitária alemã, no Brasil, iniciada com a formação dos Centros Culturais 25 de Julho nos anos de 1950, pós Segunda Guerra. Como relata Candau, a memória das tragédias também se constitui como um recurso identitário.
Nesse mesmo sentido, porém em relação à atuação do estado, Guizot (1816), citado por Guimarães (2006, p. 52) explica:
Mas, quando acontece uma dessas épocas fortes que transformam e confundem o mundo moral mais completamente ainda do que o mundo exterior e visível, após essas revoluções memoráveis que abrem um abismo imenso entre gerações quase contemporâneas, lançando bem longe na noite dos tempos um passado que acaba de terminar, as doutrinas fracas e mal compreendidas necessitam que o governo venha em seu socorro, que as retifique, que as estabeleça, que as sustente e lhes empreste sua força para posteriormente delas poder usufruir.
De outro modo, mesmo que não tenhamos investigado aqui, a década de 1980 foi marcadamente um período de efervescência cultural, denominado de “Correção de Rumos” (HOLLANDA, 2000, citado por ROSTOLDO, 2006), inclusive, como esclarece Chuva (2006) de ordem identitária nacionalista, o que também poderia explicar a ideia de “preservação” e “exaltação” do folclore alemão por parte do Eintracht, como uma ação identitária alemã, no Brasil. Por fim, também ficou demonstrado através do histórico do grupo, que seu movimento folclórico alemão não está vinculado somente à Alemanha, mas ao contexto de significação regional. Expresso de outra forma, embora o grupo folclórico Alemão, posteriormente, Centro Cultural Eintracht, seguisse o repertório e as coreografias das danças vindas da Alemanha, mediante trabalho da Casa da Juventude, em geral o fazia por motivos decorrentes da história regional.
66 Mesmo havendo um distanciamento temporal de quase 40 anos entre o fim da política do Estado Novo e a formação do Grupo Campobonense, consideramos haver uma ligação entre um fato e outro tendo em vista na gênese do movimento de restruturação do folclore alemão no Brasil está à ação do movimento estadista que tentou aniquilar as culturas estrangeiras no país. Sobre a campanha de nacionalização e a imigração alemão consultar: SEYFERTH, G. Identidade étnica, assimilação e cidadania: a imigração alemã e o Estado brasileiro. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 9, n. 26, p. 103-122, 1994.