Language Use and Social Inclusion in International Retirement Migration
8. Dimensions of Inclusion
Verificada a fatorabilidade dos dados (KMO = 0,757; Teste de Esfericidade de Bartlett: χ2
= 2484,285; p < 0,001), os mesmos foram considerados adequados para a
análise fatorial. Uma extração inicial, exclusivamente baseada no critério de valores próprios maiores do que um, gerou uma solução de dez fatores, depois diminuídos para oito fatores, com base no critério de cargas fatoriais mínimas. Apesar de um bom nível de variância explicada (65,09%), essa solução se mostrou pouco parcimoniosa, além de teoricamente confusa.
Dada a tridimensionalidade da escala proposta pelo modelo teórico (Thompson & Barton, 1994), o número de fatores a serem extraídos foi fixado em três, uma solução que explicou 28,813% da variância. Na primeira etapa de eliminação não foram observados itens que carregaram expressivamente em mais de um fator, tendo sido excluídos aqueles que apresentaram carga inferior a 0,50 (itens, 1, 5, 7, 8, 10, 11, 18, 19, 26, 30, 32 e 33 - ver Tabela C1, no Apêndice C). Com o mesmo critério, numa segunda eliminação, foram excluídos mais sete itens (4, 9, 13, 15, 17, 20 e 21 - Tabela C2, no Apêndice C). Por fim, com a eliminação de mais dois itens (14 e 23 - Tabela C3, no Apêndice C), foi encontrada a estrutura final da escala AEA, composta por doze itens, que explicou 56,64% da variância total (ver Tabela 5).
Tabela 5
Estrutura fatorial da Escala de Ambientalismos Ecocêntrico e Antropocêntrico (AEA), de Thompson e Barton (1994), com itens, cargas fatoriais, comunalidades (h²), número de itens, valores próprios, percentuais de variância e coeficientes Alfa de Cronbach
Itens Conteúdo Fatores h²
1 2 3
28 Estar na natureza é um grande redutor de stress para mim. 0,833 0,093 -0,008 0,703 12 Preciso passar algum tempo junto à natureza para ser feliz. 0,831 0,012 -0,129 0,708 16 Quando me sinto triste encontro conforto na natureza. 0,810 -0,011 -0,101 0,667
2 Gosto de passar algum tempo em ambientes naturais pelo simples
fato de estar em contato com a natureza. 0,782 -0,005 -0,086 0,619 29 Uma das razões mais importantes para conservar o ambiente é
assegurar um padrão de vida bom e contínuo. 0,054 0,778 -0,038 0,610 27 Precisamos preservar os recursos para manter uma alta qualidade
de vida. 0,076 0,734 -0,082 0,551
24 A natureza é importante porque pode contribuir para o prazer e
bem-estar humanos. 0,145 0,636 0,174 0,456
22 A razão mais importante para a conservação ambiental é a
sobrevivência humana. -0,058 0,632 0,044 0,405
31 O uso contínuo das terras para agricultura é uma boa idéia desde
que isso não interfira na qualidade de vida. -0,091 0,605 0,101 0,384 3 Ameaças ambientais tais como o desmatamento e a diminuição da
camada de ozônio têm sido exageradamente divulgadas. -0,035 0,061 0,808 0,538 6 A maioria dos ambientalistas é pessimista e um tanto paranóica. -0,076 -0,176 0,706 0,658 25 Dá-se ênfase excessiva à conservação. -0,170 0,209 0,682 0,535 Número de Itens 4 5 3 -
Valor próprio 2,73 2,40 1,70 - Percentual de variância 22,75 20,00 14,18 - Percentual de variância acumulada 22,75 42,76 56,94 - Coeficiente Alfa de Cronbach 0,839 0,701 0,660 -
Fator 1 = Ambientalismo Ecocêntrico; Fator 2 = Ambientalismo Antropocêntrico; Fator 3 = Apatia Ambiental
No estudo de proposição da escala, Thompson e Barton (1994) elencaram doze variáveis (itens) para mensurar o ambientalismo ecocêntrico, doze variáveis para mensurar o ambientalismo antropocêntrico e nove variáveis para mensurar a apatia ambiental. As autoras observaram, ainda, a convergência entre a orientação ecocêntrica e a medida de comportamento pró-ecológico, assim como a correlação negativa e
significante entre esta mesma orientação ecocêntrica e a apatia ambiental. Embora as autoras não apresentem uma análise fatorial detalhada em seu artigo original, é interessante atentar para os resultados relatados pelas autoras em comparação com os resultados encontrados na presente análise, conforme o exposto na Tabela 6.
Tabela 6
Comparação entre os resultados obtidos no estudo original (T&B; Thompson & Barton, 1994) e os resultados obtidos na presente análise (Diniz)
Número de Itens Valor Próprio* Percentual de
Variância* Alfa de Cronbach T&B Diniz T&B Diniz T&B Diniz T&B Ambientalismo
Ecocêntrico 12 4 - 2,73 - 22,75 0,78 0,83
Ambientalismo
Antropocêntrico 12 5 - 2,40 - 20,00 0,67 0,70
Apatia Ambiental 9 3 - 1,70 - 14,18 0,82 0,66
(*) Dados não disponíveis no artigo original (Thompson & Barton, 1994)
O primeiro fator, denominado “Ambientalismo Ecocêntrico” (AmbEco), agrupou 4 itens, referentes à associação entre afetos positivos e bem-estar pessoal e o contato com a natureza. Tais itens também foram identificados como de caráter “ecocêntrico” na versão original da escala. Suas cargas fatoriais foram as mais altas e variaram entre 0,83 e 0,78, explicando a maior parte da variância total (22,75%), tendo apresentado valor próprio igual 2,73. Para o fator referente ao ambientalismo ecocêntrico, Thompsom e Barton (1994) obtiveram um índice de consistência interna (Alfa de Cronbach) igual a 0,78, ligeiramente inferior ao do presente estudo, 0,83.
Os itens relativos ao ambientalismo ecocêntrico que não fizeram parte deste fator, na presente análise, versavam sobre sentimentos negativos acerca da degradação ambiental (itens 1, 5 e 21), sobre preservação de áreas naturais (itens 7 e 30) e sobre a pertença do homem ao ecossistema como semelhante a outros animais (26, 32 e 33). A exclusão destes itens sugere numa baixa consideração de tais aspectos relativos ao
ambientalismo de caráter ecocêntrico e precisa ser considerada numa análise ampla acerca dos pilares das atitudes ecocêntricas.
O segundo fator, “Ambientalismo Antropocêntrico” (AmbAnt), foi composto por 5 itens, referentes tão somente ao ambientalismo de caráter antropocêntrico e que preza pela manutenção dos recursos em função do benefício humano, também de forma semelhante ao proposto pelas autoras na escala original. Este fator apresentou cargas fatoriais que variaram entre 0,77 e 0,60, explicando 20% da variância total e com valor próprio igual a 2,40. O índice de consistência interna para este fator encontrado na proposição da escala original foi ligeiramente inferior (0,67) ao encontrado na presente análise (0,70).
A fim de alcançar melhor consistência interna para este fator, Thompson e Barton (1994) sugeriram a exclusão dos itens 8, 13 e 19, que foram, também, excluídos na presente análise. Os demais itens excluídos mantiveram relação com perdas para a qualidade de vida e satisfação das necessidades humanas (itens 4, 11 e 14) e sobre ganho financeiro (item 23).
O terceiro fator, “Apatia Ambiental” (ApaAmb), agrupou 5 dos 9 itens propostos na escala original relativos à apatia, ou seja, à indiferença e não envolvimento com a questão ambiental. As cargas fatoriais neste fator variaram entre 0,80 e 0,68 que explicaram 14,18% da variância total, com valor próprio de 2,16. Diferentemente da versão original da escala, cujo índice de consistência interna foi superior (0,82), nesta análise o fator apresentou um índice de consistência interna igual a 0,66.
Os itens excluídos da formação deste fator na presente análise versavam sobre a indiferença frente aos problemas ambientais e esgotamento dos recursos (itens 9, 10 e 18), não dependência dos seres humanos em relação aos recursos naturais (item 15),
sobre a crença na natureza resiliente (item 17) e sobre uma postura contrária à conservação de áreas selvagens (item 20).
A partir do cálculo dos escores para cada fator, foram realizadas associações com a prática de cuidado ambiental. Foram observadas diferenças entre os grupos quando em relação ao Ambientalismo Antropocêntrico (U = 10174,50; p = 0,009) e a Apatia Ambiental (U = 9660,00; p = 0,008), tendo o grupo de não-cuidadores apresentado maiores pontuações em ambas as variáveis, conforme observado na Tabela 7.
Tabela 7
Médias (M), desvios-padrão (DP) e mediana (Md) dos fatores da escala de AEA para a variável prática de cuidado ambiental
Fatores
Pratica Cuidado Ambiental
Não Sim M(DP) Md M(DP) Md Ambientalismo Ecocêntrico 4,02(1,23) 4,26 4,25(1,08) 4,46 Ambientalismo Antropocêntrico 3,43*(0,79) 3,53 3,17(0,81) 3,27 Apatia Ambiental 2,31*(1,12) 2,16 1,93(0,91) 1,87 * p < ou = 0,05 (teste bicaudal)
As associações observadas correspondem ao esperado, visto que corroboram a expectativa pontuada na literatura sobre a relação entre o ambientalismo de caráter antropocêntrico e comportamento pró-ecológico. No entanto, Schultz e Zelezny (1999) apontaram a associação negativa entre o auto-relato de comportamentos pró-ecológicos e a medida de antropocentrismo da escala de Thompson e Barton (1999) como uma limitação. Porém, estando a orientação antropocêntrica pautada na superioridade humana sobre a natureza, tal como afirmam Hernández et al. (2010), é possível inferir uma relação com práticas mais voltadas para o controle e a manipulação dos recursos em prol da qualidade de vida humana, que vai numa direção diferente da sugerida pela noção de cuidar.
Assim como apontaram Thompson e Barton (1994), no presente estudo a Apatia Ambiental apresentou associação com a não adesão a práticas pró-ecológicas. Esta dissociação entre apatia e cuidado justifica-se pela postura de indiferença frente às questões ambientais.
Vale ressaltar a não diferenciação entre os grupos de cuidadores e não- cuidadores em função da variável Ambientalismo Ecocêntrico. Ambos os grupos apresentaram médias altas e próximas nesta variável, o que sugere o efeito de bem estar proporcionado pelo contato com a natureza independentemente de haver ou não a prática de cuidado ambientale/ou uma desejabilidade social que independe do tipo da pessoa (cuidadora ou não).
Quanto à importância auto-atribuída pelo respondente aos tipos de influências recebidas para a prática de cuidado ambiental, foram observadas associações da escala AEA com a influência da família, da igreja e do contato com a natureza, conforme exposto na Tabela 8.
Tabela 8
Correlações entre tipos de influências recebidas para o cuidado ambiental e os fatores da escala AEA
Fatores
Tipos de influência recebida
Família Escola Igreja Natureza Rede Social (p) (p) (p) (p) (p) Ambientalismo Ecocêntrico 0,154** (0,003) 0,090 (0,083) 0,121* (0,020) 0,361** (0,001) 0,086 (0,095) Ambientalismo Antropocêntrico 0,002 (0,966) 0,040 (0,434) 0,105* (0,043) -0,097 (0,061) -0,065 (0,208) Apatia Ambiental 0,023 (0,658) -0,017 (0,741) -0,087 (0,095) -0,040 (0,445) 0,086 (0,098) = Coeficiente de Spearman * p < ou = 0,05 (teste bicaudal) ** p < ou = 0,01 (teste bicaudal)
O Ambientalismo Ecocêntrico apresentou correlações com as influências da família, da igreja e do contato direto com a natureza. A influência da família está claramente relacionada com o componente afetivo, característico dos itens que compõem o fator. A correlação entre o fator e o contato direto com a natureza pode ser considerada quase moderada e também é pautada pelo componente afetivo. Em seu estudo, Chawla (1999) encontrou uma associação entre os dois tipos de influência, da família e do contato com a natureza, marcado pelas experiências infantis em contextos naturais vivenciados em conjunto com a família ou com um familiar específico.
A correlação entre o Ambientalismo Ecocêntrico com a influência da igreja pode estar associada ao discurso sobre amar e cuidar difundido nas religiões cristãs, prevalentes em nossa cultura. De outra forma, a correlação observada entre o Ambientalismo Antropocêntrico e a influência da igreja pode estar relacionada com a visão antropocêntrica, também característica da tradição judaico-cristã (Hernández et al, 2010). De acordo com Chawla (1999), a influência dos princípios religiosos ou éticos tornam-se mais significantes com o aumento da idade.
Quanto às associações com os dados sociodemográficos, em relação à variável sexo, houve diferenças significativas para os fatores Ambientalismo Ecocêntrico (U = 10155,0; p = 0,004) e Apatia (U = 8423,50; p < 0,001). Conforme observado na Tabela 9, as mulheres apresentaram maior média em Ambientalismo Ecocêntrico, e os homens obtiveram maior média no fator Apatia.
Tabela 9
Médias (M), desvios-padrão (DP) e mediana (Md) dos fatores da escala AEA e a variável sexo Fatores Sexo Feminino Masculino M(DP) Md M(DP) Md Ambientalismo Ecocêntrico 4,31*(1,04) 4,47 3,85(1,27) 4,45 Ambientalismo Antropocêntrico 3,24(0,79) 3,32 3,16(0,89) 3,26 Apatia Ambiental 1,86(0,88) 1,73 2,49*(1,10) 2,46 * p < ou = 0,05 (teste bicaudal)
As mulheres apresentaram maior orientação ecocêntrica e, consequentemente, maior predisposição para agir de forma pró-ecológica. Sobre a predisposição para práticas pró-ecológicas específicas, Castro (2002) encontrou escassas diferenças significativas para sexo (mulheres mais dispostas ao uso de transporte ecologicamente corretos e homens mais dispostos ao voluntariado ambiental). A literatura aponta para dados inconclusivos acerca da influência do sexo para o compromisso pró-ecológico, visto que mediante o controle de outros fatores influência pode ser contestada (Corral- Verdugo, 2001; 2010; Barreiros, Ferreira, & Vieira, 2004).
Vale ressaltar que, embora tenha sido encontrada diferença entre sexo em relação ao fator Ambientalismo Ecocêntrico, este dado vai de encontro com a inexistência de associação entre sexo e o cuidado ambiental (referenciada na seção anterior), o que sugere a predisposição para a ação, mas não a sua efetividade. Tal como afirma Corral-Verdugo (2001), as mulheres apresentam maior interesse pela questão ambiental, mas isto não se aplica ao comportamento efetivo.
Em relação à idade, observou-se a correlação positiva desta variável com o Ambientalismo Ecocêntrico (r = 0,133; p = 0,010) e, ainda que fraca, uma correlação negativa da idade com a Apatia Ambiental (r = -0,104; p = 0,044). Segundo Corral- Verdugo (2001), apesar de tratar-se de um potencial preditor de práticas pró-ecológicas,
em praticamente todas as tentativas de associação, são encontradas relações fracas entre idade e compromisso pró-ecológico.
Foram observadas associações significativas entre a variável curso e os fatores Ambientalismo Ecocêntrico (Kruskal-Wallis = 10,53; p = 0,03), Ambientalismo Antropocêntrico (Kruskal-Wallis = 20,12; p < 0,001) e Apatia Ambiental (Kruskal- Wallis = 48,58; p < 0,001). As médias por fator variaram entre 4,44 (Ambientalismo Ecocêntrico) e 1,73 (Apatia Ambiental) e foram observadas associações significantes entre esta variável e os três fatores (Tabela 10).
Tabela 10
Médias (M), desvios-padrão (DP) e mediana (Md) dos fatores da escala AEA e a variável curso
Fatores
Curso
Geografia Serviço Social Ecologia Enfermagem Biologia
M(DP) Md M(DP) Md M(DP) Md M(DP) Md M(DP) Md
AmbEco 3,72(1,45) 4,04 4,31(1,00) 4,47 4,44*(1,01) 4,68 4,12(0,99) 4,07 4,24(1,17) 4,47
AmbAnt 3,37*(0,82) 3,44 3,40(0,72) 3,51 3,02(0,83) 3,37 3,33(0,75) 3,08 2,91*(0,90) 2,84
ApaAmb 2,97*(1,06) 2,92 1,73(0,96) 1,45 1,96(0,78) 1,94 1,83(0,75) 1,72 2,05(0,95) 1,94
* p < ou = 0,05 (teste bicaudal)
Quanto ao Ambientalismo Antropocêntrico – cujas médias variaram entre 2,91 e 3,40 – e a Apatia Ambiental – com médias entre 1,73 e 2,97 - observou-se queos alunos dos cursos de ecologia e biologia apresentaram menores médias e, diferente do esperado, os alunos do curso de geografia apresentaram médias mais próximas das pontuações dos alunos de serviço social e enfermagem. Em relação ao Ambientalismo Ecocêntrico, é possível notar que as médias variaram entre 3,72 e 4,44; valores sempre acima do registrado para os outros dois fatores, o que sugere a presença da desejabilidade social em atribuir valor positivo à natureza.