Listam-se algumas das iniciativas com uma rápida descrição. Todas elas oferecem elementos para o estudo da estrutura e dos elementos do método propriamente dito do Backcasting.
1) O Backcasting foi utilizado em estudos energéticos nos anos 70, quando Lovins o propôs como uma técnica alternativa de planejamento para a oferta e demanda de eletricidade (Robinson sugeriu o termo
Backcasting energético). Nesta oportunidade, Lovins descreveu o
método como uma análise de olhar para trás.
2) Anderson (2001) relata como o Conselho de Pesquisa Energética sueco financiou um estudo que aplicava a abordagem de Backcasting a um plano energético, procurando reconciliar a indústria de eletricidade com o desenvolvimento sustentável.
3) Robinson (1982) vem aplicando Backcasting ao campo de Avaliação de Tecnologia Construtiva (CTA), criando uma relação conceitual entre o método dos passos e a CTA.
4) Na Suécia, o Backcasting também foi elaborado como uma metodologia para planejamento estratégico de sustentabilidade em empresas.
5) Projeto SusHouse: enquanto o foco do programa DTS (Desenvolvimento de Tecnologias Sustentáveis)12 se centrava nas tecnologias sustentáveis, o projeto SusHouse procurava desenvolver e testar estratégias para lares sustentáveis no futuro. O propósito do relato de Quist e Vergragt (2006) é mostrar os resultados do projeto.
Financiado pela União Europeia, o projeto se preocupava em desenvolver e avaliar estratégias para transições para lares sustentáveis. Seu ponto de partida foi que uma combinação de mudanças tecnológicas, culturais e estruturais seria necessária para atingir um ganho ambiental de Fator 20 nos próximos 50 anos, levando em conta inovações no sistema e uso de produtos.
Outro ponto de partida importante foi envolver stakeholders no processo de (re)desenhar a satisfação das necessidades de um lar em compatibilidade com o conceito de desenvolvimento sustentável.
12 No início dos anos 90, o programa governamental para DTS foi iniciado na Holanda com o
objetivo de explorar inovações de sistema em direção à sustentabilidade e de identificar oportunidades e possibilidades para Desenvolver Tecnologias Sustentáveis (DTS). O programa DTS foi de 1993 a 2001.
6) Estudo de caso de nutrição na Holanda. A construção de cenários para nutrição na Holanda foi baseada nos resultados de uma oficina de criatividade de stakeholders, que reuniu uma ampla gama deles e a metodologia de Cenário Orientador de Design (DOS) de Jegou e Manzini. Cenários do tipo DOS contêm uma visão, características principais, storyboards e uma análise de Backcasting.
Esses cenários podem ser vistos como alternativas sustentáveis para possíveis maneiras atuais e futuras de viver, submetidas a três avaliações de cenários conduzidas ao longo da análise de Backcasting.
Importante ressaltar que foi para os programas de Desenvolvimento de Tecnologias Sustentáveis que pela primeira vez Weaver et al. (2000) elaboraram uma série sequencial de passos para aplicação do Backcasting.
7) Ao longo dos estudos do DTS (Desenvolvimento de Tecnologias Sustentáveis) surgiram novos projetos para novos alimentos, em particular os de Novos Alimentos Proteicos (NAP), como alternativa sustentável ao presente consumo e produção de carne, com o potencial de satisfazer o desafio do Fator 20.
8) Em março de 2009, Jaco Quist, da Faculdade de Tecnologia, Política e Administração, da Delft University of Technology, apresentou um projeto base Backcasting para uma universidade sustentável. Nome do projeto: Greening the Ivory Tower.
9) Canadian Sustainability Indicators Network (CSIN) – Alaya Boisvert, Sarah Cheevers, Erin Romanchuk & Karen Stroebel, Blekinge Institute of Technology, da Suécia, apresentaram, em setembro de 2008, um planejamento sustentável para comunidades: um exemplo prático de como o Backcasting pode ser implementado para estabelecer os indicadores do processo de planejamento, participando do Canadian Sustainability Indicators Network (CSIN). A Rede Canadense de Indicadores de Sustentabilidade – CSIN – conta com mais de 600 profissionais no Canadá e no resto do mundo, trabalhando em diversos contextos governamentais e não governamentais. Os profissionais partilham os recursos numa listserv e na internet; participam de regulares eventos de partilha de conhecimentos chamados Learning
Events. A CSIN’s é um raro sistema de reunião de profissionais
engajados em refletir sobre uma visão mais aberta em relação a um discurso e a uma prática de indicadores de sustentabilidade para o desenvolvimento do Canadá. A CSIN inclui cientistas brasileiros. 10) Projeto de Futuro da Bacia da Georgia (Georgia Basin Futures Project), realizado no Oeste do Canadá, utiliza o Backcasting para
definir de forma participativa, com especialistas e atores locais, o futuro da comunidade nos próximos 40 anos.
Abre-se aqui um parêntese na discussão do método Backcasting, delongando-se sobre um projeto em andamento, descrito em obra de Robinson (2003), para que se tenha uma ideia concreta de como se aplica o método, diferentemente da aplicação que se oferece nos próximos capítulos, que não passa de uma aplicação teórica, tendo-se por base a dados reais, com o uso das ferramentas preconizadas.
A obra tem quatro objetivos, quais sejam:
1) desenvolver e analisar cenários de possíveis transições econômicas, sociais e ecológicas na Bacia da Georgia nos próximos 40 anos, que considerem a redução dos impactos ecológicos e a promoção da qualidade de vida;
2) desenvolver um diálogo com os diversos públicos interessados, tomadores de decisão regionais e governamentais, primeiramente para incorporar nos cenários as suas preferências para futuros sustentáveis e, segundo, para avaliar a utilidade e as consequências do uso de modelos computacionais tipo jogos para engajamento comunitário;
3) desenvolver um conjunto de ferramentas de softwares interativos que vão apoiar os dois primeiros objetivos;
4) colaborar com os pesquisadores em outros locais para desenvolver estudos de casos comparativos de sustentabilidade regional internacionalmente.
Esse projeto utiliza Backcasting participativo, voltado para negociação e aprendizagem entre os atores locais, considerado por Robinson (2003) como uma segunda geração de Backcasting, enfatizando o processo de aprendizagem social. Para auxiliar o processo participativo, foi desenvolvido um software chamado QUEST, que combina as características de um jogo de computador (divertido de usar) e de um sistema de modelagem acadêmico (próximo à realidade).
Essa ferramenta de modelagem permite que os moradores locais possam simular cenários alternativos até chegarem ao cenário de seu agrado. O elemento de Backcasting consiste na repetição da iteração para alcançar os objetivos desejados.
Nessa abordagem, não é necessário que os elementos de um futuro desejado sejam determinados antecipadamente. Em vez disso, o usuário entra em um processo de aprendizagem e descoberta, no qual o futuro desejado é produto do processo da tentativa de alcançá-lo. Assim, o usuário pode mudar de ideia sobre o que é desejável com base na observação dos resultados das suas escolhas.
Essa ferramenta permite unir ao processo de planejamento e estudo do futuro o conhecimento dos especialistas, no desenvolvimento do comportamento do sistema, além de levar em conta valores, crenças, atitudes e preferências da comunidade, conforme ilustrado na Figura 10.
.
Figura 10 - Combinação do conhecimento de especialistas e moradores locais sobre uma nova forma de conhecimento
Fonte: Robinson (2003).