2. eTwinning
2.2 Digital competence through eTwinning
A derrota de Lúcio Alcântara, em 2006, para o candidato do PSB, Cid Ferreira Gomes, indicou o fim da gestão de Cláudia Leitão à frente da SECULT. Como sinalizado por Novaes (2008), a derrota indicava que a moeda da modernização, agora encampada por Cid Gomes, derrotou no campo político das batalhas discursivas a simbólica da cearensidade, imagem-marca da gestão de Lúcio Alcântara.
No lugar de Leitão, foi nomeado o professor e filósofo Auto Filho. Indicação da prefeita de Fortaleza Luizianne Lins (2004-2012), como resultado da aliança política realizada para a eleição de Cid Gomes ao governo do Estado162, o secretário, em sua posse, demonstrou a importância do Governo do Estado alinhar-se às políticas públicas desenvolvidas em nível federal: “O Ceará está precisando dar um salto, seja na sua economia, na sua cultura, mas também na sua política. Precisamos ter unidade política para fazer do Estado um dos mais destacados na relação com o Governo Federal”.163 Tal postura do secretário é razoável, visto sua pertença ao Partido dos Trabalhadores que compunha a base aliada de Cid Gomes no Ceará e partido no poder no executivo federal.
Com a mudança de gestão, viu-se uma certa alteração na rota das ações do órgão. Como aponta Barbalho e Holanda (2013), o compromisso com o pacto federalista na seara cultural permaneceu, no entanto, sobre outros parâmetros, tendo a gestão de Auto Filho focado no empenho em aderir à estadualização dos pontos de cultura. De acordo com os números divulgados pelo Perfil dos Estados e Municípios, pode-se afirmar que este vetor da gestão de Auto Filho logrou êxito, pois entre todos os estados do País, o Ceará ocupava, no ano de 2014, a segunda posição entre os estados com maior percentual de municípios com Pontos de Cultura, um total de 59,8%. O primeiro colocado era o Rio de Janeiro com o índice de 64,1% (PERFIL, 2015).
162 O anúncio do novo secretário de cultura, sucessor de Cláudia Leitão, foi feito às vésperas da posse de Cid
Gomes. Tal indicação, mesmo sendo fruto de arranjo político, contou com alguns entraves, pois o governador tentou trazer para o cargo outro petista, o deputado estadual Artur Bruno. (AUTO Filho na Secult. Jornal Diário
do Nordeste, Fortaleza, 03 de janeiro 2007. Disponível em: <http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/caderno-3/auto-filho-na-secult-1.356146>. Acesso em: 05 Out. 2015.)
163 AUTO Filho na Secult. Jornal Diário do Nordeste, Fortaleza, 03 de janeiro 2007. Disponível em:
<http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/caderno-3/auto-filho-na-secult-1.356146>. Acesso em: 05 Out. 2015.
134 Mesmo diante das descontinuidades das gestões164, algumas medidas estruturantes encampadas na gestão de Leitão também conseguiram estabelecer uma curva ascendente. Em um comparativo dos dados de 2006 e 2014 do Perfil dos Estados e dos Municípios Brasileiros, percebe-se um crescimento no número de Conselhos Municipais de Cultura de 43 para 113. Outro exemplo é o número de secretarias exclusivas para o setor da cultura, em 2006, o número era de 10 secretarias; em 2014, este número subiu para 60. Fenômeno que imprime um caráter de fortalecimento à institucionalidade da cultura em diversos municípios do estado (PERFIL, 2007; 2015).
Por outro lado, o número de Planos Municipais retrocedeu, em 2006 eram 71, em 2014 o número havia caído para 38. Outro fenômeno que também parece não ter conseguido se estabelecer com satisfatória continuidade foram os cursos de capacitação, sobretudo os que formavam profissionais para a captação de recursos. Este tipo de formação tinha sido uma das preocupações frequentes na gestão de Leitão, mas no ano de 2014 não constava como modalidade de cursos ofertada pela SECULT (PERFIL, 2015).
Os dados aqui brevemente apresentados são indicativos que nos permitem visualizar um processo mais geral das continuidades e inflexões características da gestão pública de cultura no Ceará. Além disso, eles evidenciam como a interiorização foi uma marca da gestão de Leitão à frente da SECULT. Com a sua saída o projeto tomou outros contornos e as ações de interiorização sofreram um certo recuo.
A valorização das culturas regionais, assim como a forte presença estadual da SECULT foi atestada como a insígnia da gestão de Leitão. Este fenômeno pode ser indicado a partir da fala de Oswald Barroso, em matéria do Jornal O Povo, já no ano de 2007 que buscava estabelecer um balanço da gestão de Leitão e das expectativas para a gestão seguinte: “Penso que o maior mérito da ex-secretária Cláudia Leitão foi o de ter levado a ação da Secult ao conjunto do Estado, entendendo cultura como algo que diz respeito a toda a população”165.
164 Na segunda gestão de Cid Gomes, sai Auto Filho e entra o político Professor Pinheiro (PT). A passagem de
Pinheiro pela SECULT foi cercada de tensões com o campo artístico. Um momento importante dessa movimentação teve como espaço a Praça do Ferreira, uma vez que a SECULT se localizava no Cine São Luiz. O intuito dos artistas e gestores, participantes dessa manifestação,era recepcionar o Secretário de Cultura do Estado e protocolar um documento com mais de 1.200 assinaturas criticando a forma de gestão vigente. Com o desgaste das relações entre o secretário e os artistas, Pinheiro é substituído por Paulo Mamede. Após Mamede, assumiu a pasta o político Guilherme Sampaio que, em 2016, foi substituído por Fabiano dos Santos que ainda permanece à frente da pasta.
165 TRANSVERSALIDADE da Cultura. Jornal O Povo. Fortaleza, 09 de janeiro de 2007. Disponível em:
<http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2007/01/09/noticiasjornalopiniao,660878/transversalidadedacultu ra.shtml>, acesso em 10 Jun 2016.
135 Por outro lado, pode-se afirmar que o projeto de “descentralização” e “interiorização”, proposto na gestão de 2003-2006, se estabeleceu como um dos projetos possíveis no espectro das gestões públicas de cultura no Ceará. Exemplo disso é que, em 2016, Fabiano dos Santos Piúba166 foi nomeado Secretário de Cultura do Estado do Ceará. Fabiano fora Coordenador de Política do Livro e Acervo na gestão de Leitão. Isso indica que a presença desses sujeitos ganhou certo reconhecimento no que tange suas relações com as políticas públicas de cultura no Estado, o que faz com que seus nomes e “serviços” sejam acessados pelos governos estaduais.
Além da presença, arrisca-se sinalizar que muitos dos agentes que compuseram a equipe de gestão da SECULT, entre 2003 e 2006, alinham-se com a linha operante proposta naquele momento. Um exemplo disso pode ser tomado a partir da experiência recente do secretário Fabiano dos Santos, por meio da qual se percebe a preocupação com a presença da SECULT no interior do estado.
Em matéria ao Jornal O Povo, intitulada “A política cultural mais forte no interior167”, a SECULT, através do programa "Os 7 Cearás", estaria fortalecendo suas ações no interior do estado. O projeto de gestão, de acordo com o Plano Estadual de Cultura, tinha como intuito implantar novos centros culturais nos municípios interioranos, além da construção de salas de cinema e a destinação de 50% dos recursos de todos os editais da cultura para o interior. Tais informações, ainda que elementares, buscam lançar redes sobre o tempo que se passou desde o fim da gestão analisada no presente texto. Para sínteses analíticas mais acuradas e detalhadas seria preciso mais tempo e espaço, dos quais a pesquisa não dispõe. Por outro lado, elas se tornam relevantes para sedimentar as conclusões que serão apresentadas no próximo capítulo acerca das perguntas de partida e das hipóteses estabelecidas como fios condutores desta produção.
166 FABIANO dos Santos é o novo secretário da Cultura do Ceará. Jorna O Povo. Fortaleza, 25 de fevereiro de
2016. Disponível em: <https://www20.opovo.com.br/app/politica/2016/02/25/noticiaspoliticas,3579816/fabiano- santos-e-o-novo-secretario-de-cultura-do-ceara.shtml>, acesso em 10 dez 2017.
167 A POLÍTICA cultura mais forte no interior. Jornal O Povo. Fortaleza, 20 de março de 2017. Disponível em:
https://www.opovo.com.br/jornal/opiniao/2017/03/fabiano-dos-santos-piuba-a-politica-cultural-mais-forte-no- interior.html, acesso em 10 Dez 2017.
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