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De 1960 a 70, ocorreu um intenso processo de industrialização, imigração e crescimento do espaço urbano em São José dos Campos, colocando novos desafios para a cidade, relativos à ordenação territorial e à problemática social advinda de um processo de favelização.

Nesse contexto, a questão do desenvolvimento regional21 adotada pelos planejadores

governamentais da época punha a reboque a iniciativa privada. Além disso, excluía-se desse processo a grande maioria da população da região e do município em particular, marcando uma forma excludente em relação à questão da cidadania, em São José dos Campos.

A cidadania plena era negada enquanto participação nos processos decisórios desde então, mesmo em uma recente república, porém carregada com as marcas de um passado latifundiário, escravocrata e monocultor.

Essa república excludente e não-participativa no ordenamento territorial da cidade estava cada vez mais imersa em intenso regramento jurídico, estabelecendo com precisão as formas de ocupação do espaço urbano, que visavam a garantir a propriedade privada da terra e

seu uso no interesse do capital e do Estado, na cidade de São José dos Campos22.

Se, no período sanatorial em São José dos Campos, as organizações religiosas possuíam um papel importante no zoneamento da cidade, a partir de 1960, não apenas esse passado é alvo de ‘certo esquecimento’, como mudaria sua ‘funcionalidade’ urbana, restrita às ‘questões religiosas’. Ainda assim, essa mudança ocorreria em legitimação dos atores sociais hegemônicos de então, representados, sobretudo, pelos setores comercial, industrial e governamental, em que se considerem as camadas populares alienadas em seu cotidiano, entre o trabalho, a moradia e o lazer.

Essa população alienada expressava certo assentimento às transformações na cidade, na medida em que ‘se sujeitava’ a ser governada pelo poder de uma nova elite que se estruturou na cidade desde os anos 30, em estreita consonância com os interesses governamentais federais e estaduais e, desde os anos 50, mais intensamente com o capital industrial nacional e estrangeiro.

Desde então, novas diretrizes de planejamento urbano e regional se fizeram presentes no município, expressas nos Planos Diretores de Desenvolvimento Integrado de 1958-64 (1° PDDI), 1968-69 (2° PDDI) e 1975-95 (3° PDDI) e, em termos regionais, no Plano Regional do Macroeixo Paulista, realizado pelo governo do Estado.

Essas ações planificadas expressavam, com exceção do 1° PDDI, as políticas territoriais dos governos militares no Brasil entre 1964-84, que estruturaram os usos territoriais na região e em São José dos Campos, em função dos interesses do capital industrial, imobiliário, financeiro e comercial, nacionais e estrangeiros.

Somem-se a esses fatos os interesses hegemônicos na formação de determinado tipo de cidadão, adequado a essa nova ordem socioespacial que se impunha às massas urbanas, caracterizadas por sua passividade e assentimento a esses projetos hegemônicos.

As populações que afluíram a São José dos Campos, fomentando sua urbanização e industrialização, entre os anos de 1970 e 80, eram oriundas de cidades da região do Vale do

Paraíba e de outros estados do país23, desterritorializadas do campo a partir da ‘imposição’ da

miséria, e reterritorializadas no espaço urbano, a partir de uma promessa de prosperidade econômica na cidade.

Essa população sem raízes na cidade, desde que formada por migrantes, e mesmo uma pequena parcela enraizada na cidade desde gerações anteriores, apresentar-se-ia cada vez mais ignorante acerca dos significados da cidade que ajudava a construir. Pois, além do desenraizamento/reenraizamento do migrante, houve um total redesenho do município,

tornando-o estranho a seu citadino24, seja este migrante ou não, dificultando-lhe uma apreensão da cidade que facultasse alguma forma de participação no governo do território.

No entanto, tais transformações urbanas foram favoráveis à manutenção de determinadas formas de governo da cidade, marcadas por processos de exclusão socioespaciais desfavoráveis à formação de uma cidadania política local.

Desde os anos 70, São José dos Campos passaria a ser uma das poucas cidades brasileiras em que a indústria, a ciência e a tecnologia, conjuntamente a um complexo industrial-militar, comandariam a dinâmica da vida socioespacial do município, projetando a cidade e seus produtos e serviços para além de suas fronteiras territoriais limítrofes e

Com isso, o ‘cidadão joseense alienado’ seria ‘estruturado’ alinhado, em termos ideológicos, com os projetos das elites locais, nacionais e internacionais, orientadas a partir das intensas intervenções governamentais e do capital nacional e estrangeiro, consoante a uma estrutura sociourbana, na cidade, desde os anos 30.

As organizações religiosas no município, que, desde o período sanatorial até a década de 1960, tinham sua ‘razão de ser’ em função de uma apropriação instrumental de cunho assistencialista, passariam a legitimar outro processo socioespacial representado por uma modernização a partir da consolidação da industrialização, da presença de tecnologia de ponta e da forte influência militar na cidade.

Na medida em que as organizações religiosas promoviam ideologicamente, entre seus fiéis, tal modelo de cidade tecnológica e militar, e de desenvolvimento econômico, suas devoções apresentavam uma expressão desse desejo em participar desse modelo de progresso.

Do lado dos dominados, ia-se formando uma moralidade ávida pelas novas oportunidades de empregos que se abririam no município, mas essa população era ‘incapacitada’ a questionar o ‘seu lugar na cidade’, sem se tornar efetivamente cidadã.

A industrialização e a urbanização em São José dos Campos formaram um cidadão cooptado pelo progresso material, mais preocupado com seu salário e com sua colocação nessas estruturas industriais, militares e de serviços, do que com sua participação no governo dessas mudanças, às quais assistia passivamente, desde que favorecido por um ideal de consumo de massa dos objetos que em parte (o) produzia.

Esse joseense possuía, desde então, uma mentalidade política alienada e ferrenhamente alinhada ao discurso desenvolvimentista e militar na cidade, de modo que essa massa urbana ‘fazia-se surda’ a quaisquer outros caminhos de participação que não o meramente material, um ideal de consumo tomado como símbolo de inserção social e status entre as classes

trabalhadoras, ainda que limitado aos que possuem renda26.

Exemplo disso foi, em 1969, a inauguração da Embraer em São José dos Campos, que passou a ser um dos símbolos de sua pujança econômica, influenciando fortemente o imaginário dessa população joseense, que tem projetado nessa empresa, desde então, um dos ‘símbolos máximos da modernidade da cidade’, um município eminentemente científico,

tecnológico, industrial e militar, mas caracterizado por profundas desigualdades socioespaciais.

Em termos simbólicos de um inconsciente estético27, São José dos Campos materializa

literalmente a capacidade produtiva de ícones da modernidade brasileira, mas, ao mesmo tempo, aprisiona outras formas de completude humana.

Essa é uma forma de se interpretar parte dessas ambiguidades e contradições que dizem respeito a uma dada ‘formulação do cidadão’ através de um espaço construído para esse tipo de ‘habitante idealizado’ pelos poderes do Estado, do capital, e também da religião.

Ironicamente, tal ‘cidadão’ se revela antes como alienação e renúncia em um ‘espaço modernizante’ ‘que fala por esse cidadão’ e ‘dita’ sua agenda e ‘vontade’, forjadas por ações que lhes são estranhas, exteriores e alienantes.

Se, no projeto de modernização brasileiro, Brasília é uma cidade para o automóvel e possui uma forma urbanística para o ‘Plano Piloto’ na forma de um avião, a cidade de São José dos Campos também reunia, desde a década de 60, esta capacidade produtiva da indústria automobilística, e, desde os 70, contava com a presença da indústria aeronáutica, impactando a identidade do citadino joseense até os dias atuais, firmando, nos espaços produtivos da cidade, imbricações simbólicas e de alinhamento ideológico com o novo espaço

urbano do poder federal, representado por sua capital28.

A Embraer, de certo modo, ainda desempenha uma importante representação material e simbólica da ‘prosperidade’ de São José dos Campos, e também dos sucessos e insucessos que ressoam no imaginário de seu citadino, sendo de se admitir que a indústria aeronáutica e aeroespacial marcaria a vida nessa cidade desde os anos 70, e sua singularidade no contexto regional, nacional e mundial29.

No entanto, com a reestruturação econômica que se processou no Brasil entre o fim dos anos 80 e nos primeiros anos da década de 90, ainda que a Embraer continue a ser uma insígnia de identidade para o joseense, o crescente desemprego na indústria abriria outros

campos de lutas por inclusão material, e, quase nunca, política30.

Os novos campos de lutas se constituiriam, sobretudo, na esfera econômica e social, envolvendo o acesso à moradia. Entre 1970 e 2000, estruturaram-se diversos loteamentos

clandestinos na cidade, sendo que alguns dos bairros se formaram também a partir de áreas de invasão, ‘forçando’ um zoneamento urbano em São José dos Campos a partir de Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS), como forma de ‘tratamento oficial’ para a ‘questão urbana’ na cidade.

Esse quadro sociourbano se encontrava associado à constituição de favelas, apesar das políticas territoriais de desfavelização empreendidas pela Prefeitura Municipal desde essa época até os dias atuais, guardadas as devidas significações desses processos socioespaciais em cada circunstância histórica na cidade.

O processo intenso de urbanização no município de São José dos Campos, além de apresentar como legado territorial uma ocupação urbana pulverizada e descontínua, também significou certo constrangimento relativo à mobilidade ampla da população por todo o

município31, dificultando ao joseense acessar plenamente a cidade, de modo a compreendê-la

com maior profundidade em termos socioespaciais, visando ao seu governo.

Essa reestruturação econômica ao longo dos anos 90 conduziu a uma crise dos

empregos na cidade e de seu projeto urbano estabelecido nas décadas anteriores32. Tal

reestruturação se constituiu como parte de um processo de flexibilização das estruturas produtivas, com o fortalecimento das atividades comerciais e de serviços, e emergência de

amplo setor de empregos informais, marcando, dessa maneira, uma nova mentalidade33 do

citadino em relação à cidade e às oportunidades de educação e de trabalho que esta ofereceria a partir de então, mas, ainda, mantendo-o cativo de sua ‘inércia política’, o ‘obrigado’ aos mandos dos poderes públicos ao se reposicionarem em termos de planejamento da cidade, a partir dos anos 90, como se tratará a seguir.