De Joaquim José da Costa e Sá para Ribeiro dos Santos Lisboa, [s.d.]
Illmo Senhor
Meu Senhor. Procurei a V. Sa hoje duas vezes na Biblioteca Pública, para lhe participar as recomendações de Exmo Sr Bispo de Beja em primeiro lugar; e depois para fazer entrega de sete caixotes, que entreguei ao Porteiro da Biblioteca, que estava fechando; e nesta diligência de Desembarque e condução apanhei sumo calor, mas tudo em digno obséquio de V. Sa . Queira pois aceitar V. Sa a oferta de S. Exa que o meu criado apresentará; e é uma caixa de lata, de cujo cadeado vai a clave; e um caixote pregado; e à tardinha levarei eu mesmo as cartas, que S. Exa Rma dirige a V. Sa , a cuja incomparável protecção, ut columen fortunarum mearum, me recomendo, como quem protesta ser
De V. Sa
Illmo Senhor, O mais reverente, e atento Servo Joaquim José da Costa e Sá Sua Casa 3ª feira depois
do jantar [s.d.]
CARTA 16 Fonte: BN Ms. 243, nº 19, f. 11-12
De Ribeiro dos Santos para Cenáculo Lisboa, 24 de Março de 1797
(igual a BPE CXXVII 1-3, Doc. 28, 24 de Maio)
Exmo. e Rmo. Sr.
O Sr. Professor Sá, varão honrado e de todos os bons costumes, génio raro que soube enlaçar os conhecimentos da mais vasta literatura com todas as belas artes de agrado, e de encantamento, fez-nos hoje gentil entrega dos preciosíssimos donativos de V. Exa. acompanhando a tradição de tão ricas jóias com inúmeras tão liberais, e suaves que nelas vimos reproduzidas vivamente as elegâncias e atractivos de V. E. Quis V. E. ostentar nesta remessa todas as liberalidades, e primores de seu magnanismo, e generoso coração, cobrindo a Biblioteca de glória, e a mim de honra. Por certo que outras extremosas cartas de V. E., os raros livros, maiormente de literatura oriental, e o quadro de mão original, e de pincel mimoso, e delicado, com que V. E. me prendou, são dádivas de finíssimo oiro, que nem tem limites no preço, nem os devem jamais ter no agradecimento. Que direi dos abençoados livros que V. E. remeteu para a Biblioteca, e do magnífico monetário, e Antiguidades, com que V. E. quis realçar sobremaneira o esplendor, e ornamento de seu museu. À vista de tantas, e tão brilhantes preciosidades os olhos não se fartam; o espírito se maravilha; a Nação se alarga a dilatados horizontes; a imaginação se arrebata, e se eleva sobre os astros; alevanta-se a alma acima de si mesma; desperta o coração todos os seus sentimentos; solta o génio os seus voos, e os seus rasgos; e todas as potências do espírito humano se põem em movimento e em energia. Mas não há na eloquência louvor, que não venha estreito para tão ricos donativos; de mais que a brevidade do tempo, as tarefas que hoje tenho, de meu cargo, e alguma indisposição de saúde, com que ando há alguns dias, não me permitem escrever agora mais de espaço, e apresentar a V.E. todos os sentimentos de amor, de ternura, de gratidão, e de respeito que eu tenho consagrado para um voto eterno à pessoa de V. E., e à perpetuidade de seu nome: em ocasião mais folgada o farei com muito gosto, e darei conta a V. E. do resultado de meus ofícios. A Biblioteca abriu-se com mais brevidade, do que eu esperava; e não me coube em tempo, e no meio dos trabalhos que então tive, antecipar a V.E. esta notícia. Ela tem conseguido os elogios do público; e o sagrado nome de seu ilustre benfeitor tem conciliado de tal modo a atenção dos concorrentes, que todos vão com alvoroço à Casa dos Livros de Beja, como em romagem ao santuário das musas. Digne-se V. E. de me abençoar a mim, e à Biblioteca para que possam medrar nossos trabalhos a bem da literatura nacional. Sou com todo o respeito – De V. E. Exmo. Rmo. Sr. Bispo de Beja. Muito atento venerador e criado – António Ribeiro dos Santos – Lisboa 24 de Março de 1797
CARTA 17 BN COD 6673, f. 7 v.-8
De Cenáculo para Ribeiro dos Santos Beja, 26 de Março de 1797
Illmo. Senhor
Espero toda a graça de V. Sa. acerca da doação que haverá entregado o nosso amável e muito erudito filólogo o Snr. Costa. Seja o favor de V. Sa. de advertências para emendas, seja a de permissão para V. Sa. a pôr em movimento tudo para mim são penhores. Julguei ser essa a frase de um legado. Se deve ser outra a formalidade, ninguém mais dócil para mostrar que sou bom cliente, e cabal em cumprir: assim eu o fora em mostras do agradecimento interior aos carinhos de V. Sa. quando me honra, e favorece. Orador de génio, e afeição adorna V. Sa. seus desenhos com pulso de invejar: porém minha singela maneira reflectida para V. Sa. só pode dizer: a virtude ali é virtude; a sabedoria é sabedoria; a dignidade do coração é criadora. Snr. Illmo esmoreço quando o leio amoroso, eloquente, e copiosíssimo em conhecimentos. Bendito eu que não estofei as remessas: iam elas cair em centro de luzes. Eis aqui o motivo porque V. Sa. vê a força, que desencantou a Sixtina abismada em séculos de cautelas romanas contra as pesquisas de todos os sábios em alerta. Todas estas coisas eram para colóquio mais desimpedido. Em compêndio. Quanto eu valho, ainda agora nesta memória estafada, hei-de servir a V. Sa. com mil amores, e a esse abençoado museu com as notícias, e préstimos, a que eu chegar, mas desejo de antes enviar-lhe outras coisitas, que inteirem alguns votos. Mil ideias se antojam; e mais de mil estorvos a um homem dos outros: eu me repetirei por escrito, assim como agora o faço por vontade de ser em todos os meus ofícios.
De V. Sa.
Servo amoroso, e mui reconhecido Beja em 26 de Março de 1797