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5.2 Differentiation of cells

As filmagens e as fotos foram o que mais atraia os dois grupos. Contudo no Areal, as crianças me pediam para tirar as fotos ou filmar, manuseando meu celular ou câmera. Diferente do laguinho, onde eles só pediam para ver as fotos, porém gostavam de passar o “dedo” na tela do celular para passar as fotos. Eu sempre perguntava se poderia tirar fotos ou filmá-los, tinha este cuidado especialmente no laguinho, pois, no Areal as crianças se sentiam mais a vontade comigo e pediam meu celular para fotografar ou brincar nos jogos do aparelho.

Flávia Pires comenta em seu artigo que o “sofá” onde as crianças pulavam em cima, fora sua maior moeda de troca. Acredito que o celular e câmera fotográfica foram minhas moedas de troca com as crianças. Ás vezes no, Areal, a câmera ou celular era motivo de briga entre eles, eu tinha que organizar a “fila” para que todos pudessem manusear os aparelhos.

Figura 9- Gurias no Areal Fotografando Fonte: Acervo Milena Cassal

No livro Antropologia da Criança (2009), Clarice Cohn apresenta dois aspectos quanto ao uso de câmeras e gravadores na pesquisa com crianças. Conforme a autora esta pode ser uma modalidade de exercício de fala e ação que fornece uma narrativa propriamente visual,

relativamente autônoma ao texto e às explicações analíticas. No entanto, os registros visuais podem não ser garantia de uma maior objetividade ou imparcialidade, já que a escolha de registrar é informada pelo interesse do pesquisador. (pág.47).

Ana Lucia Castilhano Araujo (2009) em sua pesquisa com crianças de 0 a 3 anos utilizou a fotografia como método de trabalho. Ela ressalta que ao usar esta tecnologia abre-se um canal de comunicação entre o adulto e a criança em suas diversas formas de expressão.

As imagens capturadas pela câmera mostram alguns aspectos do espaço vistos pela criança, como linguagem possível no seu contato com o adulto pesquisador. (2009, p.1)

Utilizar a máquina fotográfica, segundo Araujo, é uma forma de reconhecer a competência infantil em manusear o objeto, já que é um objeto proibido para os pequenos. A experimentação lúdica do espaço físico e de sua imagem pode trazer elementos sobre a visão de mundo da criança se atentarmos à forma como orienta o foco da câmera na captura de imagens. A criança reconhece e percebe seu território com um olhar atento, preocupado com busca da imagem, a partir de seus referencias, para fotografar. Pude perceber isto no dia que deixei Mc Gui, no laguinho, fotografar com meu celular. As fotos estão a partir de seu “tamanho,estatura”.

Figura 10-Laguinho - Fotos de Mc Gui. Fonte: Acervo Milena Cassal.

Em meus espaços de pesquisa, a fotografia, conforme já citei, era algo muito desejado entre os guris e gurias. Os tipos de imagens variavam conforme as idades dos

fotógrafos. As adolescentes gostavam de tirar fotos de seus rostos, ou pediam para serem fotografadas. Os mais novos tiravam muitas fotos em grupo, ou dos amigos. Nos dois locais estas “formas” de fotografar eram comuns, mas o que fazia sucesso era “ver” as fotos e os vídeos. Na verdade são dois momentos: tirar a foto e ver a foto. No laguinho, gostavam de ver os vídeos dos saltos e pulos na água, para ver se saltaram corretamente. Sempre repetiam seus “saltos” e eu tinha que filmar novamente.

Sonia Kramer (2002) analisa a fotografia como algo que pode ser visto várias vezes, em diferentes ordens e momentos podendo ter outras interpretações: ela é sempre uma outra foto ali presente, pois uma foto se transforma cada vez que é contemplada, revive a cada olhar. (p.52, 2002) A autora comenta que na pesquisa com crianças a fotografia é também um vigoroso e potente instrumento para resguardar a memória e construir subjetividade, por permitir que as crianças e jovens se vejam, vejam o outro e a situação em que vivem.

Visualizar fotos e vídeos, manuseando a máquina ou aparelho celular fazia parte da rotina dos meninos (as) quando estávamos juntos. Viam seus rostos, corpos, brincadeiras e o espaço onde estavam. No laguinho, era muito comum ter fotógrafos na praça, pois o local servia de espaço para ensaios fotográficos de inúmeras situações. Os (as) meninos (as) muitas vezes deixavam-se ser fotografados ou solicitavam fotos. Entendo isto como uma forma de chamar atenção das pessoas que por ali passavam e principalmente entre eles.

A câmera, as imagens chamavam muito atenção dos guris (as), ver seus rostos, suas poses, caras e bocas era divertido para eles. Com as facilidades tecnológicas atuais, a massificação da imagem, dissipou-se por todas as classes sociais, especialmente entre os mais jovens. Ter um celular com câmera fotográfica não é uma exclusividade das camadas mais abastadas da população. A grande maioria das pessoas possui mais de um celular e estes têm câmeras fotográficas, com opções de compartilhamento imediato em suas redes sociais. Crianças e adolescentes se apropriam destes aparelhos com eximia habilidade e fazem da imagem mais um elemento de comunicação e sociabilidade.

Ao ver e tirar fotografias suas interações aumentavam, constituindo pertencimento naquele grupo e espaço. Utilizar a fotografia na pesquisa me propiciou não só aproximação, mas também conhecer suas formas e modos de se ver, ver seu

grupo e observar suas maneiras de se relacionar em grupo e com o local onde estão dividindo estas experiências.

Observando as fotos, tiradas por eles e por mim, percebi que existe uma espécie de “moda” um “jeito” de tirar fotos entre eles, algo meio padronizado, que eu só via entre uma faixa etária bem jovem (5 à 17 anos). Entre “as” adolescentes é bem visível, são fotos com a língua para fora ou no canto da boca, ou ainda com a testa franzida e um sorriso apertado. Entre “os” meninos é frequente as fotos fazendo “sinais” com as mãos, geralmente estes “sinais”, “gestos” são feitos por cantores de rap, ou ainda eram símbolos que diziam de que bairro ou vila os meninos eram. Um “V” acompanhado do número 27 significa que eram da “27”, uma pequena rua do bairro M. Santa Tereza, em Porto Alegre.

A medida que ia me aproximando dos meninos (as) íamos trocando informações para além do espaço físico da rua, do quilombo ou da praça. Eu também os encontrava nos espaços virtuais. Muitos dos guris e gurias possuem perfis nas redes sociais que confirmam os “jeitos” e “formas” de tirar/aparecer nas fotos, de si ou do grupo. Apesar de pouco explorada por mim, acredito que as redes sociais também possam ser utilizadas como um local de pesquisa com crianças e adolescentes. Já que tais opções são e estão muito acessíveis aos mais jovens. A internet está a “disposição” de todos em celulares, notebooks, tablets, computadores em casa, escola, e lan houses espalhadas pelas comunidades. A maioria dos meninos e meninas que conversei tinha acesso a internet e possuem perfis, mesmo que pouco usado, em redes sociais como facebook, Orkut e MSN.

2.21b - Ser uma “adulta diferente” com “estratégias reativas”: