Nesse contexto de dificuldades e empecilhos para alocar as verbas necessárias para a manutenção e funcionamento do hospital do sindicato, discutiu-se a necessidade de se criar outra entidade, desvinculada das ações do STRI. Essa era a vontade de muitos dirigentes sindicais e de alguns trabalhadores rurais que estavam à frente do hospital: criar a Associação Popular de Saúde de Itapuranga (APSI). Isso só veio a ocorrer em 22 de fevereiro de 1987, consolidando assim os objetivos da categoria, como foi declarado em uma publicação da Diocese de Goiás (Caminhada, 1987), em que se registra:
foi fundada uma Associação Popular de Saúde para assumir jurídica, política e economicamente o hospital, que estava fechado há três meses. É uma associação de caráter filantrópico, destina-se a prestar assistência integral à saúde, está sendo mantida pelos 1400 sócios que tem atualmente, através de mensalidades e doações, o que é insuficiente para o total funcionamento.
Essa entidade, ligada aos trabalhadores rurais, passa a gerenciar os trabalhos dos médicos, enfermeiros e auxiliares do hospital, voltando a funcionar as atividades da unidade hospitalar. Por outro lado, todos os problemas financeiros e administrativos foram também herdados nesta reabertura, mesmo porque a Associação estava fazendo gestão há 3 meses para conseguir um convênio junto ao Inamps (o convênio das Santas Casas de Misericórdias), por considerar que a assistência à saúde deve ser mantida pelo governo (Caminhada, jul./ago. 1987).
Manter essa gestão junto aos governos municipal e estadual foi uma bandeira da APSI. No entanto, a nova direção buscou outros instrumentos, com o objetivo de manter o hospital aberto, atendendo aos trabalhadores rurais. Além de receber
donativos, realizou mutirões e passou a cobrar uma mensalidade no valor de 1% do salário mínimo.
Mas os empecilhos para essa nova entidade foram brotando na medida em que as bandeiras e reivindicações da entidade foram sendo renovadas a cada dia. De pronto, a APSI não poderia assinar nenhum convênio com o município em decorrência de não ter o título de filantropia. Tornou-se um foco principal fazer com que a Câmara Municipal de Itapuranga votasse uma lei aprovando o título filantrópico.
Tudo isso foi assegurado através de um intenso processo de mobilização para buscar apoio de órgãos e entidades que reconhecessem na APSI um papel relevante e importante para todos os trabalhadores rurais e a população carente da região. Buscou-se, também, apoio da Câmara Municipal, entidades classistas, juiz de Direito, delegado, Lions Clube, cartórios da cidade e Maçonaria, solicitando um documento que reafirmasse o caráter de filantropia do trabalho do hospital.
Além de buscar recursos nas esferas oficiais, deve-se ressaltar que, através da APSI, alguns projetos e verbas vindas de instituições estrangeiras ajudaram na consolidação dos trabalhos da entidade. Ressalte-se aqui um acordo firmado entre a APSI e uma organização não-governamental italiana, conhecida como Raoul Follereau, quando desenvolveram o Projeto de Hanseníase, com um trabalho de identificação e tratamento dessa doença.
Com os trabalhos da APSI, houve novas adesões de associados, ampliando ainda mais o raio de ação do hospital. Com a intensificação dos seus trabalhos preventivos e curativos, melhorou substancialmente as condições de saúde dos trabalhadores rurais assistidos pelo hospital.
Mesmo com trabalhos importantes desenvolvidos, como este feito com os hansenianos, a vida financeira da APSI continuou ainda insustentável, pois o governo da cidade de Itapuranga impediu de todas as formas que o convênio no valor de CZ$ 840.000,00 (oitocentos e quarenta mil cruzados) mensais entre a APSI e o Inamps fosse assinado.
A estratégia dos dirigentes da APSI foi agendar uma audiência com o prefeito municipal, João Batista da Trindade, e com a Presidenta da Comissão Intermunicipal de Saúde (CIMS), Edna Maria da Trindade, com a intenção de resolver os impasses. Diante das negativas por parte dos dirigentes municipais, os trabalhadores rurais decidem, no dia 16 de outubro de 1987, promover um ato público em frente à prefeitura municipal de Itapuranga, cujo objetivo era tentar uma audiência para cobrar os repasses
financeiros que não estavam chegando ao hospital. Esses fatos tornaram-se notícias, como mostra uma reportagem de O Popular de outubro de 1987:
a solicitação do hospital ao Inamps é de uma verba mensal de Cz$ 840 mil. Para que ela seja repassada é necessário que a CIMS de Itapuranga dê parecer favorável. Até o momento, a Comissão, presidida por Edna Maria da Trindade, mulher do Prefeito de Itapuranga, tem se recusado a fazer isso. Ainda ontem, o Secretário de Medicina Social do Inamps, Graciano Silva, se reuniu com os membros da CIMS daquele município buscando encontrar uma solução para o problema.
Na impossibilidade de entendimento com o prefeito João Batista da Trindade e a primeira dama Edna Maria da Trindade, trabalhadores rurais e funcionários do hospital saíram às ruas de Itapuranga para cobrar uma definição do executivo. Esse evento foi marcado para uma sexta-feira, 16 de outubro, e contou com 600 pessoas que saíram em marcha pelas ruas da cidade, chegaram à sede do poder público municipal, passando a ocupá-lo na esperança de uma audiência com essas autoridades.
Dentre muitas imagens que registram a passeata, escolhi uma que revela a expressiva dimensão desse evento, no momento em que chegavam à porta da Prefeitura Municipal de Itapuranga, trazendo faixas e gritando palavras de ordem.
Figura 11: Manifestantes em marcha pela APSI, 1987. Fonte: Arquivo da APSI.
O ato se estendeu por toda a tarde e a noite, quando os manifestantes ocuparam as salas dos secretários municipais e o gabinete do prefeito. Estrategicamente, o prefeito havia se retirado da cidade, ao perceber que os manifestantes não sairiam dali, sem uma audiência com as autoridades.
Permaneceram acampados dentro do prédio durante o final de semana, aguardando um pronunciamento de João Batista da Trindade e Edna Trindade, mas ambos haviam deixado a cidade, após solicitar a presença da Polícia Militar para retirar os manifestantes da prefeitura.
Sobre esse episódio informou o jornal O Popular (out. 1987):
Dezenas de pessoas encontram-se acampadas diante do prédio da Prefeitura de Itapuranga, a 162 quilômetros de Goiânia. É a continuação de um movimento de protesto que teve início na sexta- feira da semana passada, com a invasão da sede da administração municipal, tendo os manifestantes sido retirados por policiais militares às 11 horas do último domingo.
Como registrado pela imprensa, por volta das 12 horas do dia 18 de outubro de 1987, o batalhão da Polícia Militar chegou à sede da prefeitura para retirar os manifestantes do local. Homens e mulheres foram arrastados e carregados pelos policiais, “com o saldo de alguns feridos, apesar de não ter havido resistência. O povo ficou na praça aguardando a reunião da CIMS” (Histórico da APSI, dez. 1987).
O acampamento com os trabalhadores concentrados em frente ao prédio da prefeitura, durou até o dia 31 de outubro, exatamente 16 dias. Sobre isso, Pedro Teodoro da Silva, naquela época tesoureiro do STRI, relatou em entrevista ao jornal O Popular (out. 1987):
o acampamento reúne mais de 400 pessoas, distribuídas em três barracas, e só será desativado depois que for assinado o convênio. Ele falou ainda do “maciço apoio” que o movimento de protesto está recebendo da população, a exemplo da Sociedade São Vicente de Paula, igrejas locais, professores e políticos de diversos partidos, inclusive do PMDB.
Esse discurso teve como objetivo contestar o que o prefeito havia recentemente declarado a esse mesmo jornal (out. 1987):
[...] que o número de acampados não soma 100 pessoas. “Não ultrapassa 80, durante o dia e cerca de uns 30, à noite” – disse, acrescentando que “essa turma de fanáticos não deixa de atrapalhar a administração, porque eles ficam gritando, durante todo o dia utilizando um sistema de som, fazendo um tumulto”.
Havia um remanejamento entre os manifestantes, no sentido de manter o pessoal sempre mobilizado, cantando e entoando palavras de ordem. Os momentos de permanência no local eram divididos, sendo que um grupo ficava durante o dia e outro à noite, tudo para manter as tarefas cotidianas em suas lavouras e, ao mesmo tempo, colaborar com esse movimento.
Ficaram acampados em três barracas, supridas com alimentos doados pelos lavradores, professores, Igreja Católica e STRI. Os manifestantes eram animados com músicas e cantorias, como o Cio da terra, Caminhando e cantando, Cálice bento, Meus
amigos lá da roça e a Classe roseira, dentre outras. Entoavam também versos como este:
A grande esperança que o povo conduz Pedindo a Jesus pela oração
Pra guiar o pobre por onde ele trilha E a cada família não faltar o pão Que ele não deixe o capitalismo Levar ao abismo a nossa nação. A desigualdade que existe é tamanha Enquanto o ricaço não sabe o que ganha O pobre do pobre vive de tostão
(Zilo e Zalo, Livro de Cânticos da Diocese Goiás, 1990)
No dia 31 de outubro de 1987, decepcionados com o não-atendimento de suas reivindicações por parte do executivo municipal, desistem de esperar e desmontam o acampamento.
Isso não significou encerrar o processo reivindicatório. Os trabalhadores rurais procuraram outras estratégias que garantissem a celebração do convênio entre o Inamps e a APSI. Mas, a crise financeira daquele hospital se prolongou, continuando ao longo da década de 1990 até os dias atuais.
Some-se ainda que, a partir desse momento, iniciaram-se disputas internas pela direção da APSI, colocando em xeque todo um trabalho que havia sido consolidado ao longo de uma década de experiências. Assim, os problemas financeiros, administrativos e a
disputa por espaço de poder dentro da APSI foram fatores que favoreciam a desmobilização e o esvaziamento das ações e dos projetos desenvolvidos por essa associação.