Nos aços eléctricos, as perdas magnéticas dependem de vários factores que afectam a microestrutura. Entre esses factores destacam-se:
• a composição química, nomeadamente o teor de Si
• as impurezas e/ou precipitados (incluindo o envelhecimento magnético) • o tamanho de grão
• a textura cristalográfica • a deformação plástica
Analisar-se-á em seguida a influência de cada um destes parâmetros nas perdas magnéticas dos MMM, e em particular, nas ligas Fe-Si.
Composição química do material
O principal efeito da composição química do material é alterar a sua resistividade eléctrica, o que afecta as perdas por correntes de Foucault. Os elementos químicos mais utilizados para esse efeito são o alumínio e, principalmente, o silício que é usado comercialmente em valores até cerca de 4% em peso, sendo que a resistividade do aço aumenta com o aumento do teor em Si, até cerca de 11-12% em peso deste elemento. Por exemplo, para uma liga de Fe com 3% de Si, a resistividade é aproximadamente 45 µΩ∙cm-1 e para 4% é de 55 µΩ∙cm-1 (Bozorth, 2003). No entanto, o aumento do teor em silício tem associados alguns factores adversos: por um lado, faz diminuir a magnetização de saturação que, para o Fe puro, vale cerca de 2,15 T e que, para uma liga com 3,5% de Si, passa a valer 2,0 T (Bozorth, 2003), e por outro, torna o material mais rígido mecanicamente o que dificulta a sua maquinagem e portanto limita a espessura das chapas. Normalmente chapas com 1 a 2,5% de Si são usadas em máquinas rotativas enquanto ligas com teores entre 3 e 4,5% de Si são usadas em transformadores (Robert, 1989).
No caso de se usar alumínio, a percentagem está limitada normalmente a cerca de 5,5% (Bozorth, 2003). As ligas Fe-Al têm a vantagem de ter maior ductibilidade e maior resistividade, comparativamente às de Fe-Si, no entanto o controlo do processo de fabrico é mais complicado uma vez que se forem expostas ao ar, o alumínio oxida rapidamente e
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endurece a superfície das chapas desgastando mais rapidamente a maquinaria usada para o seu fabrico.
O efeito do fósforo (P) na resistividade é ainda mais pronunciado, no entanto a sua solubilidade máxima é de 0,2% (Landgraf F. J., 2002).
A adição de 3% de Si também reduz a anisotropia magnetocristalina do material e portanto contribui para a diminuição das perdas excedentes.
Impurezas e/ou precipitados (incluindo o envelhecimento magnético)
As impurezas susceptíveis de formar inclusões de nitretos, sulfuretos e óxidos e, também o carbono, que dá origem à precipitação de carbonetos, devem ser reduzidas aos valores mínimos. Estas inclusões (nestes casos, não magnéticas) e os precipitados de carbono (normalmente sob a forma de cementite-Fe3C) actuam como centros de ancoragem das paredes de domínio diminuindo a permeabilidade, aumentando o campo coercivo, que será tanto maior quanto mais próximas estiverem as inclusões, e portanto aumentando as perdas por histerese. Por outro lado, durante o processo de fabrico das chapas, a existência de inclusões limita o crescimento de grão, o que contribui também para o aumento da histerese, e dificulta a uniformização da textura cristalográfica, aumentando também as perdas excedentes.
O envelhecimento magnético, que ocorre durante o período de utilização do material magnético, e que consiste na precipitação de carbonetos ou nitretos de ferro resultante dos sucessivos processos de magnetização, também faz aumentar as perdas magnéticas. O teor de carbono no aço deverá ser sempre inferior a 0,003%. Na prática os aços podem ser descarbonetados durante o recozimento final numa atmosfera controlada (Werner & Jaffee, 1992).
Tamanho de grão
O tamanho de grão tem uma grande influência nas perdas magnéticas, nomeadamente nas perdas por histerese e nas perdas excedentes. No entanto o seu efeito em cada um dos tipos de perdas é oposto. Isto é, por um lado o aumento do tamanho de grão diminui as perdas por histerese uma vez que, por exemplo, diminui a superfície de limites de grão, diminuindo assim os possíveis pontos de ancoragem das paredes e os pontos de nucleação e aniquilação destas. Segundo (Landgraf F. J., 2002) e (Campos, Teixeira, & Landgraf, 2006), existem
3-69 muitas evidências de que o campo coercivo e, portanto Ph, são proporcionais ao inverso do tamanho de grão. Por outro lado, o aumento do tamanho de grão (maiores domínios) faz com que o movimento das paredes de Bloch tenha que ser feito a maior velocidade (para igual frequência), o que aumenta a variação dB/dt e, consequentemente, as perdas excedentes. Ou, analisando de outra forma, maior tamanho de grão significa domínios com maior largura d e maior razão d/e, logo as perdas excedentes aumentam em relação às clássicas que não têm em consideração o tamanho de grão. Esta conclusão em relação ao comportamento Pexc vs TG também pode ser obtida a partir das equações (3.35) e (3.36). Assim, para optimizar as perdas magnéticas em relação ao tamanho de grão do material é necessário obter uma solução de compromisso entre as duas parcelas de perdas. Segundo (Campos, Teixeira, & Landgraf, 2006), o tamanho de grão óptimo é dado pela equação
r£Ž = ¤ ’ ∙ • ‘VM¥∙ ” ∙ ¦m§
œ •
(3.38)
em que K é uma constante que é determinada experimentalmente e α é o coeficiente de Steinmetz. O tamanho de grão óptimo varia normalmente entre 100 e 150 µm (Landgraf F. J., 2002), (Matsumura & Fukuda, 1984), embora na prática se usem tamanhos de grão que podem variar entre 3 e 5 mm uma vez que industrialmente ainda não se conseguem produzir chapas com o que seria o óptimo.
Textura cristalográfica: aços de grão-orientado e não orientado
A textura cristalográfica do material, isto é, a forma como os cristais de ferro se encontram orientados, tem grande influência nas propriedades magnéticas da chapa. Existem essencialmente dois tipos de aços quanto ao modo de orientação dos cristais: os aços de grão orientado (GO), que exibem uma orientação preferencial de magnetização, e os aços de grão não orientado (GNO), que exibem propriedades magnéticas aproximadamente isotrópicas. Estes tipos de texturas de aços eléctricos serão abordados na secção (3.3.15). Deformação plástica
A deformação plástica de um material tem influência na sua microestrutura, nomeadamente na estrutura dos domínios, e portanto nas suas propriedades magnéticas. Tensões mecânicas no material quer sejam aplicadas, quer sejam residuais, provocam um aumento no campo coercivo e portanto nas perdas por histerese.
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Segundo (Landgraf F. J., 2002), um material com 2,7 W∙Kg-1 de perdas a 50 Hz, após sofrer um alongamento de apenas 0,5%, passou a exibir perdas totais no valor de 4,3 W∙Kg-1. No mesmo material um alongamento de 8% originou perdas de 6,2 W∙Kg-1, ou seja, mais do que duplicou as perdas. Assim, é importante proceder ao tratamento térmico dos aços após laminagem de forma a aliviar tensões mecânicas induzidas durante o processo de fabrico. Pelo que foi exposto pode concluir-se que os factores que afectam a microestrutura dos aços estão intimamente relacionados com as perdas por histerese e excedentes. Por outro lado, factores como a espessura das chapas condicionam as perdas por correntes de Foucault clássicas, que são tanto menores quanto menor for e. No entanto, o fabrico de chapas de menor espessura implica processos de laminagem mais intensos e mais tratamentos térmicos o que poderá prejudicar algumas propriedades magnéticas.