Nessa obra Assagioli (1973) apresenta um panorama amplo de sua teoria e de seus princípios e métodos para auxiliar àqueles que praticam a Psicossíntese terapeuticamente. De início apresenta brevemente semelhanças e diferenças entre a Psicossíntese e outros métodos de psicoterapia não existenciais. Cita importantes contribuições de movimentos teóricos, na Medicina e na Psicologia, sobre o conhecimento da natureza humana. Afirma que tudo leva a crer que o Eu espiritual existe em uma esfera de realidade diferente daquelas onde fluem os fenômenos psíquicos e orgânicos, não sendo influenciado por eles, mas podendo modificar de maneira profunda as condições psicofísicas da pessoa. Reconhecer o Eu espiritual é um pressuposto que impacta diretamente sobre teorias e práticas espirituais e educativas.
Assagioli (1973) define a psicossíntese como a construção de uma nova personalidade, “unificada, coerente, orgânica” (ASSAGIOLI, 1973, p. 33), em torno de um Centro unificador externo, que pode ter sido encontrado, escolhido ou criado, e que servirá como um meio, uma ligação com o Eu espiritual. O Centro unificador externo, que pode ser o terapeuta, reflete ou simboliza o Eu espiritual. Pessoas de natureza mais plástica e espontânea realizam sua psicossíntese voltando-se ao próprio Eu espiritual, “ao Espírito vivente neles” (idem), deixando-Lhe a escolha do que devem tornar-se. Esse processo de psicossíntese é constituído por três fases: 1. usar e transformar as energias psicológicas, tendências e possibilidades latentes de vários níveis; 2. desenvolver os elementos deficientes ou inadequados ao objetivo proposto; 3. coordenar e subordinar os vários elementos, energias e funções da psique, !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
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criando uma hierarquia interna, uma saudável organização da personalidade. Assim, define o processo de psicossíntese não como uma doutrina psicológica particular, nem como um procedimento técnico específico, mas
acima de tudo como uma concepção dinâmica, e se poderia dizer, dramática, da vida psíquica, qual a luta entre uma multiplicidade de forças rebeldes e contrastantes e um Centro unificador que tende a dominá-las, conciliá-las em harmonia, empregá- las de maneiras mais úteis e criativas (ASSAGIOLI, 1973, p. 36).
Assim, a psicossíntese é um conjunto de métodos de ação psicológica voltados a favorecer a integração e a harmonia da personalidade humana. De maneira mais ampla, a vida universal se revela como um trabalho e uma aspiração à união. Parece que o Espírito, seja ele um Ser divino, uma Mente ou uma Energia cósmica, vai compondo Sua criação em ordem, beleza e harmonia, reunindo com vínculos amorosos todos os seres, alguns conscientes e voluntariamente, outros cegos e rebeldes, realizando assim a Síntese Suprema.
Em seguida, o autor reafirma a importância e o valor do elemento ético e da tendência religiosa como implícitos à natureza humana e explicita que há um tipo de autorrealização diferente da proposta por Maslow. É a realização do Eu espiritual, que se refere à experiência e à tomada de consciência do Centro espiritual e é muito superior à da autoconsciência do Eu pessoal, que é a projeção do Eu espiritual no campo da personalidade. Embora o termo “transpessoal” seja considerado mais neutro e indique tudo o que se refere ao que é chamado de espiritual, Assagioli continuou usando o termo “espiritual” pois, na Itália, o termo “transpessoal” era pouco conhecido. Para ele a palavra “espiritual”, em sua ampla conotação, inclui as experiências especificamente religiosas, todos os estados de consciência e todas as funções e atividades que dizem respeito aos valores superiores à média – valores éticos, estéticos, heroicos, humanitários e altruístas. Sob o termo “desenvolvimento espiritual” inclui todas as experiências vinculadas com o conscientizar-se dos conteúdos do supraconsciente, que podem incluir ou não a experiência do Eu espiritual.
Grande parte do livro é dedicada à apresentação das técnicas para realizar a psicossíntese. O mais importante é ressaltar que seu uso tem como propósito maior conscientizar a pessoa sobre a existência do Eu espiritual, tornar suas energias atuantes, ajudar a eliminar obstáculos e conflitos relativos a esse objetivo, integrar e harmonizar a personalidade em todos os seus níveis e, sempre que possível, favorecer a união entre o Eu
alternadamente e de acordo com as condições e as necessidades do paciente, bem como segundo os diferentes estados do seu processo de psicossíntese. Porém, e acima de tudo, é fundamental lembrar que o uso das técnicas por si só não basta: é essencial levar em conta a “importância central do fator humano, da relação viva e da interação pessoal entre o terapeuta e o doente” (op. cit., p. 68).
Ao tratar da exploração do inconsciente, Assagioli comenta a estranheza possível, por parte de alguns pacientes, diante da ideia de dois “eus”, um pessoal e um espiritual. Sugere que o Eu espiritual seja apresentado, inicialmente, como uma hipótese que poderá ser aceita ou refutada pelo paciente; sugere dizer a ele para não se ocupar do Eu espiritual, principalmente quando tratar-se de uma psicossíntese pessoal, na qual permanece mais ou menos latente. Na psicossíntese pessoal o objetivo é levar o paciente a um grau de auto identificação em que possa distinguir-se como sujeito consciente dos vários conteúdos com os quais, habitualmente, identifica-se. Com fins curativos, é importante chegar a uma boa psicossíntese pessoal (integrar funções e elementos psíquicos em torno de um centro de consciência do Eu). Com os pacientes com problemas de caráter espiritual ou religioso essa questão pode ser tratada desde o início. Isso deve ser feito de acordo com a mentalidade e a crença de cada pessoa. Aos religiosos pode-se apresentar o Eu espiritual como um vocábulo neutro usado na Psicologia para indicar a alma. Aos agnósticos pode-se apresentar a hipótese de que cada pessoa tem um Centro superior e relatar que inúmeras pessoas no mundo já tiveram a experiência interna dos níveis supraconscientes e do Eu espiritual e que a experiência dos estados de consciência superiores e do Eu espiritual pode ser alcançada e favorecida por meio de algumas técnicas psicossintéticas.
Do ponto de vista científico a designação de graus ou estágios evolutivos superiores e inferiores não implica por si mesma qualquer juízo moral. Os valores característicos do supraconsciente diferem daqueles dos inconscientes inferior e médio por sua manifestação espontânea, presente em uma minoria de pessoas. Os diferentes níveis de inconsciente podem ser vistos como diferentes campos de energia, o que permite considerar os conteúdos do supraconsciente como energias com frequência vibratória maior ou superior à dos demais.
O Eu espiritual é um dos conceitos centrais da Psicossíntese e um dos elementos que a diferencia de outras abordagens terapêuticas, assim como a função da vontade, estritamente ligada ao Eu. Quando oriunda do Eu espiritual, a vontade tende a atrair o Eu pessoal para o alto, manifestar-se a ele e dirigir a personalidade inteira de modo construtivo, liberando a
vontade, do amor e da mente; assim, “o ato volitivo completo poderia se chamar uma vontade amorosa em ação” (idem, p. 123). Um dos objetivos da psicossíntese espiritual é assegurar que a vontade supraconsciente do Eu espiritual se torne uma experiência consciente. Ela é inconsciente no nível do Eu pessoal e, ao tornar-se consciente, caracteriza-se por uma fusão funcional que mantém as diferenças qualitativas. Logo, fica mais clara a diferença entre experimentar estados superiores de consciência, nos quais o Eu pessoal entra em contato com conteúdos superiores, e a fusão do Eu pessoal com o Eu espiritual. Nesta o Eu pessoal toma consciência, mesmo que temporária, do Eu espiritual, e momentaneamente sensações, sentimentos, pensamentos e outros conteúdos da personalidade e do supraconsciente são eliminados ou esquecidos, permanecendo apenas a pura e intensa experiência do Eu espiritual. Outro conceito abordado é o de consciência moral, para Assagioli (1973) uma característica direta do Eu espiritual e sua expressão. Princípios e aspirações morais são inatos e latentes na verdadeira natureza espiritual humana; quando violados, consciente ou inconscientemente, insurgem-se e criam fortes conflitos. Há diferentes níveis de consciência moral e é fundamental diferenciá-los. Como fruto do Eu espiritual ela é benevolente, compreensiva e não rígida; não se atém a códigos de conduta específicos, mas se inspira em valores éticos essenciais e universais. Sua manifestação fundamental é o senso de justiça.
A psicossíntese espiritual produz na personalidade consciente a inclusão e a integração de elementos psicoespirituais superiores que até então, por estarem na esfera superior do inconsciente (o supraconsciente), não eram conscientes. Esse processo de transmutação e harmonização pode ser considerado uma síntese. Assagioli (1973) reforça a ideia de que manifestações psicológicas ou espirituais superiores como o amor espiritual não podem ser explicadas em origens biológicas ou instintivas: isso equivaleria a dizer que o misticismo é um produto de sublimações sexuais. As energias transmutadas contribuem com vitalidade, mas não criam nem explicam a vida superior, reforçando a ideia de que “o inconsciente é independente do nível consciente e do desenvolvimento da personalidade”. (idem, p. 210).