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Why didn’t they divorce?

In document Guri Tyldum (sider 82-89)

A welcomed separation. Understanding female migration in light of limited access to divorce 1

G: Why didn’t they divorce?

A visão dos comportamentos como algo problemático surge quando indícios como a impulsividade, falta de atenção e hiperatividade motora são analisados por pais, professores, familiares e indivíduos próximos da criança, como uma condição ‘anormal’ que necessita (ou pode vir a necessitar) de ajuda e intervenção médica. Tendo em conta estes sintomas, juntamente com os critérios diagnósticos do DSM-IV-TR para a referida perturbação, os comportamentos desordeiros das crianças facilmente são tidos como um verdadeiro problema.

“É assim, o Gabriel quando nasceu (…) era já uma criança muito ativa e com poucas horas de sono. Depois, à medida que ele foi crescendo, a nível de infantário, começou a demonstrar alguns problemas, nomeadamente, enquanto que as outras crianças estavam mais tempo sentadas e sossegadas, o Gabriel nunca conseguiu estar cinco minutos sem estar a mexer os pés, a mexer as mãos, ou a baloiçar-se…” (Graça, mãe do Gabriel)

“Os comportamentos nem fui eu que notei, mais foi na escola! Que a concentração não era nenhuma!” (Heloísa, mãe do Henrique)

“As atitudes dele já principalmente no infantário. O Ivo não consegue estar quieto muito tempo, seja a jogar, seja a fazer trabalhos de casa ou seja… até mesmo a ver televisão. Ele pode estar ali um bocadinho mas qualquer coisa para ele é muito tempo a estar sempre a fazer a mesma coisa. (…) ele tem assim muito impulso, mais do que se calhar outra criança normal. A concentração dele, não tem qualquer tipo de concentração a fazer as coisas. (…), consegue estar com atenção a uma coisa mas ao fim ao cabo ele está ali todo… qualquer coisinha chega pra lhe chamar à atenção, e então, para o distrair. (…) E agora principalmente quando ele entrou pra escola, ele não consegue estar quieto na sala, nem quieto nem calado. As coisas pra fazer, os trabalhos de casa ou mesmo lá na escola, ele demora imenso tempo a fazer o que quer que seja. (…) Basicamente foram esse tipo de situações todas que originaram a que nós desconfiássemos que… (…)”. (Inês, mãe do Ivo)

Este é, tipicamente, o discurso adotado pelos pais quando se dirigem à consulta médica que, na sua grande maioria e tendo em conta a nosografia definida pelo DSM, resulta no diagnóstico de PHDA encaixando, igualmente, com o discurso médico. A partir do momento em que um comportamento menos apropriado da criança é detetado, e tido como problemático, que todo o processo relativo à PHDA surge. Tal como nos alertam Melo e

59 Quintais (2011), em alguns casos, este problema tinha sido percecionado desde cedo, em casa. Em outros casos, foi apenas com a entrada na escola, por volta dos seis anos de idade, que se tornou um verdadeiro problema. Ou ainda, a pressão das duas situações obrigou, a que os familiares solicitassem apoio médico (2011:19). Estas crianças são descritas, pelos pais quando vão à consulta médica, como «ativas», «distraídas», «não param quietas» ou até mesmo «desorganizadas». Segundo a médica pediatra entrevistada, as principais queixas dos pais é que “não para quieto, não faz o que eu mando, não quer fazer os trabalhos de casa,

até as moscas os distraem…”.

Para além disso, os progenitores referem, igualmente, as queixas provenientes da escola. Grande parte das entrevistadas referiu que não tinha notado qualquer comportamento diferente na criança, que necessitasse de intervenção médica, até ter sido chamada à atenção pelo infantário e/ou escola. Inclusive referiram que se não tivesse sido esse aviso, provavelmente não teriam ido com o(a) filho(a) ao médico, pois achavam o comportamento ‘normal’ para a idade e para a fase da vida, ou seja, infância. Ideia igualmente corroborada pelos dois profissionais médicos entrevistados que mostraram uma enorme pressão advinda do meio escolar, não para a criança ser diagnosticada, mas para a criança ser medicada. Muito embora essa pressão tenha feito parte do discurso de ambos profissionais médicos, no discurso do pedopsiquiatra esta questão é mais notória.

“(pausa) Pelos pais não [pressão para diagnosticar]. É mais frequente pelos professores. Melhor ainda, não para diagnosticar, mas para medicar! Às vezes pode haver uma certa pressão ou dos pais ou dos professores que é feita através dos pais, para a medicação. Isso acontece. (…) Porque realmente aquela criança, de alguma maneira perturba um pouco a sala de aula e (…), é difícil também por alguma razão, porque têm muitos alunos, lidar com uma situação daquelas, mesmo às vezes o rendimento [escolar] sendo normal”.

(pedopsiquiatra)

Faz sentido fazer aqui alusão à ideia avançada por Saini-Onge (2005 in Suissa, 2007), de que, uma vez medicada, talvez a criança não perturbe a ordem social, aplicando-se, neste caso, ao ambiente e meio escolar, onde se deseja que não haja perturbações dentro da sala de aula devido ao elevado número de alunos. A este respeito Graham (2006), alerta para o facto de pesquisadores britânicos terem descoberto que fatores como a influência do tamanho da turma têm incidência no diagnóstico de PHDA. Portanto, em turmas onde existe um elevado número de crianças, se existir alguma com um comportamento mais desordeiro, facilmente pode ser assinalada como perturbadora, encaminhada para o médico, podendo vir a ser diagnosticada, passando de uma criança ‘rebelde’ a uma criança ‘doente’. Ou seja, existe uma maior probabilidade de constituir um comportamento como problemático, não apenas no sentido da perturbação da ordem, mas também no sentido médico.

“Exige-se, diariamente, disciplina, postura e regras às crianças quer em casa quer na escola” (Melo e Quintais, 2011:17) e caso esses comportamentos e normas não sejam seguidos, existe

uma procura de ajuda médica para voltar à ‘normalidade’. Essa normalidade passa pela tentativa de enquadrar a crianças em regras sociais e em padrões comportamentais socialmente esperados. Esses padrões da sociedade remetem para a ideia cada vez mais generalizada de que “(…) uma criança que quando a gente diz senta, senta-se e fica ali

quieta e sossegada, se for preciso meia hora. Não fazem perguntas nem questionamentos (…), são submissas, não é?! (…) que não têm grandes acidentes, que dormem seis ou sete horas seguidas (…). Isso é o que a sociedade quer, não é?!” (Graça, mãe do Gabriel).

De acordo com Conrad (2007), aos poucos, os “comportamentos problemáticos” das crianças e a desatenção têm vindo a ser medicalizados, sendo que muito deste trabalho de medicalização é rotineiramente levado a cabo por profissionais não médicos, nomeadamente professores, educadores e psicólogos que identificam, avaliam e administram medicação a “crianças problemáticas”. São estes os profissionais que primariamente identificam os comportamentos das crianças como problemáticos, chamando a atenção dos progenitores, que frequentemente nunca tinham feito essa leitura do comportamento dos filhos, mas que após essa chamada de atenção se sentem pressionados e persuadidos a recorrer a ajuda médica.

Sendo a PHDA caracterizada pelos três sintomas acima enunciados (desatenção, impulsividade e hiperatividade), esta é tida como uma condição “não normal”, fazendo com que a hiperatividade seja construída como problemática, muito embora, na visão das mães, nem sempre o seja. Isto é, embora a hiperatividade tenha vindo a ser uma condição medicalizada e entendida como problemática, as mães, no seu discurso, não a entendem como tal, sendo referenciado como principal problema o aproveitamento escolar devido à falta de concentração e hiperatividade motora dentro da sala de aula e não os comportamentos no seio familiar.

“É assim, propriamente problemáticos eles [os comportamentos] não são! Para mim, pessoalmente, não acho que o sejam. Pelo menos até agora não notei. São problemáticos só no sentido a nível, por exemplo, a nível dele escolar. Ele não consegue ter aprendizagem normal devido à falta da concentração” (Inês, mãe do Ivo).

Segundo Conrad (2006) são as escolas quem identifica crianças como hiperativas ou por causa do excesso de atividade ou pelo insucesso escolar. Para o autor, em mais de metade das crianças, a escola foi o indicador-chave do processo do diagnóstico e, em grande parte deles, foi a impulsionadora na prescrição de medicamentos. Portanto, a hiperatividade é socialmente construída como problemática passando a ser tratada de acordo com padrões e normas médicas de tratamento baseado em fármacos, numa tentativa de repor a normalidade, sendo que a própria condição é tida como “anormal”.

A este respeito, Boavida et al. (1998:22) advogam que esta condição pode manifestar-se muito precocemente, embora cause, em regra, mais problemas na escola do que no ambiente familiar, situação em que o controlo da atenção e da atividade são de extrema importância

61 para a aprendizagem académica e a integração social e educativa das crianças. Apesar de os pais, numa primeira fase, acharem que algo não está bem com a criança porque não para muito tempo quieta, não se interessa por nenhuma atividade em concreto ou outros aspetos que seriam ‘normais’ para a idade e fase da vida, não consideram essas atitudes como algo problemático ao ponto de recorrerem a ajuda médica. No entanto, na sua grande maioria, os comportamentos das crianças só foram entendidos como um verdadeiro problema como a entrada na escola, e não no seio familiar.

Para além disso, os autores (1998) alertam que cada caso é um caso, cada criança é diferente e que o grande desafio desta doença passa por distinguir disfunções “normais” relacionadas com o sexo e idade de características comportamentais. É a partir do momento em que existe a conceção dos comportamentos definidos como um problema, que ocorre uma construção social da PHDA como problemática cria-se um novo entendimento desses comportamentos. Isto é, o que antes para estes pais era algo ‘diferente’ no comportamento do filho, com as chamadas de atenção por parte dos diversos atores-chave como professores, familiares, ou pessoas próximas da criança, esse entendimento de diferente passou a ser analisado como algo problemático, o qual exige a procura de ajuda médica para solucionar (ou pelo menos tentar) o problema do filho. Por sua vez, como veremos mais adiante, o diagnóstico é a confirmação médica da visão desses comportamentos como problemáticos.

Com a medicalização de uma condição ou problema, dá-se a passagem dessa mesma condição ou desse mesmo problema para a esfera médica, acreditando-se que é à medicina que cabe agir sobre eles, já que se trata de uma doença. Uma das consequências dessa monopolização por parte da medicina, é a diminuição da reflexão social sobre essa mesma condição, sendo que a solução passa mais por intervenções médicas individualizadas do que pela procura das causas sociais que podem estar subjacentes ou pode deixar para segundo plano a reflexão sobre o tamanho das turmas, o estilo de vida moderno e as exigências que este coloca a pais, professores e às próprias criança problema. Intervir sobre os alunos problemáticos recorrendo a soluções médicas. Sobre esta questão será providenciada uma análise mais alargada no ponto relativo à medicalização.

In document Guri Tyldum (sider 82-89)