Paper I was published as the study protocol, to be used as the reference for further publications of the Cohort. This paper also evaluated the representativeness of the
5. Summary of Results
6.1 Dicussion of methods
O regresso da crise, após a intenção experiência nos ritos Tarahumaras, não significa, porém, um fracasso ou uma frustração com a experiência vivida, mas antes marca de modo decisivo o entendimento de Artaud acerca do seu Teatro da Crueldade, pois, se como afirmara a pelo menos três anos antes de sua viagem que “o primeiro espetáculo do Teatro da Crueldade se intitulará: A CONQUISTA DO MÉXICO” (1984, p. 159, ênfases originais), o que se impõe a ele na montanha onde se realizara o ritual é a possibilidade de vivenciar o exemplo lapidar desse teatro mágico. O que se verá a partir de então é a conduta de um homem que participou de um ritual xamânico, acreditando ter sido iniciado nos segredos místicos dos feiticeiros mexicanos. Como iniciado e profeta dos segredos que lhe foram revelados naquela montanha mágica o que importa é anunciar e compartilhar dos ensinamentos místicos para a cultura européia doente e falida, no entendimento de Artaud. A transposição da tragédia do palco pra vida ganhará contornos emblemáticos, e esse é na verdade o regresso da crise, pois isso o colocará no limite tênue entre a dramatização de suas idéias e o delírio psicótico.
Uma pequena e misteriosa espada de aço toledano e uma bengala irlandesa são segundo Martin Esslin, os dois objetos que despertaram a preocupação e o interesse, ainda maior de Artaud, pelos sinais mágicos e miraculosos que acredita estarem sendo manifestados a ele a partir do ano de 1936: a primeira lhe fora presenteada por um feiticeiro negro, quando de sua estada em Havana; e a segunda, presente do amigo René Thomas, considerada por Artaud como a própria bengala que São Patrício usou para expulsar todas as serpentes da Irlanda. Ambos os objetos levarão Artaud a tomar aulas de interpretação do baralho tarô, a fim de compreender sua significação mágica. É nesse período que publica Les Nouvelles
Révélations de l’Etre (Novas Revelações do Ser) assinada simplesmente como Le Revéle
(O Iluminado). E no mesmo mês (junho de 1937), pede ao amigo Jean Paulhan que publicasse como anônimo seus relatos sobre a viagem à terra dos Tarahumaras, pois segundo acreditara “bem cedo estarei morto ou numa situação... na qual não precisarei ter nome” (1967 apud ESSLIN, 1978, p.46). O tom profético presente no pedido feito a Paulhan, exacerba-se em
Les Nouvelles Révélations de l’Etre, obra considerada por Esslin como a declaração de total
desligamento de Artaud com sua existência normal:
Tenho lutado para experimentar e existir, para experimentar e consentir nas formas (todas as formas) com as quais a delirante ilusão de estar no mundo impregnou a realidade. Não desejo continuar enganado por ilusões. [...] Tenho um corpo que experimenta o mundo e vomita realidade. [...] Estamos mortos, os demais não estão
separados. Continuam a circular em torno de seus próprios cadáveres. Não estou morto. Mas estou separado. (id., ibid., p.47)
Os acontecimentos que culminaram com a realização da autoprofecia artaudiana se deram sob o signo do mistério em Dublin, local para onde Artaud se dirigiu convencido de que o destino o reservara um evento cósmico, exatamente na terra de origem da bengala de São Patrício. E assim, pouco mais de dois meses depois da publicação de Les Nouvelles
Révélations de l’Etre, Artaud assume-se definitivamente como protagonista de seu próprio
drama existencial, envolvendo-se em diversos acontecimentos insólitos e retornando à Paris sob camisa de força considerado como louco perigoso11.
A maneira obstinada com que Artaud pretendeu refazer sua vida, assumindo um tom profético e interpretando incessantemente os elementos miraculosos da magia proposta para o palco, redimensionando-os irremediavelmente para o plano de sua própria existência, o situa novamente na segunda fase do “drama social”, exatamente no momento destacado por Turner como sendo o mais “ameaçador dentro do próprio fórum e, por assim dizer, desafia os representantes da ordem a lidar com ele” (2008, p.34). Uma nova ação corretiva deverá ser tomada, só que desta vez não se trata de uma auto regeneração, e sim de uma ação corretiva institucionalizada.
11 A versão mais plausível pro que teria ocorrido da viagem a Dublin até seu regresso e internamento nos
manicômios franceses, segundo Esslin teria sido o seguinte: “A 14 de agosto, Artaud remeteu seus primeiros cartões da Irlanda a René Thomas, que o presenteara com a bengala mágica [...] Chegara a Cobh. A 17 de agosto, estava em Galway. A 23 [...] encontrara alojamento numa aldeia distante mais de duas horas a pé da agencia de correios mais próxima, em Kilronam. A esse tempo seu dinheiro já acabara, e solicitara ajuda de Breton e Paulhan. [...] Ao aproximar-se a hora da catástrofe para o mundo, prevista por ele, a milagrosa bengala mudou de caráter: a 14 de setembro, escreveu a Anne Manson: “Empunho o próprio bastão de Jesus Cristo e é Jesus Cristo quem me comanda, e tudo o que devo fazer; e ficará claro que seu ensinamento destinava-se aos Heróis Metafísicos e não aos idiotas (OC,VII, 282). Em carta a Breton, porém, escrita no mesmo dia, deixava claro que o Jesus Cristo cuja bengala ele possuía nada tinha a ver com o Jesus da cristandade. Se o Espírito Santo era a força a instar os homens a viver, era o Cristo-Shiva de Artaud quem chamava os homens ao Absoluto, porque reconhecia que a Vida é Mal, e Morte o definitivo Bem. [...] completamente sem dinheiro e em situação angustiosa, tentou entrar em contato com alguma casa religiosa que julgava abrigasse monges de língua francesa. Diz-se que, após tentar ser recebido num mosteiro (ou talvez mesmo num convento) a altas horas da noite, e sem que alguém lhe abrisse a porta, fez tanto barulho na rua, que a policia foi chamada para acabar com o distúrbio. Como resistisse a afastar-se dali, houve luta corporal, durante a qual perdeu a milagrosa bengala de São Patrício. Passou seis dias preso e foi finalmente metido num navio de partida para o Havre, o vapor Washington, que deixou Cobh a 29 de setembro de 1937. O pior estava por acontecer. Na cabine que lhe tinha sido designada a bordo do Washington, Artaud, ao que parece, alarmou-se com o súbito aparecimento de um camaroteiro e um mecânico, portando instrumentos metálicos, provavelmente para consertar uma pia. Convicto de que as duas figuras sinistras tinham vindo fazer-lhe mal, Artaud os atacou furiosamente e teve de ser dominado e metido em camisa de força. À chegada a Havre, a 30 de setembro, os armadores do navio entregaram-no às autoridades francesas, que prontamente o internaram num manicômio, como louco perigo” (1978, p.48-9, ênfases originais).