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7. Dialogen

7.3 Dialogens betydning i klasserommet

Parece não ser incorreto dizer que, especialmente a partir do movimento modernista, particularmente com alguns de seus membros, elaborou-se um tipo representação que tem sido eficiente em compor os módulos de uma imaginação nacional. Esta representação se tornou a fonte para a construção identitária da comunidade imaginada reunida sob nome Brasil e, como não podia deixar de ser, também pautou as expressões que deviam passar ao largo ou mesmo serem simbolicamente excluídas. Foi eficiente na medida de sua capacidade relativa de abarcar algumas

110 Apud CHIARELLI. Op. cit., p. 147.

111 Veja fragmentos como: “civilização carioca” e “na capital da Republica, nessa cafanaum do Rio de Janeiro.” LOBATO. Notas... cit., pp. 64; 75.

112 LOBATO. A Onda... cit. p. 131. 113 Ibid. p. 141.

das tendências opostas que estariam na base da formação nacional, desde as herdadas de sua posição de colônia até àquelas somadas às características de uma nação que seria, diante do mundo moderno, sui generis.

Uma das vantagens dessa representação é que substituía a recorrente promessa de constituição de uma nacionalidade em um futuro indeterminado pela afirmação de uma identidade já presente, embora ainda passível de ser melhor desenvolvida. Alguns críticos a chamaram de brasilidade modernista, notando que ela incluía tendências opostas, como a de Mario de Andrade e de Oswald, o primeiro apostando em uma versão elaborada a partir da pesquisa sistemática, o segundo confiando nas tendências intuitivas e inconscientes que estariam presentes em uma espécie de mentalidade coletiva114; nos dois casos, o literato ou o intelectual funciona como o elo entre a

nação e sua identidade. De qualquer forma, o modernismo passa então a figurar no país como momento de (re)fundação, e 1922 como marco simbólico. Já fizemos menção ao grupo organizado em torno de Lobato - ou de que ele fazia parte - também interessado na (re)fundação do país, mas em termos distintos. A coincidência não é ocasional. O recorrente comentário de que Monteiro Lobato teria preparado o campo para o grupo modernista - por exemplo, a fala de Oswald quando das comemorações de 25 anos de Urupês115 - pode ser considerado, de um modo muito particular, verdadeiro (o que não autoriza a caracterizar Lobato, seu grupo e sua geração de pré-modernista). E não apenas Lobato, mas sua geração e, possivelmente, a geração anterior. O que fornecem, que vinham trabalhando, era uma gramática, um conjunto de elementos imprecisos mas inteligíveis que abriam caminhos para a interpretação nacional e a construção da identidade. Essa gramática brota de uma forma de percepção e um modo de experienciar a história nacional.

Como visto anteriormente, Sergio Buarque reverberava esta experiência intelectual ao definir a formação nacional como um conflito internalizado entre “formas de convívios”, “instituições” e “ideias” provenientes do estrangeiro e o ambiente nacional “desfavorável e hostil”. Sua conclusão sintetizava uma percepção trágica: seríamos “desterrados em nossa terra”116. Do mesmo modo, quinze anos antes dele, Alberto Torres indicava ser resultado da “forma peculiar” das “nações novas” o fato de “jamais constituir-se”, sendo, por isso, seus “fios de tecedura” “dissolventes”117. Vê-se, assim, a persistência de uma percepção nacional trágica.

Esta percepção teria sido desfeita pela estratégia modernista que transformara a “tragédia de

114 Cf. MORAES, Eduardo Jardim de. A Brasilidade Modernista: sua dimensão filosófica. Rio de Janeiro: Graal, 1978.

115 Cf. ANDRADE, Oswald de. Ponta de Lança.5ª ed. São Paulo: Globo, 2004.

116 HOLANDA, Sergio Buarque de. Op. cit., p. 31.

117 TORRES, Alberto. O Problema Nacional Brasileiro. 3ª ed. São Paulo: Ed. Nacional, 1978, p. 42. A primeira edição é de 1914.

Nabuco” em “moléstia de Nabuco”118. Como disse Roberto Schwarz a respeito da poesia pau-brasil

de Oswald de Andrade, tratava-se do “esvaziamento do antagonismo” com “resultado valorizador”: “a suspensão do antagonismo e sua transformação em contraste pitoresco, onde nenhum dos termos é negativo”119. Suspendia-se o caráter problemático das oposições experimentadas como constitutivas do país, substituindo-o por uma esperança de síntese libertadora (desrecalcada é o termo de Antonio Candido120).

A pretensão universalista desta gramática certamente pode ser questionada. O fato é que ela moldara uma visão que se tornou persistente no modo como a nacionalidade foi, e é, imaginada por amplos setores. Isso não obstante historiadores, sociólogos, etc, possam facilmente demonstrar que se trata de um mito, como são todas as mitologias nacionais e nacionalistas121.

Eduardo Lourenço, em texto muito sugestivo, chama este procedimento de “rasura do trágico”. Ainda que nas filigranas esta ideia possa ser questionada, é correta como autorrepresentação coletiva e sugestiva para entender o lugar que a chamada literatura adulta de Lobato vai ocupar durante o século XX. Nas palavras de Lourenço,

[…] mesmo quem tenha da literatura brasileira um conhecimento superficial não deixará de ficar impressionado com a presença nela de uma espécie de estratégia (sem dúvida, inconsciente) destinada a contornar os aspectos mais trágicos da condição humana [poderia se completar: da condição nacional]. E, para além deles, a própria ideia do trágico como horizonte espiritual ou visão do mundo [na mesma linha do anterior: visão da nação].122

Mais à frente, completa o autor:

É no nosso século [XX] que a obsessão da brasilianidade se converte no objeto supremo da libido escritural do Brasil. Por isso é natural que o momento antitrágico paradigmático da literatura brasileira seja o do modernismo, momento em que toda a vontade de escrita se concentra na reivindicação e exaltação míticas da brasilidade.[...] A estrutura cultural eufórica que caracterizou o modernismo brasileiro […] vai constituir-se como uma segunda natureza do Brasil. […]

Este novo nascimento do Brasil para si mesmo – embora mítico ou por isso mesmo – condicionará a forma do espírito e da cultura brasileiros, envolvendo na sua pulsão positiva e otimista as visões mais cruas ou dolorosas da vida nacional nos seus aspectos históricos ou individuais.123

118 Cf. o debate entre Carlos Drummond de Andrade e Mario de Andrade in FROTA. Op. cit.

119 SCHWARZ, Roberto. “A carroça, o bonde e o poeta modernista” In Que horas são? São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 22.

120 Cf. CANDIDO, Antonio. Literatura e Sociedade. 9ª ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006, p. 126ss.

121 O que, como escreve Lilia Schwarcz, não significa que não tenha legitimidade. SCHWARCZ. “Imaginar é difícil (porém necessário). In ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas. Reflexões sobre a origem e a difusão do

nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 10.

122 LOURENÇO, Eduardo. “Da literatura brasileira como rasura do trágico”. In A Nau de Ícaro. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p. 197.

Assim, não haveria a perspectiva trágica na tradição literária brasileira, já que: “Um destino realmente trágico supõe e implica um máximo de consciência (ou de conscientização) dos obstáculos e das forças que reduzem o indivíduo ou a coletividade ao impasse fatal”124.

Essa falta de conscientização seria então a maior marca da rasura do trágico.

Vamos reter essa reflexão de Lourenço Filho, especificando que ela representa, do nosso ponto de vista, não a cultura brasileira em toda a sua totalidade, mas uma imagem que dela se fez a partir de movimentos culturais precisos, que lograram imprimir sua identidade constitutiva – seus processos de composição – como a própria identidade nacional.

Neste sentido, Monteiro Lobato ocuparia um não-lugar, porque sua estratégia está em sentido oposto àquilo que caracterizará a cultura e a identidade nacionais no século XX, e ainda no século XXI. Nossa hipótese, abordada anteriormente, propõe que a literatura de Lobato procura justamente intensificar o sentido dos paradoxos (impasses) constitutivos da nacionalidade brasileira. Lobato não contorna os aspectos trágicos da condição nacional, mas os aborda de frente. Por isso, supomos, sua literatura é um texto sobre o estranhamento – estranhamento de uma condição de pertencer simultaneamente a duas ordens distintas (uma especificidade nacional e uma civilização que a quer negar). Igualmente, estranhamento a respeito das séries de paradoxos e oposições constitutivas da formação nacional. Não é acaso a insistência, nestes textos do escritor, dos aspectos sombrios, escuros, estranhos, misteriosos, mortíferos, etc, da existência. À luz do problema nacional eles tomam um sentido bem específico, que o próprio Lobato caracterizava como trágico ou dramático. A estratégia de Monteiro Lobato é, pois, um desrecalque ainda mais radical, explicitando pelo texto literário – no tema e na forma – os sofridos limites da nacionalidade e as (im)possibilidades de sua constituição. Portanto, o modo de formar trágico e a forma trágica de pensar compõem a especificidade de literatura lobatiana diante brasilidade eufórica modernista que, como já referido, ganhou prestígio como imaginação nacional. Por isso, não é de se estranhar que, junto com o trágico, também esta literatura tenha sido rasurada.