Sanitários III, IV e V
De acordo com Ramos e Lima (2000), no trabalho em saúde se efetivam práticas que podem ser classificadas em assistenciais, educativas e administrativas. Essa classificação, contudo, se presta apenas para fins de análise, uma vez que na prática, essas dimensões encontram-se intimamente relacionadas.
Para as referidas autoras, as atividades administrativas são aquelas relativas ao controle do processo de trabalho, as assistenciais incluem ações diretas ou indiretas ao
usuário, sistemáticas ou não e as atividades educativas são dirigidas aos recursos humanos e a educação em saúde, voltada aos usuários.
Na análise que se segue, buscou-se saber qual a prioridade que os profissionais davam às dimensões Assistencial, Administrativa e Educativa no seu processo de trabalho, através da solicitação aos mesmos que atribuíssem a cada uma destas dimensões os números 1, 2 e 3, sendo o 1 para a dimensão mais frequentemente desenvolvida e 3 à dimensão desenvolvida com menor freqüência.
Para coleta dos dados e posterior análise através da aplicação do Teste de Hipóteses para proporção, foram elaboradas questões que versavam sobre a prioridade que era dada a cada uma das dimensões, e que podem ser vistas na Tabela 14. Foi considerado um nível de significância (α) de 5%, e os resultados do referido teste são descritos na sequência.
Tabela 14 - Apresentação das hipóteses testadas segundo as dimensões Assistencial, Educativa e Administrativa. João Pessoa-PB, 2010.
DIMENSÃO HIPÓTESES p-valor
Assistencial
H0: a proporção de profissionais que escolheu
a dimensão educativa como primeira opção é p = 0,5.
H1: a proporção de profissionais que escolheu
a dimensão assistencial como primeira opção é p> 0,5.
< 2.2 x 10-16
Educativa
H0: a proporção de profissionais que escolheu
a dimensão educativa como segunda opção é p = 0,5.
H1: a proporção de profissionais que escolheu
a dimensão educativa como segunda opção é p > 0,5
0.191
Administrativa
H0: a proporção de profissionais escolheu a
dimensão administrativa como terceira opção é p = 0,5.
H1: a proporção de profissionais que escolheu
a dimensão administrativa como terceira opção é p > 0,5)
0.018
Em relação à dimensão assistencial, o resultado do testes de hipóteses para proporção indicou um p-valor menor que o nível de significância estabelecido, fornecendo evidências
estatísticas para afirmar que o trabalho dos profissionais enfermeiros e médicos ocorre com maior freqüência na dimensão Assistencial.
Para a dimensão Administrativa, a aplicação do testes de hipóteses para proporção resultou em um p-valor menor do que o nível de significância estabelecido, de modo que é possível afirmar que esta é a terceira dimensão priorizada no processo de trabalho dos profissionais como um todo.
Na análise da dimensão Educativa, não foi possível, de início, localizá-la em nenhuma das posições, quando tomados os valores como um todo. Contudo, a comparação entre categorias profissionais em relação ao mesmo aspecto revelou que a proporção de médicos (73%) que posicionam a dimensão educativa em segundo lugar é significativamente maior do que a proporção de enfermeiros (43%) que indicam a mesma posição.
A apresentação das dimensões assistencial e administrativa no presente estudo se aproxima dos achados de Siviero e Sampaio (2009), que observaram que a dimensão assistencial é realizada em maior proporção pelos profissionais, ficando a dimensão administrativa em segundo lugar. Destaca-se ainda que, no estudo em questão, a dimensão educativa somente ter sido referida uma única vez, ainda que juntamente com as outras dimensões.
Hausmann e Peduzzi (2009) fazem afirmações interessantes acerca das dimensões assistenciais e administrativas, advogando em favor da complementaridade de ambas nas práticas de saúde, tendo em vista o fato de que, sendo o cuidado a marca do núcleo do processo de trabalho em saúde, as atividades administrativas deveriam estar voltadas à qualidade do cuidado. Desse modo, a ruptura entre as dimensões assistencial e gerencial implica no comprometimento da qualidade do cuidado, com repercussões negativas sobre o processo de trabalho.
Para as autoras, na dimensão assistencial, tem-se como objeto as necessidades de cuidado, visando o cuidado integral. Na dimensão administrativa, por sua vez, o objeto compreende a organização do trabalho e dos recursos humanos, e a finalidade reside em criar condições adequadas para o cuidado dos pacientes e para o desempenho das atividades dos trabalhadores.
Embora as atividades ditas administrativas sofram forte influência da administração clássica, segundo os moldes taylorista/fordista, determinando atividades burocráticas, parceladas, centrada em procedimentos e rotinas e impessoalidade nas relações entre os sujeitos, entre outras características, muitas tem sido as experiências que buscam superar essa compreensão dos processos administrativos, ao conceber essa dimensão como crucial para a
transformação do processo de trabalho em saúde. Esta concepção favorece a constituição de um novo paradigma que visa qualificar a assistência através da articulação dos processos de trabalho assistencial e gerencial, com ênfase na comunicação e interação profissional (HAUSMANN; PEDUZZI, 2009).
Dada a apresentação dos resultados, é possível afirmar que todas as dimensões consideradas encontram-se presentes no cenário em estudo, mesmo que em proporções variadas. A complexidade da realidade dos serviços, contudo, não permite argumentar em favor de um privilégio absoluto dado a alguma delas, uma vez que as razões para essa apresentação podem ser tão variadas quanto forem as situações que se colocam na realidade. Nesse sentido, a indicação da dimensão assistencial em primeiro lugar pode ocorrer, por exemplo, em função de os profissionais estarem mais inclinados a desenvolver essa dimensão em detrimento das outras, ao mesmo tempo em que pode compreender uma resposta às necessidades de saúde mais imediatas da população, que em função de condições de vida e saúde desfavoráveis, demandam um maior número de atividades assistenciais, o que, por sua vez, não implica a impossibilidade de agregar a essa prática ações educativas tendo em vista a promoção da saúde e prevenção da doença para a melhoria dessas condições.