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5. Saliva og oral helse

5.2. Tannslitasjeskader

5.2.2. Erosjoner

As noções de vida e natureza são, como se viu, as bases para a noção de experimentalismo, já que expressam uma visão que liga a vida ao conhecimento. Assim, ainda é preciso discutir como o experimentalismo se liga à noção de perspectivismo, já que o primeiro conduz ao “caráter perspectivo da existência” (GC, 374), ou seja, a prática da filosofia experimental conduz à visão perspectivista da existência, já que pela primeira, chega-se às coisas humanas e por elas, à falsidade

dos juízos cuja pretensão é doar à realidade algum caráter de estabilidade. Assim, o que se chama de perspectivismo em Nietzsche pode ser entendido como uma derivação e um complemento resultado da prática experimental enquanto procedimento filosófico. Em outras palavras: o perspectivismo se constitui como o alicerce daquilo que Nietzsche pratica como experimentalismo.

O uso do termo perspectivismo está convencionado entre a maior parte dos comentadores e intérpretes da filosofia nietzscheana e tem legitimidade na própria obra do filósofo alemão, na qual aparece em quatro passagens: GC, 354; KSA 12, 7[21], de 1886-1887, p. 303; KSA 12, 7[60], de 1886-1887, p. 315 (talvez seja a mais relevante das passagens, na qual Nietzsche associa o Perspektivismus à interpretação e à existência de “inumeráveis sentidos” para o mundo); e ainda em KSA 13, 14[186], de 1888, p. 376). Entretanto, o termo não é apresentado propriamente como uma “doutrina” ou mesmo como uma “teoria”. Ainda assim, é possível ligar essa noção a três perspectivas de interpretação: um conhecimento perspectivo (GC, 233), num sentido epistemológico; uma moral perspectiva (KSA 11, 26[178], de 1884, p. 196), num sentido ético; e, mais radicalmente, um caráter perspectivo da própria existência (GC, 374), num sentido “ontológico”. Todas essas possibilidades se articulam e remetem à vida enquanto experimentação e à ligação entre o perspectivismo e o experimentalismo de Nietzsche. Ainda que muito próximas, essas duas noções adquirem significados diferentes, já que o experimentalismo é o “procedimento” usado pelo filósofo do perspectivismo, ou seja, ele se funda num procedimento que nasce da afirmação das múltiplas perspectivas como possibilidade de conhecimento.

Para Nietzsche, o perspectivismo é a condição da própria vida e de todos os processos de valoração nela implementados, inclusive e principalmente as valorações morais:

Você deve aprender a perceber o que há de perspectivista em cada valoração – o deslocamento, a distorção e a aparente teleologia dos horizontes, e tudo o que se relaciona à perspectiva (...) [e deve aprender que] a própria vida é condicionada pela perspectiva. (HH I, Prólogo, 6)

Porque compreende a própria vida, o conhecimento e a própria moralidade como perspectiva é que a filosofia de Nietzsche se abre para as várias experiências como forma de captar esses sentidos possíveis. O termo perspectivismo remete primeiramente às várias nuances de uma mesma “visão”, ou seja, uma forma de

expressão que se dá a partir de relações que se interconectam para expressar algo sempre a partir de um lugar específico: algo ou alguém que olha. Nesse sentido, perspectiva remete a um olhar parcial e recortado, ainda que seja abrangente e relacione vários olhares, ela sempre se apresenta como limitada por deixar de lado outras tantas possibilidades e aspectos que não são “vistos”. É isso o que faz da pespectiva, além de um olhar limitado, também um olhar limitante, porque deforma e altera a condição de visão, falsificando e conformando o objeto da visão às capacidades interpretativas e sensoriais do olho que olha. Como tal, há inúmeras possibilidades de olhar (a multiplicidade está implícita no que é perspectivo) e todos os olhares são deformadores e nascem a partir das relações que o olho estabelece para ver. Essa metáfora visual remete, portanto, às várias alternativas de interpretação do mundo em seu aspecto aparente, sempre carregado de expectativas e probabilidades não de todo decifradas.

Como tudo é perspectivo, então as experiências efetivam-se como a forma de acesso às perspectivas e ao mesmo tempo, elas estão condicionadas pelo perspectivismo, representando a abertura existencial para as “infinitas possibilidades” interpretativas. É o perspectivismo que radica as experiências estruturais do indivíduo nietzscheano (principalmente no que diz respeito à sua formulação do “homem forte” como a situação dos indivíduos autoafirmados) efetivadas, principalmente, através da moralidade.

Essa noção está arrolada pelo reconhecimento de que “a meta mais importante da humanidade quiçá seja medir o valor da vida e determinar corretamente a razão porque ela existe”52 (KSA 8, 20 [12], de 1876, p. 365), mas que para isso seria necessário o surgimento de um “intelecto supremo” capaz de medir o valor da vida, o que significa ser capaz de medir o valor dos valores. No entanto, como já se viu, esse intelecto supremo, ao avaliar, se dá conta de que tudo é avaliação e que a vida é o critério dessas avaliações, aquele que não pode ser avaliado a não ser que esse intelecto se coloque fora da vida. Por isso, na tentativa de “medir” o mundo, o “homem” não o faz a não ser como “equívoco” e “engano” (interpretação e avaliação), já que esses resultados (as medidas estabelecidas) são originários da “prisão dos sentidos”. Essa idéia aparece em Aurora, 117:

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“Es ist vielleicht das wichtigste Ziel der Menschheit, dass der Werth des Lebens gemessen und der Grund, wesshalb sie da ist, richtig bestimmt werde.”

Minha vista, seja forte ou fraca, enxerga apenas a certa distância, e neste espaço eu vivo e ajo, a linha deste horizonte é meu destino imediato, pequeno ou grande, a que não posso escapar. Assim, em torno a cada ser há um círculo concêntrico, que lhe é peculiar. De modo semelhante, o ouvido nos encerra num pequeno espaço, e assim também o tato. É de acordo com esses horizontes, nos quais, como entre muros de prisão, nossos sentidos encerram cada um de nós, que medimos o mundo, que chamamos a isso perto e àquilo longe, a isso grande e àquilo pequeno, a isso duro e àquilo macio: a esse medir chamamos “perceber” e tudo, tudo em si é erro!

Nietzsche não poderia ser mais claro a respeito do seu perspectivismo, já que todas as medições (percepções) do mundo feitas pelo humano, esse que mede mas como erro, não passam de resultado das experiências e emoções que fazem essa “vida média humana” alocada no espaço minúsculo da vida como entre muros de uma prisão – os sentidos. Em um fragmento de 1886-1887 (KSA 12, 7 [60], p. 315) Nietzsche é explícito a esse respeito: “São as nossas necessidades que interpretam o mundo: os nossos instintos, os seus prós e os seus contras. Cada instinto é uma espécie de despotismo, cada um tem a sua perspectiva, que gostaria de impor como norma aos restantes instintos”53. Ainda em outro fragmento do outono de 1881, Nietzsche escreve:

Todo esse mundo que realmente nos importa, no qual estão enraizados nossas necessidades, nossos desejos, nossas alegrias, nossas esperanças, nossas cores, nossas linhas, nossas fantasias, nossas orações e nossas maldições – todo esse mundo foi criado por nós homens, e nos esquecemos disso, de modo que posteriormente inventamos um criador próprio para tudo. Assim como a linguagem é o poema originário de um povo, o mundo inteiro, sentido intuitivamente, é a poesia originária da humanidade, e já os animais começaram a compô-la. Isso nós herdamos de uma só vez, como se fosse a própria realidade. (...)54 (KSA 9, 14 [8], de 1881, p. 624)

Como “poema originário”, o mundo é uma construção do próprio humano e dos animais em geral. O radicalismo do perspectivismo de Nietzsche contraria-se nesse fragmento com a idéia de um Deus criador: agora, não mais um Deus cria o mundo, mas o próprio humano, como uma poesia nascida da intuição da própria humanidade e herdada “como se fosse a realidade”. E trata-se de um gesto que traz felicidade ao criador, cuja expressão máxima é a devoção e o amor à criatura: “Todo

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“Unsre Bedürfnisse sind es, die die Welt auslegen: unsre Triebe und deren Für und Wider. Jeder Trieb ist eine. Art Herrschsucht, jeder hat seine Perspektive, welche er als Norm allen übrigen Trieben aufzwingen möchte.”

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“Diese ganze Welt, die uns wirklich etwas angeht, in der unsere Bedürfnisse Begierden Freuden Hoffnungen Farben Linien Phantasien Gebete und Flüche wurzeln — diese ganze Welt haben wir Menschen geschaffen — und haben es vergessen, so daß wir nachträglich noch einen eigenen Schöpfer für alles das erdachten (…)”.

esse mundo que criamos, oh, como o amamos! Tudo o que poeta sente perante a sua obra não é nada perante as inúmeras emanações de felicidade que os homens sentiram em tempos imemoráveis, quando inventaram a natureza”55 (KSA 9, 14 [9], de 1881, p. 625). Por isso, o perspectivismo deve ser entendido como uma doutrina que se contrapõe à fé cristã e que traz uma felicidade criadora ao humano (é bom lembrar que esse fragmento está entre os preparatórios de A Gaia Ciência, nos quais Nietzsche expressa o “monstruoso acontecimento” da morte de Deus). Negá- la, como o faz o cristianismo, é cultuar o mal-estar e o desprezo.

Qualquer idéia que tente fixar um sentido e um objetivo para a vida não passaria de engano e erro, portanto. Esse é o engano da moral e da razão a respeito da vida, porque ela

omite a possibilidade de que essa pintura – aquilo que para nós, homens, se chama vida e experiência – gradualmente veio a ser, está em pleno vir a ser, e por isso não deve ser considerada uma grandeza fixa, da qual se pudesse tirar ou rejeitar uma conclusão acerca do criador (a razão suficiente). (...) nós fomos os coloristas: o intelecto humano fez aparecer o fenômeno. (HH I, 16)

A pintura (a realidade da vida e das experiências humanas) não é algo fixo que poderia ser captado pelo intelecto de forma rígida. Ao contrário, o mundo está em constante vir-a-ser. E mais: o humano é o colorista, ou seja, é a partir de suas perspectivas de avaliação que os fenômenos aparecem enquanto tal. Tem-se então, que o mundo é visto de forma perspectiva (porque está em constante transformação) e o próprio conhecimento é entendido enquanto tal. Como consequência, “(...) das mãos dos maiores pensadores-pintores não saíram nunca mais que quadros e quadrinhos de uma vida, a saber, de sua vida, e nada mais era possível”. (OS, 19)

Dada a característica da vida, o que se chama de “conhecimento” não passaria, para Nietzsche, de processos de fabulação e hipótese que não guardam nenhum sentido único, mas múltiplas possibilidades de interpretação, conforme ainda a mesma passagem: “Tanto quanto a palavra ‘conhecimento’ tenha em geral algum sentido, o mundo é cognoscível, mas é diferentemente interpretável, não tem qualquer sentido por trás, antes inumeráveis sentidos – ‘perspectivismo’”. Nietzsche

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“Diese ganze Welt, die wir geschaffen haben, oh wie haben wir sie geliebt! Alles was Dichter empfinden gegen ihr Werk, ist nichts gegen die zahllosen Ausströmungen des Glücks, welche die Menschen in unvordenklichen Zeiten empfunden haben, als sie die Natur erfanden.”

se empenha em guardar uma possibilidade de conhecimento do múltiplo e instável pela via da emissão de provisórias interpretações de sentido de acordo com as necessidades individuais cuja efetivação está carregada de interesses e forças súbitas. É assim que os “realistas” cujo amor à “realidade” é cego e circunspeto, são criticados pelo filósofo de A Gaia Ciência: “Não existe ‘realidade’ para nós – e tampouco para vocês, sóbrios” (§ 57).

Como filósofo do perspectivismo, Nietzsche sabe que o “nome” dado pelo intelecto às coisas não passa de um engano, mas é esse processo de nomeação que interessa ao conhecimento, ou seja, como as avaliações da realidade são efetivadas:

Eis algo que me exigiu e sempre continua a exigir um grande esforço: compreender que importa muito mais como as coisas se chamam do que aquilo que são. A reputação, o nome e a aparência, o peso e a medida habituais de uma coisa, o modo como é vista – quase sempre uma arbitrariedade e um erro em sua origem, jogados sobre as coisas como uma roupagem totalmente estranha à sua natureza e mesmo à sua pele -, mediante a crença que as pessoas neles tiveram, incrementada de geração em geração, gradualmente se enraizaram e encravaram na coisa, por assim dizer, tornando-se o seu próprio corpo: a aparência inicial termina quase sempre por tornar-se uma essência e atua como essência! Que tolo acharia que basta apontar essa origem e esse nebuloso manto de ilusão para destruir o mundo tido por essencial, a chamada “realidade” [Wirklichkeit - aquilo que é efetivo56]. Somente enquanto criadores podemos destruir! (GC, 58)

Cada “coisa” do mundo não passa, portanto, de um amontoado de sequelas deixadas por outras forças sobre um “corpo” qualquer. É esse jogo com o exterior, com o que é aparente, que na maior parte das vezes é captado como uma essência das coisas. Somente vendo esse gesto criador de todas as coisas umas sobre as outras é que o conhecimento se efetiva – e não mais como processo de compreensão, mas de criação. E como criador, o indivíduo do conhecimento é também um destruidor, porque ao evocar as “sequelas” de umas coisas sobre as outras, ele acaba por destituí-las de seu poder de essência.

Em um dos textos mais significativos sobre o seu perspectivismo (A Gaia

Ciência, § 374, intitulado Nosso novo “infinito”) Nietzsche apresenta os baldrames da

sua “filosofia perspectivista”, aquela que delineia, justamente, os limites da

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Nietzsche, provavelmente como herança de Schopenhauer (cf. MVR, I, 4) trabalha com a distinção corrente na língua alemã entre Wirklichkeit, derivado de wirken, que denota o que é efetivo, o que faz-

efeito; e Realität, que tem uma origem latina. Ao criticar, por exemplo, nessa passagem os filósofos

que acreditam numa efetividade, verifica-se uma nítida referência ao texto schopenhauriano que afirma a realidade como resultado (um fazer-efeito) do sujeito, sua representação.

“clausura” de todas as interpretações ao âmbito humano-terreno (antagônico ao da metafísica) que, paradoxalmente, abre um “novo infinito” de possibilidades interpretativas57. Esse texto evoca, sobretudo, a ideia de que a “teoria” perspectivista de Nietzsche está regulada por uma visão “ontológica” e não apenas “epistemológica”, ou seja, ela remete não apenas à impossibilidade de que o sujeito conheça a verdade sobre o mundo, mas à própria ausência de verdade (como algo fixo), já que também o mundo se apresenta como jogo de perspectivas e, como tal, provisório e mutável. Por isso o perspectivismo abre para a compreensão interpretativa da pluralidade das várias experiências que formam aquilo que se deduz como “realidade” - e que não passa de uma falsificação, com uma cota reduzida ao momento das suas forças constituintes e às necessidades do intérprete que as analisa58.

O “infinito” torna-se, assim, a palavra-chave para a compreensão do perspectivismo nietzscheano. Isso porque o mundo só se torna “infinito”

(Unendliches) e aberto, na medida em que lhe é reconhecido a fecundidade das

várias interpretações possíveis: “O mundo tornou-se novamente ‘infinito’ para nós: na medida em que não podemos rejeitar a possibilidade de que ele encerre infinitas

interpretações”. (GC, 374). Note-se a exatidão da expressão: as interpretações não

são apresentadas como algo exterior ao mundo (como atividade de um sujeito consciente, por exemplo), mas, ao contrário, como atividade encerrada pelo próprio mundo. É dele a característica interpretativa e não de um ser que interpreta. Contra o mimetismo da filosofia tradicional, Nietzsche oferece a “possibilidade” das várias interpretações do indivíduo artístico.

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Nas palavras de António Marques (1989, p. 65), poder-se-ia apontar três características dessa filosofia a partir do fragmento citado: “a) o caráter, por assim dizer, ilimitado e ‘acêntrico’ de um ‘sistema’ perspectivista; b) a impossibilidade de uma perspectiva sobre todas as outras perspectivas, isto é, a impossibilidade de uma inteligência, um espírito ou um sujeito poder conhecer ou representar sem as categorias específicas e condicionadas, quer pela experiência, quer pelo processo filogenético; c) o contrasenso de se imaginar algo de inatingível pelo nosso de conhecer [sic], uma espécie de ‘sentido oculto’ que deveríamos supor dada a limitação intrínseca do modo de ser perspectivista”. António Marques, entretanto, reserva-se a uma interpretação epistemológica do perspectivismo nietzscheano, ligando-o à continuação do projeto crítico kantiano. Essa interpretação, a nosso ver, não leva em conta a noção “ontológica” presente a “filosofia perspectivista” de Nietzsche.

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É bom lembrar que essa é a temática do proeminente capítulo de Crepúsculo dos Ídolos, intitulado

Como o “mundo verdadeiro” acabou por se tornar fábula (História de um erro), no final do qual

Nietzsche registra: “Suprimimos o mundo verdadeiro: que mundo nos resta? O mundo aparente, talvez?... Mas não! Com o mundo verdadeiro suprimimos também o aparente!” E ao final, acrescenta em referência ao “Meio-dia”: “INCIPIT ZARATUSTRA”, ligando a mensagem de Zaratustra ao “ponto culminante” no qual a humanidade recupera a sua visão clara a respeito da “realidade”.

Essa poiética do humano não pode levar, adverte Nietzsche no final do mesmo parágrafo, à nova “divinização” desse mundo aberto e “desconhecido”

(Unbekannten). Essa nova “verdade” não pode ser reconhecida como verdade

dogmática – erro ao qual se renderam alguns intérpretes que buscaram no texto nietzscheano algum novo fundamento metafísico. Nietzsche é claro: “Mais uma vez nos acomete o grande tremor – mas quem teria vontade de imediatamente divinizar de novo, à maneira antiga, esse monstruoso mundo desconhecido? E passar a adorar o desconhecido como ‘o ser desconhecido’?” (GC, 374). É preciso resistir à tentação de fazer da afirmação do perspectivismo mais uma verdade absoluta, divinizada, levada à perda de sua perspectiva.

A crença no permanente aparece assim, não só como uma falsidade, mas como uma corrente que interdita o processo criativo característico da própria vida, a não ser que se reconhecesse que o permanente só o é como provisório, o que não é o caso. A existência repousa eternamente de forma estéril em erros fixos da razão: essa tem sido a negatividade imposta à vida pelos dogmatismos, idealismos e teleologismos das filosofias e religiões ocidentais que pregam o caráter apriorístico59 do conhecimento e nele fundam a própria moralidade.

O conhecimento tem um caráter interpretativo e arbitrário que garantem, por isso mesmo, o crescimento e a abundância da vida. Esse caráter precisa ser reconhecido, ao custo de perder-se a legitimidade das interpretações. E é nele, ou seja, numa visão perspectiva da vida, que Nietzsche encontra as bases da sua crítica à moralidade, ao denunciar o seu ficcionismo de suas bases metafísicas.

O conhecimento pode significar também, ambiguamente, na medida em que essas interpretações se cristalizam, a negação da vida. Ou – o que é resultado disso – a própria consciência que se apresenta como a detentora do poder de conhecimento, não passaria de uma crença na fraqueza e no erro e é nesse processo que se geram os erros da razão tão corrosivos à vida, conforme os apontados acima do ponto de vista da moral. Em outras palavras, a pequena razão que cristaliza por engano e soberba (cf. VM, 1), generaliza e vulgariza aquilo que é rico e exuberante:

Este é o verdadeiro fenomenalismo e perspectivismo, como eu o entendo: a natureza da consciência animal ocasiona que o mundo de que podemos

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“(...) Numa palavra, este princípio a priori é uma peça de mitologia original – nada mais [Kurz,dieser

nos tornar conscientes seja só um mundo generalizado, vulgarizado – que tudo o que se torna consciente por isso mesmo torna-se raso, ralo, relativamente tolo, geral, signo, marca de rebanho, que a todo tornar-se consciente está relacionada uma grande, radical corrupção, falsificação, superficialização e generalização. Afinal, a consciência crescente é um perigo (...) (GC, 354)

Tudo o que se apresenta a partir do que é consciente – e portanto, supérfluo e fraco - pode ser também sintoma de negação e embotamento daquilo que cada indivíduo tem de individual, já que, retomando nesse fragmento uma das teses de

Sobre Verdade e Mentira no sentido extramoral, Nietzsche afirma a consciência

como resultado da necessidade da comunicação e, portanto, do instinto de socialibilidade: “apenas como animal social o homem aprendeu a tomar consciência de si” (GC, 354). Se a consciência é algo gregário, apenas inventada como utilidade, ela não pode contribuir em nenhuma medida para o autoconhecimento humano. Se ela “não faz parte realmente da existência individual do ser humano” então, ao ser usada para revelar pretensa identidade do humano, ela acaba por distanciá-lo de si mesmo: “(...) cada um de nós, com toda a vontade que tenha de entender a si próprio da maneira mais individual possível, de ‘conhecer a si mesmo’, sempre traz à consciência justamente o que não possui de individual, o que nele é ‘médio’”. Toda a singularidade das infinitas possibilidades que caracterizam as ações humanas como resultado ocasional dos impulsos e das múltiplas aberturas do mundo do devir, são suplantadas pela consciência.

Esse “instinto do medo” (GC, 355) frente ao que é diverso e grandioso no mundo do devir que se revela na constante condenação dos impulsos (a natureza no humano), faz com que o humano tente encontrar na própria consciência a segurança aspirada: “que o método exige, por exemplo, que se parta do ‘mundo interior’, dos ‘fatos da consciência’, pois este é o mundo mais familiar para nós! Erro dos erros! O familiar é o habitual; e o habitual é o mais difícil de ‘conhecer’, isto é, de ver como problema, como alheio, distante, ‘fora de nós’...” (GC, 355). O processo de conhecer está posto aqui como a capacidade de manutenção do problemático e do alheio e