1. Introduction
1.2 Diagnostic Imaging work flow
O processo de socialização ocorre na infância, na adolescência e no início da idade adulta. Apesar disso, o mesmo acontece ao longo de toda a vida humana, pois são as várias aprendizagens que permitem viver em sociedade. Experiências como a cooperação, a partilha ou a gestão de conflitos são diferentes oportunidades de aprendizagem das aptidões sociais, que estão diretamente associadas às relações de amizade.
Desde o nascimento até aos dez anos de idade (aproximadamente), podemos dizer que os bebés e as crianças atravessam a primeira fase do processo de socialização – a socialização primária (Aires, 1999). Nesta fase, a criança está dependente do outro. Seja para a satisfação das necessidades básicas (alimentação, higiene, saúde) ou das necessidades de carácter afetivo (carinho, jogos verbais, expressões corporais), é através do envolvimento com o outro que as crianças desenvolvem as suas estruturas – físicas e intelectuais.
Para além disso, têm a oportunidade de aprender e conhecer o mundo do qual fazem parte, ou seja, a sua sociedade, a sua cultura. E por cultura, segundo João dos Santos, podemos entender a própria relação entre as pessoas, acrescentando que “é ter consciência de si próprio, é ser solidário, é ter um ideal, um objectivo a atingir, é descobrir o Outro nos Outros” (Santos, 1982, p.184, citado por Carvalho Branco, 2002, p.8). Esta compreensão de si próprio, do outro e o compromisso para com ele são as bases de qualquer relação humana.
Assim, o pedagogo refere que o afeto liga as pessoas, envolve-as, molda-as e permite que seja estabelecida uma relação. As crianças pertencem a dois sistemas de interação onde estabelecem diferentes tipos de relações – entre criança e adulto e entre pares (criança e criança). A família, como primeiro e mais importante contexto de socialização da criança, é onde está numa posição de dependência e tem menos poder. As regras são-lhe impostas por um sistema construído pela sociedade e veiculado pelo adulto, sendo assim uma interação baseada nas regras definidas pelo próprio adulto.
Por outro lado, o grupo de pares funciona numa base igualitária (Roffey et. al, 1994, citados por Mestre, 2005). A influência do grupo ou, especificamente, dos amigos provoca uma mudança nos comportamentos em determinadas situações e permite que a criança identifique as suas próprias características. Por lhes proporcionarem grandes prazeres, as crianças dedicam parte do seu tempo diário às amizades, onde desenvolvem competências sociais. Para além disso, permitem que as crianças se apropriem, reinventem e reproduzam o mundo que as rodeia, numa relação de convivência que dá a oportunidade de exorcizar medos, construir fantasias e representar cenas do quotidiano – um conjunto de novas perspetivas necessárias ao progresso do seu desenvolvimento social.
Teorias psicanalíticas revelavam que estas relações teriam pouca importância para o desenvolvimento da criança, comparando-as com o papel essencial da relação mãe-criança. Contudo, estudos posteriores vieram valorizar a coesão e a cooperação no grupo de pares, desempenhando um papel essencial no desenvolvimento social e afetivo da criança. Na verdade, os adultos e o grupo de pares fornecem suportes diferenciados que influenciam o desenvolvimento da criança de um modo distinto. (Rubin, 1982).
Neste sentido, pelo mundo social ao qual está inserida desde o seu nascimento, a criança é influenciada a vários níveis. No processo evolutivo do seu desenvolvimento, Tortella (n.d.) afirma que a criança se depara com diferentes maneiras de interagir e de dar resposta às situações vivenciadas, podendo assim ir estabelecendo relações sociais
essenciais à vida humana. Nestas interações sociais, que podem ser reduzidas a interações entre indivíduos, a criança tem a possibilidade de observar, experimentar, interpretar e compreender a sua vida a partir de uma outra perspetiva. Ganha a capacidade de se desenvolver e crescer. Estas trocas podem marcar a criança permanentemente.
“Troca” pode ser entendida como um conjunto de comportamentos entre pessoas, em que as atitudes de um podem refletir-se nas ações tomadas por outro (Piaget e Inhelder, 1982). Trocas fulcrais para o desenvolvimento intelectual e afetivo e, ainda, para a própria construção de relações.
Numa abordagem sociointeracionista, Vygotsky foi também um dos que defendeu que “(...) o desenvolvimento humano se dá em relação nas trocas entre parceiros sociais, através de processos de interação e mediação” (Rabello & Passos, n.d.). Ou seja, que a aquisição de conhecimentos acontece a partir da interação do sujeito com o meio onde está inserido, para além das relações intra e interpessoais que são estabelecidas. A criança, assim, é um elemento pertencente à sociedade.
Ainda o psicólogo,
acredita que as características individuais e até mesmo suas atitudes individuais estão impregnadas de trocas com o colectivo, ou seja, mesmo o que tomamos por mais individual de um ser humano foi construído a partir de sua relação com o indivíduo (Vygotsky, 1988, citado por Rabello & Passos, n.d.).
A amizade depende, assim, do meio – um fator de máxima importância que influencia as condições do desenvolvimento humano por envolver a cultura, a sociedade, as práticas e as interações.
Todas estas vivências e oportunidades de interação a que cada criança está sujeita diariamente, tornam-se uma questão de adaptação ao próprio meio. A partir de proximidades mais intensas com outras pessoas – amigos – é possível resolver problemas afetivos e cognitivos, ou seja, as amizades na infância são necessárias para que a própria criança se equilibre afetiva e cognitivamente (Tortella, n.d.).
Se forem privadas de estabelecer relações, comparações, opiniões e trocas afetivas e cognitivas, o estado emocional das crianças será instável. O grupo de pares proporciona novas experiências e julgamentos, onde, na comparação com os outros, pode avaliar as suas capacidades e habilidades de uma forma mais realista. Por essa razão, a amizade na infância é uma ferramenta importante para a saúde mental. (Ricardo & Rossetti, 2011).
Fonte de gratificação, companheirismo, colaboração, suporte mútuo e diversão, estas relações interpessoais são essenciais para o crescimento de qualquer pessoa. São elas que possibilitam competências sociais, que se podem traduzir em características como a sensibilidade, empatia, capacidade de envolvimento em diferentes contextos e resolução de problemas. Assim, da qualidade das interações com o outro, depende a vida futura de todos, tanto pessoal como profissional (Roffey et. al, 1994, citados por Mestre, 2005).