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Este estudo foi aprovado pela Câmara do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, pelo Departamento de Ensino e Pesquisa do HC-UFMG, pelo Comitê de Ética em Pesquisa (COEP-UFMG), estando registrado na Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) sob o nº. 294/2011 (ANEXO D).

Todas as pacientes participaram voluntariamente desta pesquisa tendo sido respeitados os princípios para pesquisa em seres humanos. As participantes foram informadas sobre os objetivos e a segurança deste estudo e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (ANEXO A).

A aplicação da entrevista estruturada e da Escala de Edimburgo se deu conforme orientação do Código de Ética do Psicólogo para aplicação de Testes Psicológicos (CFP, 2003). Todas as pacientes identificadas com potencial risco para o desenvolvimento da depressão pós-parto foram devidamente encaminhadas para atendimento especializado.

5 RESULTADOS

No período de novembro de 2011 a agosto de 2012 foram entrevistadas 110 pacientes que se encontravam no período pós-parto imediato internadas em alojamento conjunto na Maternidade do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC / UFMG). Em todas as participantes foi aplicada uma entrevista estruturada (ANEXO B), seguida da aplicação da Escala de Edimburgo – EPDS (ANEXO C).

A frequência apurada neste estudo para escores com pontuação igual ou superior a 12 pontos na EPDS nos primeiros dias após o parto foi 25,5%, conforme apresentado na tabela 11. Por se tratar de uma escala utilizada para triagem da depressão pós-parto, podemos afirmar que estas pacientes encontram-se em um grupo de risco aumentado de vulnerabilidade emocional. Devido à diversidade de pontos de corte utilizados na literatura, apesar de estarmos utilizando o ponto de corte igual ou superior a 12 pontos para referência neste trabalho, optamos por apresentar nossos resultados estratificados em pontos de corte variados – com recortes nos escores 09, 10, 11, 12 e 13 –, para efeitos de comparação com outros estudos do gênero. (Tabela 11)

Tabela 11 – Frequência dos escores da EPDS obtidos utilizando pontos de corte diferenciados

Score EPDS Frequência Percentual

≤ 08 64 58,2 % ≥ 09 46 41,8 % ≥ 10 45 40,9% ≥ 11 37 33,6% ≥ 12* 28 25,5% ≥ 13 24 21,8% Total: 110 100 %

* Ponto de corte sugerido pelos autores da escala bem como pelos autores responsáveis pela validação da escala brasileira. Ponto de corte adotado como referência para este trabalho.

As tabelas 12 a 17 mostram o valor prognóstico dos aspectos sócio-demográficos, dos sintomas ginecológicos relacionados à TPM, dos aspectos clínico-obstétricos, clínico-psicológicos/psiquiátricos, psicossociais e percepções subjetivas acerca da gestação em relação à pontuação elevada na EPDS (≥ 12) no pós-parto imediato. A maioria dos fatores sócio-demográficos não apresentou correlação significativa à pontuação elevada na EPDS (≥ 12) no pós-parto imediato. Na tabela 12 podemos observar que apenas o desemprego durante a gestação se associou à pontuação elevada na EPDS (≥ 12) no pós-parto imediato. Essas puérperas apresentaram 3,28 vezes mais chances de atingir uma alta pontuação na EPDS em relação às puérperas que se encontravam empregadas durante a gestação. Fatores como idade, nível educacional, renda familiar, religiosidade e interrupção do trabalho na gestação por contingências da própria gestação (indicação médica e/ou licença maternidade) não se mostraram significativas neste estudo.

Tabela 12 – Aspectos sócio-demográficos e sua relação com a pontuação elevada* na EPDS no pós-parto imediato

Fatores sócio-demográficos Odds Ratio Intervalo de confiança (95%) p-value Idade < 18 anos Idade 18 a 34 anos 0,427 0,637 0,090 – 2,040 0,248 – 1,637 0,275 ** 0,347 ** Idade ≥ 35 anos 1,218 0,421 – 3,524 0,715 ** Nível educacional 0,691 0,288 – 1,661 0,408 ** Renda familiar 0,525 0,179 – 1,544 0,237 ** Praticante religião 0,555 0,234 – 1,318 0,179 **

Desemprego durante a gestação 3,283 1,038 – 10,381 0,036 **

Trabalho interrompido na gestação 1,167 0,428 – 3,181 0,763 **

* EPDS ≥ 12 ** Pearson Chi-Square

Em relação aos sintomas ginecológicos relacionados à Tensão Pré-Menstrual, percebemos correlação significativa entre a presença de sintomas físicos e emocionais relativos à TPM e à pontuação elevada na EPDS (≥ 12) no pós-parto

imediato, conforme apresentado na tabela 13. Mulheres que apresentam essa sintomatologia possuem 2,7 vezes mais chances de estar em um grupo de risco para o desenvolvimento da depressão no período puerperal segundo EPDS. Sintomas de origem exclusivamente física, emocional ou funcional não mostraram ser significativos neste estudo.

Tabela 13 – Sintomas ginecológicos relacionados à TPM e sua relação com a pontuação elevada* na EPDS no pós-parto imediato

Sintomas ginecológicos relacionados à Tensão Pré-Menstrual Odds Ratio Intervalo de confiança (95%) p-value TPM Física 2,075 0,865 – 4,981 0,099 ** TPM Emocional 1,862 0,735 – 4,716 0,186 ** TPM Funcional 1,786 0,481 – 6,629 0,381 **

Presença dos 03 tipos de TPM***

Presença de pelo menos um tipo dos 03 tipos de TPM ** 3,251 1,391 0,755 – 13,987 0,526 – 0,388 0,098 ** 0,502 **

Presença de TPM Física e Emocional 2,716 1,128 – 6,54 0,023 **

Presença de TPM Física e Funcional 2,341 0,346 – 2,756 0,130 ** Presença de TPM Emocional e Funcional 1,571 0,547 – 2,708 0,274 **

* EPDS ≥ 12 ** Pearson Chi-Square ***TPM Física e Emocional e Funcional

A maioria dos aspectos clínicos obstétricos não se mostrou estatisticamente significativa em relação à pontuação elevada na EPDS (≥ 12) no pós-parto imediato, conforme tabela 14. Estar em acompanhamento obstétrico, ser proveniente de pré- natal de risco habitual ou pré-natal de alto risco / medicina fetal, ter história de aborto prévio ou história de prematuridade ou malformação fetal prévia, bem como a paridade, o planejamento da gravidez, o tipo de parto ou intercorrências no parto não se revelaram significativos em nossa amostra. O parto prematuro, no entanto, foi correlacionado significativamente à pontuação elevada na EPDS (≥ 12) e consequentemente a um maior risco de desenvolvimento de depressão no pós-parto segundo este instrumento, apresentando essas puérperas 3,57 maiores chances de desenvolver este transtorno em comparação às que tiveram parto a termo.

Tabela 14 – Aspectos clínico-obstétricos e sua relação com a pontuação elevada* na EPDS no pós-parto imediato

Aspectos clínico-obstétricos Odds Ratio

Intervalo de confiança (95%)

p-value

Pré-Natal de Risco Habitual 0,897 0,359 – 2,240 0,815 **

Pré-Natal Alto Risco/Medicina Fetal 0,690 0,540 – 0,880 0,070 **

Planejamento da gravidez 0,787 0,328 – 1,886 0,591 **

Realizar pré-natal 1,346 1,205 – 1,503 0,557 **

Início das consultas de pré-natal 1,944 0,764 – 4,947 0,159 **

Paridade 1,442 0,566 – 3,674 0,441 **

Aborto prévio 1,375 0,498 – 3,794 0,538 **

Tipo de parto 1,164 0,491 – 2,756 0,730 **

Intercorrências no parto 1,565 0,485 – 5,052 0,451 **

Parto prematuro 3,571 1,126 – 11,324 0,024 **

Intercorrências com o neonato 0,484 0,150 – 1,558 0,217 ** História pregressa de prematuridade 1,235 0,277 – 5,514 0,782 ** História pregressa de malformação fetal 0,701 0,600 – 0,820 0,359 **

* EPDS ≥ 12 ** Pearson Chi-Square

O Histórico Pessoal de Transtorno Psiquiátrico revelou-se um forte predisponente a alta pontuação na EPDS (≥ 12) no pós-parto imediato. (Tabela 15) Pacientes que já experienciaram algum transtorno de ordem psiquiátrica algum momento de suas vidas apresentaram chances 4,85 vezes maiores a apresentar pontuação elevada na EPDS (≥ 12) no pós-parto imediato quando comparadas às que não possuem história prévia psiquiátrica. História prévia psiquiátrica familiar, uso regular de psicotrópicos ou mesmo acompanhamento psicológico na gestação não se mostraram significativos neste estudo em relação à pontuação da EPDS.

Tabela 15 – Aspectos clínico-psicológicos/psiquiátricos e sua relação com a pontuação elevada* na EPDS no pós-parto imediato

Aspectos clínico- psicológicos/psiquiátricos Odds Ratio Intervalo de confiança (95%) p-value

Acompanhamento psicológico na gestação 2,111 0,550 – 8,109 0,268 ** Uso regular de psicotrópicos 4,389 0,918 – 20,993 0,047 **

Histórico familiar de transtornos psiquiátricos 1,145 0,454 – 2,886 0,774 **

Histórico pessoal de DPP 2,449 0,703 – 8,537 0,152 **

Histórico pessoal de transtornos psiquiátricos 4,857 1,901 – 12,408 0,001 ** * EPDS ≥ 12 ** Pearson Chi-Square

Os fatores psicossociais mostraram-se bastante significativos em relação a alta pontuação na EPDS neste estudo, conforme apresentados na tabela 16. O fato de estar em uma relação estável – casamento ou união estável – revelou-se um fator protetor neste estudo, com redução de 65% (0,349) de chances de apresentar pontuação alta na EPDS no pós-parto imediato. E independente de estar em uma relação estável, o fato de a relação com o parceiro ser percebida como saudável (conjugalidade) diminui em 59% (0,410) as chances de obter um escore compatível com o risco de depressão pós-parto segundo aplicação da EPDS (≥ 12). O tempo de relacionamento, no entanto, não se mostrou significativo, nem vivências anteriores de agressões físicas ou sexuais à puérpera.

Tabela 16 – Aspectos psicossociais e sua relação com a pontuação elevada* na EPDS no pós-parto imediato

Aspectos psicossociais Odds Ratio

Intervalo de confiança (95%)

p-value

Pacientes casadas / amasiadas 0,349 0,139 – 0,875 0,022 **

Tempo de relacionamento 1,462 0,487 – 4,389 0,497 **

Conjugalidade 0,410 0,171 – 0,984 0,043 **

Separação do casal 1,848 0,412 – 8,289 0,417 **

Violência física 3,250 0,755 – 13,987 0,098 **

Violência sexual 3,250 0,755 – 13,987 0,098 **

* EPDS ≥ 12 ** Pearson Chi-Square

Ainda permeando os aspectos psicológicos relacionados à puérpera, foi demonstrado em nosso estudo que algumas percepções subjetivas em relação às suas gestações podem estar relacionadas à pontuação na EPDS no pós-parto imediato, conforme apresentado na tabela 17. Percepções intensas de insegurança (5,2 vezes mais chances), irritabilidade (4,69 vezes mais chances), tristeza (6,11 vezes mais chances) ou sentimentos de solidão (4,35 vezes mais chances) durante

a gravidez foram associados à pontuação elevada na EPDS no pós-parto imediato (≥ 12). Por outro lado, puérperas que se perceberam extremamente alegres durante a gestação mostraram redução de quase 81% (0,193) de chances de apresentar score elevado na EPDS no pós-parto, e com isso, reduzem fortemente suas chances de estarem em um grupo de risco para o desenvolvimento da depressão pós-parto segundo esta escala de rastreamento.

Tabela 17 – Percepção subjetiva acerca da gestação e sua relação com a pontuação elevada* na EPDS no pós-parto imediato

Percepções subjetivas Odds Ratio Intervalo de confiança (95%) p-value Alegria 0,193 0,71 – 0,527 0,001 ** Ânimo 0,788 0,332 – 1,870 0,588 ** Ansiedade 1,935 0,599 – 6,251 0,264 ** Cansaço 3,056 0,838 – 11,138 0,079 ** Dores Físicas 1,212 0,498 – 2,952 0,671 ** Insegurança 5,200 1,979 – 13,666 0,000 ** Irritabilidade 4,696 1,495 – 14,753 0,005 ** Tranquilidade 1,591 0,534 – 4,736 0,401 ** Tristeza 6,111 2,313 – 16,145 0,000 ** Solidão 4,350 1,755 – 10,782 0,001 **

* EPDS ≥ 12 ** Pearson Chi-Square

Por fim, agrupamos na tabela 18 todos os fatores que se mostraram significativos em relação à pontuação da EPDS no pós-parto imediato e, consequentemente, que se mostraram predisponentes ao risco aumentado de desenvolver o transtorno depressivo no período puerperal segundo esta escala de rastreamento. Todos esses fatores encontraram correlação significativa com a pontuação da EPDS no pós-parto imediato; no entanto, percebemos que as correlações mais fortes encontradas (p- value ≤ 0,005) se referem a aspectos de ordem emocional, tais como histórico pessoal de transtornos psiquiátricos e percepções subjetivas acerca das vivências durante a gestação – alegria, insegurança, irritabilidade, tristeza e solidão.

Tabela 18 – Tabela resumo dos aspectos considerados significativos relacionados à pontuação elevada* na EPDS no pós-parto imediato

Aspectos considerados significativos Odds Ratio

Intervalo de confiança (95%)

p-value

Desemprego durante a gestação 3,283 1,038 – 10,381 0,036 ** Presença de TPM física e emocional 2,716 1,128 – 6,54 0,023 **

Parto prematuro 3,571 1,126 – 11,324 0,024 **

Histórico pessoal de transtornos psiquiátricos 4,857 1,901 – 12,408 0,001 **

Pacientes casadas / amigadas 0,349 0,139 – 0,875 0,022 **

Conjugalidade 0,410 0,171 – 0,984 0,043 **

Percepção de alegria na gestação 0,193 0,71 – 0,527 0,001 ** Percepção de insegurança na gestação 5,200 1,979 – 13,666 0,000 ** Percepção de irritabilidade na gestação 4,696 1,495 – 14,753 0,005 ** Percepção de tristeza na gestação 6,111 2,313 – 16,145 0,000 ** Percepção de solidão na gestação 4,350 1,755 – 10,782 0,001**

6 DISCUSSÃO

A existência de uma escala – EPDS – para triagem de risco para DPP possibilita com segurança inferir que uma alta pontuação neste escore corresponderá, com sensibilidade e especificidade maiores que 75%, a uma possibilidade real de desenvolvimento posterior de um quadro de depressão no período puerperal. (Cox et al, 1987; Santos et al, 1999; Hewitt, 2009). A opção por este instrumento baseou- se no fato de ser o mais utilizado mundialmente para esse fim, com sensibilidade e especificidade superiores a outros métodos disponíveis, e também por se tratar de um instrumento de rastreamento da DPP adaptado às contingências relacionadas ao período de internação pós-parto, através da sua simplicidade de aplicação e correção. (Cox et al, 1987; Harris et al, 1989; Santos et al, 1999; Hewitt, 2009)

De fato, a aplicação da EPDS revelou-se de extrema facilidade e rapidez em seu uso, não exigindo mais do que 10 minutos para sua aplicação e correção. Devido à sua simplicidade e clareza de informações, não é necessário um profissional especializado para a sua aplicação. Alguns autores questionam sua adequação por se tratar de um instrumento de auto-aplicação em um país onde a população possui baixo índice educacional; no entanto, excetuando uma paciente que se declarou analfabeta e, neste caso, seguindo orientação dos autores da EPDS, lemos a escala para que ela pudesse preencher, nenhuma outra paciente encontrou qualquer tipo de dificuldade no preenchimento. Uma vez já comprovado o seu valor clínico na finalidade de rastreamento da sintomatologia depressiva, por todos os aspectos acima citados, acreditamos se tratar de um bom instrumento para uso na rotina clínica por profissionais não especializados, o que contribuiria para a identificação de pacientes que possam estar em grupo de risco para o desenvolvimento da DPP. (Cox, 1987; Santos et al, 1999)

O uso da EPDS não se sobrepõe à avaliação clínica, fundamental para a confirmação do diagnóstico de depressão e de outros quadros afetivos puerperais. Um escore elevado nesta escala – igual ou maior que 12 – indica apenas a probabilidade de o paciente estar em um grupo de risco para o desenvolvimento da

Depressão Pós-Parto, devendo este ser encaminhado aos serviços especializados para diagnóstico, acompanhamento e tratamento se necessário.

O momento da aplicação da EPDS também é variável, podendo ser aplicada até doze semanas após o parto; no entanto, optamos por aplicá-la precocemente, com a puérpera ainda no período de internação hospitalar pós-parto, para, desta forma, ser de maior utilidade no perfil de pacientes que raramente retornam às consultas de pós-parto (grupo estudado em nossa pesquisa). Fica uma dúvida a ser esclarecida em outros estudos se assim procedendo, estaremos com a mesma sensibilidade do método descrita em aplicações mais tardias. (Cox, 1987; Santos et al, 1999; Santos et al, 2007) Neste sentido, diversos autores estudaram a aplicação da EPDS nos primeiros dias pós-parto em contraste com a aplicação até a 6ª semana pós-parto e afirmam haver correlação entre os escores obtidos nos primeiros dias pós-parto com os escores obtidos entre a 4ª e 6ª semana pós-parto, indicando assim a sua validade para rastreamento da DPP já nos primeiros dias pós-parto. (Hannah et al, 1992; Yamashita et al, 2000; Teissedre, Chabrol, 2004; Dennis, 2004; Jardri et al, 2006; Abiodun, Adewuya, 2006; Castle, 2008; Ariyasriwatana et al, 2010)

Apesar de atualmente haver diversos estudos acerca da prevalência da DPP, os índices se diferem com muita frequência e a principal explicação dos autores para esta diferença está na natureza do método de avaliação e em critérios diagnósticos diversos. (Payne, 2007; Moraes, 2006; O’Hara, 1996). Cantilino et al (2010) realizaram uma revisão de literatura contendo os dez principais estudos sobre a prevalência da DPP em nosso país, sendo que nenhum deles continha critérios diagnósticos e metodológicos similares, revelando incidências de DPP entre 7,2% e 43%, conforme apresentado na página 27 (Quadro 01).

Em relação aos estudos que empregaram escore da EPDS para predição da DPP exclusivamente nos primeiros dias após o parto, também foram encontradas divergências nos critérios diagnósticos e metodológicos, e consequentemente divergências em relação à prevalência, conforme apresentado no quadro 02.

Quadro 02 – Estudos que relatam o uso da EPDS na 1ª semana pós-parto Autores Cidade Prevalência

(%) No mulheres avaliadas Período de avaliação (pós- parto) Instrumento utilizado Yamashita, Yoshida, 2003

Japão 20% 226 5º dia pós-parto EPDS ≥ 09

Teissedre, Chabrol, 2004.

França 25,5% 1154 2º e 3º dia pós-parto (reaplicação na 4ª a 6ª semana pós-parto)

EPDS ≥ 10

Dennis, 2004 Canadá 29,5% 594 1ª semana pós-parto EPDS ≥ 10 Jardri et al, 2006 França 30% 758 3º ao 5º dia pós-parto EPDS ≥ 09 Abiodun, Adewuya,

2006

Nigéria 20,9% 582 5º dia pós-parto (reaplicaram na 4ª e 8ª semana pós-parto)

EPDS ≥ 09

Mattar et al, 2007 Brasil 18% 133 2º e 3º dia pós-parto EPDS ≥ 10 Gomes et al, 2010 Brasil 24,2% 95 Internação pós-parto EPDS ≥ 13 EPDS: Edinburgh Postnatal Depression Scale

Devido à diversidade de pontos de corte utilizados na literatura, optamos por apresentar nossos resultados estratificados em pontos de corte variados – com recortes nos escores 09, 10, 11, 12 e 13 –, conforme apresentado na tabela 11 (p. 54). Ressaltamos, no entanto, a orientação dos autores da escala original, bem como dos autores responsáveis pela validação da escala brasileira, em utilizar o ponto de corte igual ou superior a 12 pontos no intuito de se considerar a presença de sintomatologia compatível ao transtorno depressivo bem como para encaminhamento para avaliação profissional de saúde mental. (Cox et al, 1987; Santos et al, 1999). Relembramos ainda que o ponto de corte pode variar em diversos estudos de validação da EPDS em todo o mundo, justificado principalmente pela influência social, econômica e cultural de cada país; porém, conforme ressaltam Matthey et al (2006), atualmente há diversos pontos de corte utilizados que não são provenientes de nenhum estudo de validação, levando a efeitos substanciais no diagnóstico e prevalência estimada da DPP.

A frequência apurada neste estudo para escores com pontuação igual ou superior a 12 pontos na EPDS nos primeiros dias após o parto foi 25,5%. Observamos que

este indicador se apresenta bem elevado se comparado a alguns dos reportes literários apresentados.

A comparação entre resultados de diferentes estudos requer cautela, tanto pelas diferenças no rigor metodológico que podem interferir no resultado obtido, como por características socioculturais específicas da população estudada. (Cox, 1987; Santos et al, 2007). Encontramos dois estudos brasileiros (Mattar et al, 2007; Gomes et al, 2010) com desenho similar ao nosso: aplicação da EPDS durante a internação materna, nos primeiros dias após o parto. No entanto, ambos divergem nos critérios de avaliação: Mattar et al (2007) utilizaram como ponto de corte EPDS ≥ 10 e Gomes et al (2010), EPDS ≥ 13. Mattar et al (2007) também divergem nos critérios de inclusão e exclusão de estudo, pois não incluem gravidez múltipla, malformação fetal e/ou puérperas sob acompanhamento psicológico e/ou psiquiátrico. Neste estudo são apresentadas frequências significativamente mais baixas (18% com EPDS ≥ 10, 10,5% com EPDS ≥ 12 e 8,3% com EPDS ≥ 13) que as frequências encontradas por nós (40,9% com EPDS ≥ 10, 25,5% com EPDS ≥ 12 e 21,8% com EPDS ≥ 13) e por Gomes et al (2010) (24,2% com EPDS ≥ 13). Acreditamos que este último critério de exclusão seja o principal fator de diferenciação do achado de prevalência mais baixo neste estudo, pois se tratam de fatores relatados na literatura como possíveis pré-dispositores ao desenvolvimento da DPP, de modo que, se excluídos do estudo, possivelmente a frequência de puérperas com pontuação positiva na aplicação da EPDS diminuiria drasticamente. Inclusive um destes fatores excluídos no estudo de Mattar et al (2007) – a existência de transtornos psicológicos

/ psiquiátricos prévios – foi correlacionado positivamente com o risco aumentado

para o desenvolvimento da DPP (EPDS ≥ 12) em nosso estudo, e será discutido posteriormente.

Em relação à prevalência, há que se ressaltar ainda que a incidência dos transtornos afetivos no puerpério, inclusive da depressão, pode estar na verdade muito acima do que as estatísticas demonstram, não apenas por um grande número de rastreamentos e tratamentos serem realizados sem qualquer registro, mas principalmente por muitas mulheres não revelarem seus sintomas nem mesmo para seus médicos, com receio de uma possível estigmatização. (Susman, 1996; Cox, 2004; Camanho et al, 2006; Mattar et al, 2007)

 

Quanto às variáveis sócio-demográficas, não há consenso na literatura de que haja uma associação consistente com a ocorrência da DPP. Em nossa amostra, critérios como idade, nível educacional, renda familiar, prática religiosa ou a interrupção da

atividade laboral por contingências da gestação não se mostraram significativas,

corroborando outros estudos do gênero. (Tammentie et al, 2002; Boyce, 2003; Teissedre, Chabrol, 2004; Cruz et al, 2005; Mattar et al, 2007; Costa et al, 2007). Embora a maioria dos estudos que envolvem os fatores de risco associados à DPP não mostre relevância estatística entre esses indicadores sócio-demográficos e o desenvolvimento da DPP, percebemos certo ceticismo dos profissionais envolvidos no ciclo gravídico puerperal quanto a esta afirmativa, tanto na prática clínica, quanto na recorrência de estudos que acabam por concluir o mesmo fato.

Em relação à idade, por exemplo, a adolescência sabidamente é caracterizada por um período de vulnerabilidade física, psicológica e social, enquanto que a gravidez por si só representa um momento crítico e de transição no desenvolvimento da estrutura psíquica da mulher, de modo que quando ambas as fases coexistem, é difícil não pensar em uma situação de crise para a mulher. (Maldonado, 1997; Gomes et al, 2010) No entanto, especialistas na adolescência afirmam que este período por si só pode ser tão crítico para a estruturação emocional da menina, com conflitos internos tão intensos próprios da idade que por vezes a percepção e elaboração da gravidez só é realizada em uma etapa às vezes posterior ao próprio parto, o que justificaria a não interferência específica desta no desenvolvimento de um transtorno emocional no puerpério. (Szigethy, Ruiz, 2001; Robertson et al, 2004) Podemos perceber o reflexo desta situação nos estudos que correlacionam a idade aos fatores de risco ao desenvolvimento da DPP: estudos generalistas (Gotlib et al, 1989; Tammentie et al, 2002; Costa et al, 2007, Cantilino, 2009), que abrangem mulheres de várias faixas etárias usualmente apontam correlação negativa entre a faixa etária e a DPP; já os estudos que trabalham com população específica, no caso a adolescência, reportam alta correlação desta com a DPP (Deal, Holt, 1998; Villanueva et al, 2000; Miller, 2002), o que nos faz pensar tratar-se de uma característica específica do grupo – adolescentes –, e não necessariamente em relação ao desenvolvimento da DPP. Reforçando este fato, as principais causas apontadas pelos autores que correlacionam a gravidez na adolescência à DPP

giram em torno da imaturidade afetiva, abandono e separação dos estudos e amigos e frustração nos relacionamentos amorosos – situações que muitas vezes ocorrem algum tempo após o parto e que podem levar sim a um quadro de transtorno afetivo, mas que não está relacionado exclusivamente ao período puerperal. (Szigethy, Ruiz, 2001; Rich-Edwards et al, 2006; Gomes et al, 2010)

As condições de trabalho e renda familiar são muito discutidas na literatura. Em nosso estudo, a renda familiar não se mostrou significativa em relação à pontuação na EPDS; no entanto, este aspecto merece um olhar mais aprofundado, pois o fato