Conforme destacado inicialmente esse trabalho se associa a um projeto fomentado pelo CNPQ que consiste na busca de ampliação e sofisticação de aportes teóricos e metodológicos para o desenvolvimento de pesquisas que investigam as interações entre professores experientes e licenciandos na construção de sequências didáticas para a Educação Básica. Dentro desta proposta nossos objetivos consistiram em desenvolver, de forma compartilhada, uma sequência didática sobre um tema controverso - o ―Estatuto do Embrião‖ -, adequá-la a um público alvo específico, aplicá-la e analisar estes três processos tendo em vista a formação de professores.
Latour (2014) sustenta que, não importa quem você seja, em algum momento de sua vida será convocado a se posicionar sobre uma questão técnico-científica e a exercer sua cidadania. Ele comenta, ainda, sobre o baixo investimento de energia e inteligência por parte da política no que diz respeito a equipar cidadãos com novos procedimentos, instrumentos, dispositivos e ferramentas que possibilitem compreender as controvérsias técnico-científicas de maneira ajustada à situação contemporânea (LATOUR, 2014). Foi neste contexto que nos baseamos para o desenvolvimento desta pesquisa e de nossa sequência didática. Ambos os trabalhos foram desenvolvidos tendo em vista a formação de professores para atuarem no ensino de ciências interessados na formação cidadã dos estudantes da Educação Básica e na atuação destes em disputas técnico-científicas de interesse público.
Segundo Latour (2014), para atuar como um cidadão em termos de ciência e tecnologia é necessário aprender a delinear a disputa, definir os partidos envolvidos, seus compromissos e interesses. Neste sentido, concentramos nossos esforços no desenvolvimento da SD enquanto uma metodologia capaz de tornar as disputas técnico-científicas mais compreensíveis a leigos e aproximar estudantes e leigos de questões nas quais podem e devem opinar.
Em relação à sequência didática enquanto o produto deste mestrado profissional, acreditamos que por meio do caminho que propusemos, pode-se promover um ensino que permita evidenciar quem e quais são os envolvidos na disputa em questão, facilitando a percepção dos grupos e a identificação dos interesses desses grupos. Facilita, ainda, a percepção de partidarismos e dos interesses desses partidos. Dessa maneira, esperamos que possa ser uma ferramenta eficaz no que diz respeito a permitir que as pessoas se informem e pensem sobre as controvérsias abordadas.
Quanto ao processo de elaboração da SD trazemos alguns apontamentos. Devido à indisponibilidade de tempo a fase de criação ocorreu prioritariamente via e-mail. Assim o norteamento dado à sequência ficou a cargo da pesquisadora que trouxe o tom que lhe aprouve dentro da estrutura e dos moldes propostos. Acreditamos que tal fase seria mais dialógica caso tivesse ocorrido de forma presencial.
Já o processo de adequação se deu de forma presencial, entretanto na reunião inicial entre pesquisadores e professora regente foi acordado o envio da SD a ela via e-mail. Desta forma seu primeiro contato com o material se deu de maneira solitária. Como ela se interessou pela SD a fase de adequação nos serviu para acertar pequenas alterações. Talvez, se houvéssemos separado momentos de leitura e análise conjunta do material outros atores teriam emergido durante o processo.
A SD enquanto um objeto sociotécnico possibilitou o surgimento e a união de diversas redes que antes não se conectavam. Acreditamos, assim, que a proposta de elaboração e adequação compartilhada da SD nos propiciou – no contexto desta pesquisa - diminuir a atual distância das pesquisas desenvolvidas nas universidades e as práticas desempenhadas pelos professores em sala de aula (NASCIMENTO, GUIMARÃES e EL-HANI, 2009).
Tendo em vista a proposta do projeto do CNPq conjecturamos que esta nossa experiência possa contribuir no que diz respeito à apresentação do potencial da cartografia de controvérsias como uma metodologia para rastrear temas controversos. Consideramos ainda que, a partir do que foi exposto ao longo desta pesquisa, que o método que desenvolvemos a partir da TAR para análise de dados nos foi útil uma vez que possibilitou a identificação dos atores humanos e não humanos participantes da rede sociomaterial propiciada pela SD e a compreensão do que emergiu ou foi mobilizado em termos de competências, conhecimentos, saberes e aprendizados profissionais pelos envolvidos no processo. A análise nos possibilitou, ainda, acompanhar a performance dos envolvidos elucidando as mediações, as provas de força, as negociações de interesse e as decisões que foram delineados e que estão imbricados na rede.
Devido ao tempo disponível para a condução da pesquisa, infelizmente não analisamos os dados advindos da aplicação da SD que ficarão como questões para serem exploradas em trabalhos futuros. Mas sob a perspectiva de um olhar preliminar acreditamos que esses tragam interessantes discussões uma vez que durante a realização da sequência de atividades percebemos o desenvolvimento da argumentação dos estudantes envolvidos e também o seu interesse em participar de uma proposta metodológica diversificada.
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APÊNDICE - Sequência Didática
Proponentes: Juliana Roberto de Oliveira Ana Carla Cruz Fábio Augusto Rodrigues e Silva
Do Estatuto do Embrião às pesquisas envolvendo células-tronco embrionárias: uma abordagem ator-rede para alunos de Ensino Médio
I. INTRODUÇÃO
A sala de aula pode ser vista como um espaço multicultural em que estão presentes várias formas de ver o mundo e de viver (SEPULVEDA; EL-HANI; 2004). Portanto, o local onde, privilegiadamente, ocorre a formação de conceitos é permeado por discursos, histórias e trajetórias diversas de vida que se cruzam e assim demandam entendimento, uma vez que se pretende educar cidadãos de forma ética e responsável. Diante de tal contexto, a educação científica deve suscitar uma visão de ciência como uma das formas de compreender o mundo e assim contribuir para a apropriação de uma alfabetização multidimensional que promova o desenvolvimento crítico (SESSA, 2009). Entretanto os agentes da sala de aula - professores e alunos - podem apresentar culturas e visões de mundo distintas que podem ser compatíveis e complementares ou completamente distintas entre si dificultando ou até mesmo impossibilitando o diálogo e assim a aprendizagem. Como exemplo cita-se as complexas relações entre formação religiosa e formação científica.
Ciência e religião, por estruturarem-se em fundamentos epistemológicos próprios, são tradições que muitas vezes estão em desacordo sobre as explicações para os fenômenos do mundo natural. Cobern (apud SEPULVEDA e EL-HANI, 2004), por exemplo, afirma que pessoas de formação religiosa podem desenvolver uma visão de mundo compatível com a ciência. Já Mahner e Bunge (1996) asseveram que a educação religiosa precoce pode constituir-se num obstáculo para a educação científica, chegando mesmo a inviabilizá-la.
Considerando-se o exposto apresentamos esta sequência didática como ferramenta para o ensino ético e reflexivo de ciências. O Estatuto do Nascituro (PL nº 478, de 2007) e as pesquisas com células-tronco embrionárias são questões polêmicas que envolvem, além de conceitos científicos e tecnológicos, diversos setores da sociedade desafiando sistemas religiosos, éticos, políticos e culturais tradicionais. Desta maneira é um tema potencial para ser trabalhado em sala de aula sob a perspectiva CTS e da teoria Ator-Rede (TAR). Pensar sobre o embrião e todas as controvérsias que cercam o seu estatuto em nossa sociedade, nos leva a caracterizá-lo como um tema propício para suscitar as seguintes questões: A cultura e a religião interferem na aprendizagem de conteúdos polêmicos relativos ao Estatuto do Embrião? Como se dá esta interferência? Quais as estratégias são utilizadas pelos aprendizes para lidarem com as suas concepções culturais e religiosas? Qual a disponibilidade dos adolescentes para enfrentar o desafio da aprendizagem de temas polêmicos como o assunto em questão?
Pesquisas e proposições com base na TAR têm permitido discutir criticamente diversos fenômenos sociais, ambientais, científicos e tecnológicos de forma holística e sem fronteiras desmistificando o atual discurso que tenta purificar e esconder a hibridização constante em os diferentes elementos da realidade (COUTINHO, MATOS e SILVA, 2014). Para Bruno Latour (um dos proponentes da teoria ator-rede), os modernos, acreditam em categorias ontológicas puras, entretanto a ciência e nem qualquer outra atividade humana não existe de forma isolada do resto da sociedade (COUTINHO; MATOS e SILVA, 2014).
Artefatos biotecnológicos e da bioengenharia são algumas das formas de se perceber e entender claramente o que vem a ser hibridação. Esses elementos colocam em xeque o pensamento essencialista predominante na biologia ao romper as fronteiras tradicionais e dissolver a identidade das formas de vida (MAYR, 2005). Desta forma surge o conceito de bio-objetos: hibridizações que não podem mais ser consideradas de natureza humana, animal, vegetal ou sintética (WEBSTER, 2012). Os bio-objetos são, assim, um entrelaçamento de elementos e atores que não permitem a distinção entre categorias como social e natural. A falta de fronteiras nítidas e essências que possibilitem enquadrá-los faz com que eles sirvam como um dispositivo conceitual ou heurístico (WEBSTER, 2012) favorecendo uma abordagem CTSA no espaço escolar. Os bio-objetos apontam que a ordem natural é biossocial e a ordem social é bionatural (COUTINHO; MATOS e SILVA, 2014).
Sob essa perspectiva o embrião é considerado um bio-objeto que além de criar novas oportunidades clínicas e comerciais apresenta, também, riscos e incertezas que demandam novas formas de governança e de tomadas de decisões éticas e políticas.
Ao propor esta sequência didática pretendemos contribuir com o ensino responsável de ciências, uma vez que um dos objetivos é oportunizar uma alfabetização científica que não implique na perda da identidade cultural dos participantes, mas promova a aprendizagem de teorias e conceitos, mesmo que conflitantes com suas visões de mundo.
Duração: seis aulas.
Público-alvo: Alunos do Ensino Médio.
Materiais:
Folhas de ofício. Quadro negro.
Textos para a aula: ―Identificando a rede‖.
Fotocópias (roteiros de entrevista, das atividades propostas, do PL nº478 de 2007 e das instruções para o Júri Simulado).
Momento 1: Problematizando o assunto
Neste momento inicial objetiva-se levantar noções e conhecimentos prévios dos alunos sobre o Estatuto do Nascituro e preparar espaços para discussões e reflexões acerca das controvérsias relativas ao assunto.
Duração: Três aulas de 50 minutos.
Aula 01: Avaliação diagnóstica.
Metodologia: O professor iniciará com uma breve discussão objetivando levantar o que os alunos
sabem sobre o assunto e conhecimentos relacionados a ele (vide anexo I). Em seguida dividirá a turma em grupos de aproximadamente cinco alunos. Cada grupo receberá uma situação problema para discutir a respeito e responder às questões propostas (vide anexo II para sugestões de situações problema). As situações devem possibilitar e direcionar as discussões nos grupos às seguintes questões: o que é vida? Quando começa a vida? O embrião é um ser humano? Por quê? O embrião fertilizado ―in vitro‖ é um ser humano? Por quê?
Após discussão em grupo e elaboração das respostas solicitadas o professor mediará a discussão em conjunto. Para isso a turma se organizará em um círculo a fim de socializar as questões-problema a eles destinadas e as respostas que elaboraram. Durante as discussões é interessante saber se houve consenso entre os participantes de cada grupo ou se durante o processo de elaboração das respostas houve pessoas com opiniões divergentes.
No momento da socialização das respostas o professor deverá nortear o processo de forma a elucidar o