Por meio de elementos linguísticos expressos no texto verbal, o leitor pode construir tanto a personagem protagonista quanto as personagens secundárias, isso porque no texto verbal há, naturalmente, diferentes técnicas para retratar os atores, não só em termos de características físicas e psicológicas como também em termos de transformações externas e/ou internas que tenham sido causadas por mudanças espaciais ou temporais (NIKOLAJEVA; SCOTT, 2011). Essa obra mostra que, quando o que está em observação são os livros ilustrados, a construção da personagem pode configurar-se de outro modo, pois nesse tipo de livro o ilustrador quase sempre cria as imagens orientado pelo enredo e não pelas personagens, e, por conta disso, as técnicas de composição ganham dimensões específicas. Nesse sentido, entende-se que a descrição externa da personagem pode ser
tanto verbal como visual, e esses dois aspectos podem confirmar ou contradizer um ao outro. Com mais frequência, a descrição externa verbal é omitida nos livros ilustrados, e somente a visual é usada, sendo mais eficiente. Embora algumas qualidades humanas perenes (como ser bravo, inteligente, inocente) sejam difíceis de comunicar visualmente, as poses, os gestos e as expressões faciais dos personagens podem revelar emoções e atitudes, como felicidade, medo e raiva. Duplicar a descrição em palavras pode gerar redundância e diminuir o impacto da caracterização. (NIKOLAJEVA; SCOTT, 2011, p. 113)
Isso que dizer que, quando o objeto de análise é um livro ilustrado, a construção física da personagem pode ficar na dependência muito mais da imagem do que do texto verbal. Em alguns casos, as características externas ficam exclusivamente por conta da imagem. A personagem Geralda, da obra Alvinho e os presentes de Natal, de Ruth Rocha (1999a) – com ilustrações de Cláudio Martins – é um bom exemplo desse tipo de construção30. Por outro lado, sem o texto verbal não se chega, por exemplo, às características psicológicas, o que significa claramente que, no que diz respeito à construção da personagem nessa modalidade literária, a plenitude do sentido está na consideração da inter-relação entre as duas linguagens. E considere-se, ainda o fato de que, com certeza, dentro de uma narrativa a concepção das personagens não se faz de um modo homogêneo.
Segundo Coelho (2000), nos textos destinados a crianças, há, em geral, três tipos de personagens:
Personagem-tipo (cuja construção é bastante simples) – aquela que é facilmente reconhecida pelo leitor. Estes são alguns exemplos desse tipo de personagem: rainhas, príncipes, animais encantados, crianças, lavradores, pastores etc.
Personagem-caráter (cuja construção é complexa) – aquela que representa comportamentos ou padrões morais, sendo suas ações as que revelam o seu caráter. A autora cita D. Quixote como um famoso exemplo desse tipo de personagem.
Personagem-individualidade (cuja construção revela um ser humano ambíguo que não é nem bom nem mau, não é nobre nem vilão, etc.) – aquela que exige um grau maior de reflexão (por parte do leitor) para ser construída.
Fazendo referência aos contos de fada, cujas personagens inspiraram tantos autores brasileiros, Meireles (1984, p. 140) ressalta que muita coisa mudou, no decorrer dos anos, no que se refere às personagens, e até mesmo os heróis conheceram mudanças: afinal, hoje, “que menino quer vencer as tentações para conseguir a sabedoria?”; e “que menina será capaz de amar as feras por piedade, e desencantá-las por amor?”. Ela mesma responde essas indagações dizendo que o herói atual é o tipo que “em lugar de coragem tem atrevimento; em lugar de inteligência, esperteza; em lugar de sabedoria, habilidade...” (p.140).
Obviamente, como propõe Brait (1985, p. 66), é o autor que situa a personagem dentro da especificidade de seu texto, configurando-a por meio da sua sensibilidade e da sua capacidade de enxergar o mundo e pinçar nele a complexidade dos indivíduos que o habitam.
É por conta disso que cada personagem configura um caso particular dentro de uma narrativa. No caso do texto infantil, seguindo-se a proposta de Coelho (2000), a personagem tipo parece ser a mais atuante. Isso fica evidente nos textos aqui analisados, pois neles a presença de crianças, avós e animais atuando como personagens protagonistas ou secundárias é muito comum. Por outro lado, a ambiguidade de caráter também aparece em algumas dessas personagens, o que talvez permita considerar, nesses casos, uma fusão entre a personagem- tipo e a personagem-individualidade. Serve como referência dessa fusão a personagem Alvinho, do livro Alvinho, a apresentadora de TV e o campeão, de Ruth Rocha (1995a, p. 5- 17). Nessa história, o protagonista é qualificado como mentiroso, logo na primeira frase da história:
O Alvinho andava muito mentiroso...
A mãe reclamava, a professora implicava e o pai dele, seu Brigagão, já estava ficando furioso!
[...]
Mas o Alvinho não tomava jeito! Não é que ele fizesse por mal, não. É que acontecia... (p. 5)
Mesmo configurado com esse desvio de caráter, ele surpreende ao decidir devolver um pacote de dinheiro que foi jogado pela janela de um carro:
No que o carro passou junto dele, a moça loira, que estava na frente, jogou alguma coisa pela janela. Era um papel amassado, mas Alvinho, que era muito xereta, correu, pegou o papel e abriu.
E começou a tremer. Dentro do pacote tinha um monte de dinheiro, ele nem sabia quanto era aquilo.
Ele não teve dúvida. Começou a correr atrás do carro, que estava indo devagar, porque logo adiante tinha um sinal que estava fechado.
Alvinho correu e alcançou o carro. [...]
E o rapaz que estava com ela [...] ficou espantado:
– Puxa, mas que menino bacana! Correr atrás da gente pra devolver o dinheiro! Você é um menino muito lega! (p. 15-17)
Compreende-se que a personagem é uma criança que não é nem boa nem má. Alvinho mente, quando lhe convém, muitas vezes por motivos banais, tais como justificar o fato de ter chegado atrasado à aula, ou de ter demorado a voltar para casa, mas, quando se trata de uma situação mais séria, como o fato de ter encontrado um pacote de dinheiro, ele age como uma pessoa de bom caráter, esforçando-se, inclusive, para devolver o bem que não lhe pertence.
O que esse tipo de combinação revela é a complexidade das personagens (especialmente humanas) envolvidas na trama. Talvez por isso seja comum encontrar esse tipo de fusão (personagem-tipo e personagem-individualidade) em muitas das personagens de histórias infantis.
São as histórias ilustradas vividas por esses atores diferentemente caracterizados que entram na análise da próxima seção, na qual será tratada justamente a composição da personagem, especialmente em termos de organização referencial.