Apesar de o panorama mostrado ser desfavorável, estudos recentes mostram-nos um futuro promissor para as línguas moçambicanas. No I Seminário sobre a
Padronização da Ortografia das Línguas Moçambicanas (1989), promovido pelo
NELIMO (Núcleo de Estudo das Línguas Moçambicanas – Universidade Eduardo Mondlane), foram identificadas 20 línguas moçambicanas e destas procedeu-se ao estudo exploratório de 13.
Decorridos 15 anos após a realização deste importante encontro, estudos intermédios, NELIMO (2000), encetam a descrição e propostas para a ortografia e fonética de 17 línguas. Estes factos demonstram que a situação linguística actual de Moçambique, apesar de preocupante, desperta a consciência dos moçambicanos para a necessidade do ensino e preservação das línguas nacionais através da sua descrição completa, a começar pela criação de sistemas ortográficos consensuais e definitivos (tarefas que se configuram hercúleas, se tivermos em linha de conta que as prioridades do país passam também pela erradicação da pobreza, do analfabetismo, das epidemias, e pela estabilização e consolidação da jovem democracia).
Apesar de neste momento a tarefa de reabilitação e renovação do prestígio das línguas nacionais caber aos moçambicanos, o papel desempenhado pela ex-potência colonial na destruição do tecido linguístico moçambicano permanece como o mal maior
de todos. Do mesmo modo, o facto de Portugal não ter ainda definido uma política linguística consistente e ainda hoje não possuir nenhum centro de Linguística Bantu ou uma faculdade que leccione cursos estruturados de idiomas oriundos de Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), agrava a situação. Neste aspecto, as instituições portuguesas, continuam a política do Estado Novo ao não investir na área, mesmo tendo em conta a hegemonia das LB no significativo submundo africano existente nos ghettos em redor das grandes urbes. Este estado de coisas colide com o exemplo dado por países como a Alemanha, a Holanda, a Polónia, a Suécia entre outros que investem nesta área, não obstante o facto de a sua presença em África, como colonizadores, ter sido quase nula. Nos EUA, no Reino Unido e em França, o ensino e a investigação na área da Linguística Bantu é suportada por reconhecidos centros.
Os factores que aqui repetimos: históricos (colonização portuguesa), epidemias, catástrofes naturais, exiguidade de recursos económicos e consequentes reflexos no investimento público na educação bem como a guerra que dilacerou o país durante três décadas deixaram marcas indeléveis nos moçambicanos, na rede linguística e na rede escolar. Apesar de tudo, as instituições moçambicanas e as Organizações Não Governamentais vocacionadas para o estudo e sistematização das LB de Moçambique incrementam as suas acções no terreno. Este esforço já produz frutos, o processo de ensino das línguas nacionais, segundo dados do INDE (Instituto Nacional do Desenvolvimento da Educação), já avança experimentalmente em muitas escolas de diferentes províncias e o discurso oficial incentiva o processo, factos que nos remetem para um futuro que apesar de incerto parece pleno de boas notícias.
Os estudos translinguísticos, numa época cada vez mais globalizada têm uma importância acrescida e representam uma realidade incontornável no conhecimento das línguas em geral e das LB em particular. A expansão colonial, independentemente das consequências nefastas, desempenhou um papel importante no actual desenho político, administrativo e linguístico do continente, de tal ordem que actualmente os estudos translinguísticos que envolvem a comparação das LB entre si ou em contraste com as línguas das antigas potências colonizadoras são em geral objecto de atenção especial nas antigas metrópoles e em África dado o elevado número de falantes que recorre
poder exprimir, facto que provoca cruzamentos e consequências a vários níveis da gramática, bem como pelo facto de nas antigas potências coloniais existir um número crescente de africanos que embora se exprimam na L2, essa língua não coincide em muitos aspectos gramaticais com a norma do país de acolhimento.
O fenómeno da colonização implicou o retalhar artificial dos territórios, sem o devido respeito às especificidades geo e antropolinguísticas dos povos autóctones. Este facto aliado a uma política linguística de diglossia visando a secundarização e mesmo a eliminação das línguas africanas, resultou no enfraquecimento destas relativamente à veiculação da cultura, da ciência e da tecnologia.
Não obstante as políticas dos governos para a normalização da situação, que passa pela introdução das línguas nacionais nos currículos escolares, tal objectivo esbarra frequentemente com impedimentos variados como a insuficiente rede escolar herdada das administrações coloniais, os conflitos bélicos, as dificuldades orçamentais, a exiguidade de africanos qualificados para o ensino das suas próprias línguas, as epidemias, passadas e presentes, que ceifam quadros especializados, entre outros factores.
Deste modo, o panorama das línguas nacionais de Moçambique revela-se idêntico ao do resto de África já que subjaz a todos os países africanos o estigma da colonização. Apesar de o Português se apresentar como a língua oficial do País, o valor percentual dos falantes é baixo; mas será o Português a língua que figurará como o meio incontornável para a aquisição e veiculação do conhecimento científico, não obstante, como referido anteriormente, a língua inglesa se assumir cada vez mais como a principal língua de negócios e até de ensino. As línguas nacionais são, em contrapartida, as mais faladas, quase sempre em ambientes familiares, sem relevante tradição escrita, embora algumas sejam radiodifundidas.
Os diversos estudos sobre o número de falantes da LP em Moçambique são unânimes em considerar a existência de uma percentagem bastante ínfima de falantes do
Português como língua materna. O II Recenseamento da População e Habitação de Moçambique (1997)5 revela que num universo de 12.536.800 de habitantes com idade igual ou superior a 5 anos, apenas 6,5% tem o Português como língua materna, ascendendo a 814.892 indivíduos. De notar que se verifica uma acentuada diferença quando se desagrega o valor global por áreas rurais e urbanas, sendo que nas primeiras essa percentagem se reduz a 2,0%. Assim, a larga maioria de moçambicanos que têm a LP como língua materna reside nas cidades. Seja como for, no inquérito por questionário que aplicámos, o nosso público-alvo é constituído por ambas as partes, os falantes do Xitshwa como língua materna e os falantes do Xitshwa como língua não materna.