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Development of imbibition capillary pressure tool

3. Modelling of capillary pressure curves

3.3 Development of imbibition capillary pressure tool

Por economia política da verdade, Foucault entende os tipos de discursos que as sociedades acolhem,fazem funcionar e circular como verdadeiros. Circulação, obviamente, que depende, também, de regras formais, mecanismos e instâncias concretas e institucionais que permitam distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, sancionando

uns e outros a esse respeito. Uma economia política da verdade diz respeito, ainda, às técnicas e aos procedimentos utilizados e reconhecidos para obter a verdade, tais como a confissão, o inquérito, o interrogatório, a prova, o diagnóstico, a experimentação científica. E, por último, integra o estatuto daqueles que tem o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro na sociedade (FOUCAULT, 1979g, p. 12).

Ao longo da cultura ocidental, a verdade, de diferentes maneiras, inscreve e generaliza efeitos reais e verdadeiros na vida das pessoas, no que elas fazem, pensam e são. Através da verdade, em seu nome, ou melhor, pelo jogo que se estabelece entre o verdadeiro e o falso, saberes, práticas sociais, instituições e formas de sujeito emergem, se impõem e se legitimam como “realidades” e “evidências”.

Entre as características historicamente relevantes da “economia política da verdade” nas sociedades modernas, Foucault elenca cinco - o interessante é que em todas elas o conhecimento e o saber são imprescindíveis de alguma maneira: 1) o filósofo francês destaca que a verdade está centrada na forma do discurso científico e nas instituições que o produzem; 2) a verdade está submetida à constante incitação política e econômica em termos de sua utilidade para os poderes; 3) ela é objeto de difusão e consumo nos e pelos aparelhos de educação e informação; 4) a verdade é produzida e transmitida sob controle de aparelhos políticos, econômicos e educacionais como universidades, escolas, estado, meios de comunicação; e, por último, 5) a verdade é objeto de debate político e de confronto social (FOUCAULT, 1979g, p. 13).

Uma das principais lições de Foucault, com o seu ceticismo filosófico peculiar, em livros como História da Loucura, Vigiar e Punir e A Vontade de Saber, consiste na tese de que muitas das verdades que se atribui e se ata ao sujeito e ao comportamento humano, através de conhecimentos com status científico são, de fato, efeitos de verdade produzidos por práticas históricas e mecanismos estratégicos de poder.

Foucault é particularmente sensível com respeito às relações de poder e práticas sociais que se estabelecem entre os saberes profissionais, técnicos e científicos (psiquiatria, psicologia, medicina, pedagogia, direito, assistência social) e seus usuários nas relações cotidianas. Nelas, o peso da coação dos poderes e a produtividade dos discursos de verdade se fazem sentir materialmente nos corpos e nas condutas.

Por debaixo das teorias, das proposições e enunciados dos discursos, Foucault escava e vasculha, graças a sólidas investigações históricas sobre a formação dos saberes e de seus arquivos de poder, dimensões inadvertidas da existência social e do cotidiano. Ele

revela e traz à tona, toda uma série de conflitos, dominações e violências que os conhecimentos especializados em sua práxis e lida com os indivíduos ocultam nos documentos, relatórios, consultórios, visitas. Para o filósofo, esses saberes e seus especialistas repousam sobre dispositivos de normalização social, eles operam como verdadeiras e polimorfas técnicas políticas de dominação e regulação cuja finalidade consiste em justificar, sob o apelo do científico e da autoridade estatal, normas arbitrárias e práticas de sujeição, controle, classificação e exclusão dos indivíduos e das classes sociais52.

O disciplinamento, a internação, os laudos psiquiátricos, as decisões judiciais, a prisão, a imposição de normas ideológicas de higiene e saúde, os cadastramentos de seguridade social e previdência são todos exemplos de normas e práticas de poder sustentadas e legitimadas por conhecimentos e saberes profissionais, técnicos e científicos com pretensão e poder de verdade. A propalada capilaridade do poder e sua circulação pelos indivíduos, seu postulado de não-propriedade, de não redução ao Estado e ao direito, é impensável sem o recurso a essa concepção normalizadora e política dos saberes.

Sem a produção da verdade, dos efeitos de verdade, estudar o “como” do poder, isto é, o funcionamento dos seus mecanismos concretos, seria, em grande medida, inviável, uma vez que parte significativa dos objetivos dos mecanismos de poder estudados por Foucault consiste na identificação e extração da verdade do sujeito; verdade do seu desejo, do seu sexo, verdade da sua alma, verdade do seu caráter e comportamento, verdade do seu corpo adoecido, verdade do seu espírito perturbado.

Portanto, a concepção foucaultiana de “verdade” é, a um só tempo, construtivista e relacional. A verdade, ou melhor, a produção dos discursos de verdade é analisada sob a ótica das práticas históricas e em função do modo e das condições pelas quais estas práticas, em seus elementos discursivos (saber) e não-discursivos (poder) constituem o sujeito em conformidade e vinculado a determinados discursos de verdade. Discursos de verdade que julgam, condenam, classificam, impõem, obrigam comportamentos, formas de ser e de identidade, ou seja, discursos de verdade que geram efeitos de poder.

52 Ao contrário do que se costuma pensar ou acusar, o tema das classes sociais não é de modo algum ausente

na obra de Foucault. Em Vigiar e Punir, as classes sociais surgem como uma variável central para a “gestão dos ilegalismos”. Em A Vontade de saber, por sua vez, Foucault não descura de analisar as formas de poder- saber particulares pelas quais se empreendeu a sexualização da classe operária e da burguesia; na primeira, uma racionalidade médica-policial e jurídica ao passo que, na segunda, uma racionalidade médica de orientação mais psicanalítica e familiar.

Saber e poder são, novamente, as chaves interpretativas para se compreender a produção da verdade e de seus efeitos e eficácia. Eles formam a grade de análise, e não os princípios gerais da realidade ou da história em nome dos quais poder-se-ia compreender o movimento integral do real; ele precisam antes, e mais modestamente, os elementos e conteúdos históricos precisos e pertinentes a serem isolados analítica e empiricamente na investigação.

Poder-se-ia definir, com efeito, a obra de Foucault como um grande investimento crítico de problematização da familiaridade e evidência das pressuposições culturais e práticas institucionais incorporadas das sociedades modernas. No vocabulário do próprio autor, significa problematizar, em sentido histórico, filosófico e político, os discursos de poder que funcionam e circulam em nossas sociedades, no presente e na experiência cotidiana como verdades generalizadas e evidentes53.

A produção da verdade na cultura e vida moderna assume um papel e uma força avassaladora. De fato, para Foucault, a modernidade é a época histórica por excelência para se estudar as relações entre poder, verdade e sujeito que ele trata de analisar; fornece inclusive uma matriz para estudá-las em domínios variados e em outros períodos da história (FOUCAULT, 1990, p. 12).

Em Foucault, podemos afirmar que a questão fundamental do discurso filosófico moderno, isto é, o problema da subjetividade moderna, o “quem somos nós, modernos?”, é enfrentada em função da problematização da política da verdade de nossas sociedades, das relações entre poder, verdade e sujeito. O autor de Vigiar e Punir coloca essa questão central do Esclarecimento nos seguintes termos: “o que então eu sou, eu que pertenço a esta humanidade, talvez à margem, nesse momento, nesse instante de humanidade que está sujeitado ao poder da verdade em geral e das verdades em particular?” (FOUCAULT, 1990, p. 11-2).

Uma questão filosófica imprescindível, cujo horizonte de resposta somente pode ser trabalhado à luz da história, por meio dos conteúdos históricos que afeiçoam as relações entre poder, verdade e sujeito. Relações, muitas vezes, que ignoramos os conteúdos formadores e mesmo a existência delas e sua arbitrariedade sobre as vidas.

53Novamente, Foucault vincula essa perspectiva que se pergunta pelos efeitos de poder da verdade, em nossas

sociedades, a uma prática histórico-filosófica que continua a fazer do Esclarecimento uma questão central

(FOUCAULT, 1990, p.11). Para maiores detalhes ver: FOUCAULT, Michel. “O que é a crítica?” (Crítica e

Aufklärung). Trad. Gabriela Borges, revisão Wanderson Nascimento, publicada no Bulletin de la Société française de Philosofie, vol. 82, n.2, p 35-63, abril-jun 1990, disponível em Espaço Michel Foucault – www.filoesco.unb.br/foucault.

A esse propósito, Paul Veyne vale-se de uma bela e didática imagem para explicitar o interesse de Foucault pelas evidências e verdades de uma época: “Em cada época, os contemporâneos encontram-se assim fechados em discursos como em aquários falsamente transparentes, ignoram quais são e até que existe um aquário” (VEYNE, 2008b, p. 19).

Esses aquários em que estamos todos encerrados são formados pelos discursos. Eles constroem falsas generalidades e sentidos de evidências que se passam por verdadeiros e que se expressam e constituem aquilo que os homens falam e fazem numa época e formação histórica singular tomando como atos, condutas e pensamentos verdadeiros: “De tal modo que a verdade é reduzida a dizer a verdade, a falar conforme o que se admite ser verdade e que fará sorrir um século mais tarde” (VEYNE, 2008b, p. 19).