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4. Discussion

4.5. Further development

No início da era cristã, Santo Agostinho havia fornecido as linhas básicas do pensamento medieval ao apontar a ânsia por dinheiro e bens materiais, o desejo de poder e o desejo sexual como os principais pecados do homem decaído.72 Neste

contexto, cabe a análise da influência que a natureza decaída do homem e seu desejo natural exercem sobre suas escolhas, dificultando o ato humanitário de encontro a necessidade do outro.

Esta busca, vem embutida do senso de necessidade presente na natureza, antes criada perfeita à imagem e semelhança de um ser divino e também relacional.73 Hoje, afastado da segurança e companhia que antes desfrutava, busca novamente este relacionamento seguro, o qual por ser objeto de sua necessidade, deve ser encontrado e satisfeito, sob pena de sofrimento, ao qual ele chama de solidão.

Compreende-se também que o valor demasiado que uma pessoa passa a dar ao grupo, sua representação e influência, deve-se ao medo de não atender a expectativa do outro ou do meio a que pertence. Pessoas buscam relacionamentos para serem completadas por meio deles. E esta procura natural passa a ser, em muitas circunstâncias, a essência da crise interpessoal de uma pessoa.

72 Dados de pesquisa, http://www.uol.cgi-bin.exe..segurança.pdf. Acesso em: 22 mai 2007.

73 Bíblia SAGRADA, versão revista e atualizada no Brasil, São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil,

Esta crise depende do nível de valor que um indivíduo atribui a outro e a sua representação em sua história de vida pode ser agravada ou diminuída. À medida que esta pessoa, por uma carência relacional passa a atribuir um demasiado valor a certo relacionamento, a possibilidade de sofrimento pela ausência deste relacionamento também deve ser maior. Da mesma forma, ao atribuir menos valor, o sofrimento pela ausência será menor. Seja uma pessoa ou um grupo, a falta dele produzirá tensão e ansiedade pelo valor afetivo e emocional a ele atribuído.

Assim a ansiedade pode ser medida pelo nível de valor que é dado à pessoa ou grupo, e este nível de valor tem seu dimensionamento com base na sua gênese familiar, e especialmente no ambiente onde foram formados seus relacionamentos, onde o seu grau de afetividade e segurança relacional foi desenvolvido. Desta forma, o meio onde alguém está inserido, passa a ser, em certo sentido, um agente direcionador do nível de tensão ou ansiedade desenvolvido em suas relações interpessoais.74

Um produtor de ansiedade advindo do ambiente de interação interpessoal é a decepção. A decepção é resultante do descumprimento da expectativa. Sua via de ação é bidirecional, ou seja, uma pessoa é decepcionada com o meio e o meio, por sua vez, também decepciona a pessoa. Se cria assim um ciclo de decepções e conseqüentemente conflitos e crises interpessoais.

Neste sentido se entende a forma que o individualismo é estabelecido e fortalecido na visão de sobrevivência de alguém. A proteção contra a dor relacional caracterizada por respostas individualistas produzirá maior distanciamento do desejo do outro, abrindo sempre um maior espaço para a satisfação do desejo próprio. Este tipo de resposta será sempre mais previsível, visto que tal insatisfação é a manifestação comum da maioria, seu fortalecimento é estabelecido por esta maioria.

Esta relação, que passa a ser influenciada pelo contexto de convívio, não pergunta a ética qual o julgamento que a mesma tem de suas atitudes. A espiritualidade é ignorada sob a égide de atraso ou ignorância e nas relações predominam os achismos de cada pessoa, atrelados à influência da maioria, o que para muitos, passa a ser a essência da verdade independente do tipo de sentimento que esta influência leva em seu rastro.

O ser humano, como ser social e responsável diante das crises é um ser intra-retro-relacionado, por isso, inter-dependente. Na vida, ele necessita buscar princípios para a sobrevivência, e entre estes princípios está o da cooperação. E qualquer ação que contrarie a essência inter-dependente do ser pode levá-lo à competição, ao individualismo, e a não-cooperação”.75

Passa a existir o fortalecimento da pessoa, indivíduo e não do outro ou do grupo. Diminui-se a essência religiosa, o princípio do ser solidário, e este espaço é ocupado por uma prática individualista mais baseada em necessidades próprias do que coletivas. O desejo ou necessidade do outro é ignorado, sob risco de perda pessoal, o que é um pensamento pouco inteligente, porque se vivemos em um sistema que precisa de cooperação das partes para sobreviver, não há coerência em se acreditar que cooperar significa prejuízo pessoal.

Diante disto, entende-se a razão pela qual, no cenário religioso, cresce a religião do tipo feiticeira, a qual segundo Weber, em contraste com a religião do tipo sacerdotal, dá ênfase a este mundo e age, sendo essencialmente individualista, ao invés de social.76 Se a importância que o outro tem no relacionamento interpessoal fosse considerada com maior respeito, o encontro relacional harmonioso promoveria relacionamentos menos agressivos, menos ansiosos e mais promissores.

75 Leonardo BOFF, Crise: oportunidade de crescimento, p. 15-45.

Não se pode fugir do fato que a natureza dos indivíduos os tem afastado do bem comum, do interesse pelo coletivo, do relacionamento interpessoal abençoador e por ser esta natureza parte de seu interior, tende a impedir qualquer progresso do todo, fazendo da alegria relacional uma utopia.

No movimento socialista se observou bem claramente esta realidade, quando do colapso dos socialismos. Foi observado que se cometeu um equívoco, quanto à assim chamada natureza humana, (afirmação na qual coincidem explicitamente o Papa João Paulo II e Zbigniew Brzezinski), estas duas autoridades eclesiásticas defenderiam que houve um erro antropológico na proposta marxista: a realidade de que os seres humanos não se preocupam apenas com suas necessidades, mas também – e muitíssimo – com seus desejos.77

Para muitos que estudam teologia, a natureza má do homem, ou seu assim chamado pecado original, vem a ser um dos fatores preponderantes para a não assimilação do bem ao outro. Sua ação, na maioria das vezes centrada em seus próprios interesses e sua luta por sobreviver em detrimento de quem está ao seu lado parece ser uma barreira intransponível.

Assim, a natureza humana é um instrumento que leva o homem, de forma inconsciente, a uma busca por uma realização pessoal utópica e por uma satisfação também ilusória de desejos adquiridos, os quais indiretamente produzem desgaste nos seus relacionamentos sociais.

Se o individualismo trouxesse para o ser humano, algum resultado em direção à sua realização pessoal, isto já deveria ter sido percebido e amplamente divulgado e vivenciado. Fica mais do que evidente, que satisfação interpessoal jamais acontece por meio de realizações ego centradas, e o resultado proveniente de tal

atitude leva seu interlocutor sempre ao encontro de respostas contrárias à sua intenção primária.

Este sistema social não só fortalece o individualismo como também escraviza o indivíduo, levando-o a crer numa realização que existirá, caso ele faça parte de sua proposta ou caso ele possua o que ela propõe como objeto de felicidade. Se assim não for, ou se assim não possuir, que seja infeliz! De fato não parece ter havido jamais, nenhuma organização social humana sem alguma forma de abuso de poder, discriminação ou exclusão social.

Adam Smith, pensador escocês do século XVIII considerado o pai da teoria econômica moderna, entendia que: “se uma pessoa busca seu interesse próprio de uma forma intencional, certamente ela mesma irá produzir para si efeito não intencional”.78 Ou, a satisfação ego centrada, jamais acontecerá por resultado interior insaciável ou, o resultado advindo do outro lado sempre será inverso à busca da realização proposta pelo interesse. A mente humana parece ter sido laçada pelo desejo fomentador de suas necessidades, porém, seu projeto de realização é sempre decepcionado pelo resultado de sua busca.

Em, caminhando na direção de um propósito, o indivíduo obtém o interesse contrário. Nesta realidade que faz parte do cotidiano da maior parte das pessoas, as crises e conflitos nos relacionamentos aumentam, dando lugar ao caos relacional em cadeia, o qual está sendo claramente vivido pelas sociedades contemporâneas.

Para Jung este sentimento de satisfação própria provocado pela visão capitalista de mercado leva a uma eventual guerra de interesses. Nesta visão contraditória, passa a existir sim, o crescimento do homem indivíduo, e não do todo

78 Hugo ASSMANN e Jung MO SUNG, Competência e sensibilidade solidária: educar para a

ou grupo. Diminui-se, a essência religiosa, e o princípio do amor ao outro,79 na

realidade é negado por práticas individualistas e destrutivas do coletivo e do social. Os indivíduos perdem o controle sobre o que desejam, são assimiladores do desejo do outro e do que é comum, mesmo que seja algo que essencialmente não necessitem. A realização do desejo individual passa a acontecer conforme a importância do fascínio que o acompanha.80 À medida que isto é vivenciado, o

indivíduo luta para ser parte deste sistema que é demasiadamente egoísta. Esforça- se para adquirir o que é proposto como regra e tenta ficar seguro, garantir sua estabilidade fazendo tudo com o objetivo de conseguir o que tem valor para a maioria, o que, de certa forma, é também buscado por todos.

Isto reflete a convivência antagônica entre relação interpessoal isenta de ansiedade e uma que busca ansiosa pela satisfação do desejo assimilado, elas são opostas e impossíveis de caminharem em harmonia. O ser humano se coloca em uma posição de insustentável realização e contentamento, desde que suas atitudes para satisfazer suas necessidades pessoais trazem resultados contrários a esta mesma busca. Sua tentativa de ter o que o outro tem, como forma de sentir-se bem e seguro, antes, produzirá no outro uma ameaça, pois este, por sua vez, está em busca das mesmas coisas. Tal realização será impossível de alcançar, mesmo que ele próprio não consiga conscientizar-se disso.

A sociedade dominada pelo individualismo reflete o homem em um processo de sedução pós-moderno, “ele sente-se cada dia mais centrado em si mesmo, à medida que lhe é oferecido como complemento, aquilo que ele entende que precisa para sua vida, o que conseqüentemente fará parte de sua identidade”.81

79 A Bíblia SAGRADA, versão revista e atualizada no Brasil, São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil,

Novo Testamento, Mateus 22: 39, p. 29.

80 Guy ROSOLATO, A força do desejo: o âmago da psicanálise, p. 18.

O sentimento poderoso do medo de não possuir, não pertencer ou não ser, parece influenciar a conduta diária na busca de identidade relacional. Ao entender que, em não ter, posso não pertencer, o temor de ficar só, parece levar o ser humano a um isolamento ainda maior, o que não deixa de refletir a separação do outro por uma conduta também individualista. Aristóteles comenta que a sociabilidade essencial ao ser humano “passou a ser subsumida dentro de uma visão relacional sumamente estreita, ou seja, o ser humano precisa de algum tipo de companhia com outro ser humano” para completar sua interação social.82 A necessidade da aprovação do outro e de mostrar a ele a conquista de sua realização social, alimenta o individualismo, transforma desejos em necessidades, reforça o egocentrismo e desencadeia conflitos.