2.1.1. Desenho do Estudo
O estudo de avaliação e comparação de reclusos e civis assistidos em serviços de psiquiatria, foi desenvolvido como um estudo transversal, observacional, descritivo e analítico.
2.1.2. População-alvo
Foi considerada como população-alvo todos os indivíduos assistidos nos serviços seleccionados e nos períodos de tempo determinados. Os Serviços de Psiquiatria Forense, seleccionados por conveniência no Concelho de Oeiras e Cascais foram: o Serviço de Psiquiatria do Hospital Prisional de S. João de Deus (HPSJD), a Consulta de Psiquiatria nos Estabelecimentos Prisionais de Caxias e de Tires (Enfermaria ou Consulta de Psiquiatria).
Os Serviços de Psiquiatria civis foram seleccionados, por conveniência, entre as valências do Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental (DPSM/CHLO).
2.1.3. População estatística ou amostral
Foi seleccionada uma amostra não-probabilística, de tipo incidental, constituída de forma consecutiva por todos os reclusos utentes do Serviço de Psiquiatria do HPSJD, ou das consultas de Psiquiatria no EP Caxias e EP de Tires, num período de 12 meses (entre 1 de Abril de 2009 a 31 de Março de 2010).
A amostra de pacientes civis foi seleccionada entre os utentes assistidos na Unidade de Internamento de Doentes Agudos (UIDA) e na consulta externa da Equipa Comunitária de Lisboa, no período de 1 de Maio a 31 de Julho de 2010. A selecção seguiu um critério de emparelhamento entre sujeitos reclusos e civis, na proporção de um para um.
2.1.4. Critérios de inclusão:
Indivíduos reclusos que recebam acompanhamento psiquiátrico nos Estabelecimentos Prisionais seleccionados.
Consentimento informado e esclarecido do sujeito e consentimento do respectivo psiquiatra assistente para a participação no estudo.
2.1.5. Critérios de exclusão:
Indivíduos sem capacidade para compreenderem os questionários (p. ex. indivíduos com debilidade mental ou demência).
Indivíduos que não forneçam consentimento ou cujo médico considere a participação contraproducente.
2.1.6. Critérios de emparelhamento:
O emparelhamento foi efectuado, sequencialmente, segundo as variáveis de Sexo, Idade, Tipo de Serviço (Internamento ou Ambulatório), e Diagnóstico Clínico.
2.1.7. Dimensões e variáveis em estudo
A investigação, de índole epidemiológica numa população especial, avaliou quatro dimensões, decorrentes dos seus objectivos: dimensão sociodemográfica, clínica, forense e de necessidades de cuidados.
2.1.7.1. Selecção das Variáveis
Dimensão Sociodemográfica: Sexo, Idade, Estado Civil, Nacionalidade, Nível de Escolaridade, Escolaridade Obrigatória, Situação Laboral, Agregado Familiar, Cuidador Informal, Propriedade do Alojamento, Fonte do Rendimento, Região da Residência Habitual, Distância à Residência Habitual, Distância aos Familiares/Amigos.
Dimensão Clínica: Local de Assistência, Motivo de Referência Actual para Psiquiatria, Diagnóstico Clínico, Categoria Diagnóstica (DSM-IV), Risco de Suicídio, Idade de Início da Doença, Duração da Doença, Contacto com Serviços de Psiquiatria ao Longo da Vida, Contacto com Serviços de Psiquiatria no Último Ano, Idade no Primeiro Contacto com Psiquiatria, Idade no Início de Tratamento, Número de Internamentos Psiquiátricos na Prisão, Número de Internamentos Psiquiátricos Civis, Internamento Compulsivo, Tipo de Serviços Psiquiátricos Utilizados ao Longo da Vida, Tipo de Tratamentos Psiquiátricos Efectuados ao Longo da Vida, Medicação Actual, Classe da Medicação Actual, Classe dos Antipsicóticos, Abuso de Substâncias no Mês Anterior, Tipo de Substâncias de Abuso, Tratamento para o Abuso de Substâncias, Consequência do Abuso de Substâncias, Antecedentes de Auto- agressão, Antecedentes de Auto-agressão na Prisão, Antecedentes de Auto-agressão na Vida Civil, Tipo de Meio de Auto-agressão Utilizado, Letalidade do Meio de Auto-agressão, Sequela
da Auto-agressão, Antecedentes Familiares Psiquiátricos, Nível de Incapacidade Psicossocial, Nível de Psicopatologia Global.
Dimensão Forense: Tipo de Detenção, Condenações Anteriores, Condenações Múltiplas, Tipo de Crime Actual, Tipo de Crime Anterior, Antecedentes Familiares Penais.
Dimensão de Necessidades de Cuidados: Número de Necessidades Satisfeitas, Número de Necessidades Não-satisfeitas, Número de Necessidades Totais, Necessidade Não- satisfeita por domínio de Necessidade, Nível de Ajuda Informal, Nível de Ajuda Formal Fornecida, Nível de Ajuda Formal Necessária, Nível de Satisfação do Utente.
2.1.7.2. Operacionalização de variáveis
As variáveis Categoria Diagnóstica, Nível de Incapacidade Psicossocial, Nível de Psicopatologia Global, e o conjunto de variáveis de “Necessidades” e “Ajudas” foram operacionalizadas através das pontuações dos instrumentos MINI 5.0.0, GAF, BPRS e CANFOR/CAN, respectivamente. A sua definição será feita no momento da descrição destes instrumentos (ver Instrumentos de Avaliação) (Quadro 4Quadro 4Quadro 4).
Quadro 4 - Variáveis do estudo operacionalizadas pela pontuação de instrumentos
Variáveis Instrumentos Estrutura Referências Categoria Diagnóstica
(DSM-IV)
MINI 19 Secções – 18 categorias diagnósticas + Risco de Suicídio (4 níveis)
Sheehan et al. (1998);
Amorim (2000); Black et al. (2004)
Nível de Incapacidade Psicossocial
GAF Escala contínua
Pontuação entre 1 (pior) e 100 (melhor)
Hall (1995); Jones, Thornicroft, Coffey e Dunn (1995) Nível de Psicopatologia
Global BPRS 24 Escalas de tipo ordinal de sintomas e sinais psicopatológicos. Pontuação entre 24 (melhor) e 168 (pior)
Overall & Gorham (1962; 1988); Lukoff, Nuechterlein, Ventura (1986);
Ventura, Green, Shaner, Liberman (1993) Necessidades de Cuidados
(Reclusos)
CANFOR-R 25 Domínios; 3 secções Pontuação: Número de Necessidades; Nível de Ajudas e Satisfação
Thomas, Harty, Parrot et al. (2003);
Romeva et al. (2010) Necessidades de Cuidados
(Civis) CAN-R 22 Domínios; 4 secções Pontuação: Número de Necessidades; Nível de Ajudas, Adequação e Satisfação
Phelan et al. (1995); McCrone et al. (2000);
Wennstrom, Sorbom, Wiesel (2004).
Entre as variáveis estudadas (independentes e dependentes) foram seleccionadas três variáveis, designadas “variáveis-resultado”, que traduziam aspectos particularmente nefastos para os reclusos, mas relevantes para os objectivos do estudo, nomeadamente, o Risco de
Formatada: Tipo de letra: Times New Roman, Negrito
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Suicídio, as Condenações Múltiplas e a Necessidade Não-satisfeita no domínio 13. Drogas (CAN/CANFOR). Estas variáveis foram operacionalizadas do seguinte modo:
Risco de Suicídio: operacionalizada segundo a pontuação do Item C - Risco de Suicídio do instrumento-diagnóstico MINI. A pontuação do Item C diferencia quatro níveis de risco: o risco ausente, o risco reduzido, o risco moderado, e o risco elevado. Através da agregação das pontuações “risco ausente”/“risco reduzido” e “risco moderado”/“risco elevado” a variável Risco de Suicídio (RS) foi transformada em variável binária com as categorias: RS Nulo/Reduzido e RS Moderado/Elevado.
Condenações Múltiplas: operacionalizada segundo a contagem do número de Condenações Anteriores no instrumento Questionário. As contagens 0 e 1 originaram a categoria “Condenações Múltiplas Ausente”; as contagens 2 ou superiores originaram a categoria “Condenações Múltiplas Presente”.
Necessidade Não-satisfeita no domínio 13. Drogas: operacionalizada segundo a pontuação da secção 1) do domínio 13. do CANFOR. A pontuação de Necessidade Não-satisfeita originou a categoria “Necessidade Não-satisfeita Presente”; outra pontuação originou a categoria “Necessidade Não-satisfeita Ausente”.
Num primeiro passo, procedeu-se à análise bivariável entre variáveis-resultado e variáveis das dimensões sociodemográfica, clínica e forense. Posteriormente, procedeu-se à análise multivariável entre cada uma das variáveis-resultado e todas as variáveis que revelaram uma associação estatisticamente significativa ou uma tendência estatística significativa (p <=0,20) na análise bivariável.
A operacionalização das restantes variáveis encontra-se descrita no Anexo 2 – Operacionalização das Variáveis.