Nos processos de intervenção para modernização das unidades de produção tradicionais tem sido prática recorrente o distanciamento entre os sujeitos envolvidos. Os artefatos para formação dos profissionais da ciência agropecuária são usualmente reduzidos às técnicas para aumento da produtividade, abstraindo de seus arcabouços teórico-metodológicos a importância de compreensão da questão agrária brasileira e de aspectos culturais dos
sujeitos, objeto da “ação” dos atores do desenvolvimento.
Nesse contexto, torna-se pertinente mencionar duas relevantes contribuições, em meio ao escopo de avaliações feitas por pesquisadores do CIRAD143 sobre as experiências de pesquisa em sistemas de produção que a Embrapa Semiárido realizou nos anos de 1980. Para Tonneau et al (1990, pp.12-13), a intervenção tecnológica em cinco propriedades do semiárido, ainda que tenha se acautelado de uma avaliação econômica do uso de tecnologias, concentrou esforços em pontos reduzidos da unidade produtiva. Dessa forma, a forte intervenção da pesquisa modificou, em substância, os sistemas de produção existentes, sem medir as condições sociais e econômicas da apropriação destas modificações pelos produtores.
Retomando esse fio condutor de avalição, Phillipe Caron (1993), ao confrontar os ineficientes resultados da validação de tecnologias em meio real com os termos propostos pelo projeto de intervenção, chamou atenção para o fato de que
os objetivos e as estratégias dos produtores não aparecem como objetos de pesquisa, nem também a diversidade dos sistemas de produção ou a maneira segundo a qual o projeto do produtor inscreve-se na dinâmica social da comunidade” (CARON et al 1993: 5).
O alerta de Caron (1993) se alinha a uma corrente de pensamento que, a partir dos anos de 1990, vem ganhando expressivas adesões, inclusive, das agências internacionais de desenvolvimento (Banco Mundial, PNUD, BIRD) postulando a ideia de que desenvolvimento e cultura estão intimamente ligados, ou seja, são interdependentes144. Nessa perspectiva, pode-
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a) CIRAD-Centre de Cooperation International de Recherche Agronomique pour le Développement. b) Em 1982, a Embrapa Semiárido e o CIRAD, realizaram, em cinco propriedades de Ouricuri (PE) e municípios circunvizinhos, um experimento para validar o uso de Cisterna, policultor, sorgo, pequena irrigação, etc.,
organizadas em “pacotes tecnológicos”.
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Alinhar os pressupostos do desenvolvimento aos princípios de equidade e de conservação ambiental, constituindo, um novo corpo teórico para humanizar o desenvolvimento tem, no presente, ocupado o pensamento intelectual no mundo e no Brasil (VEIGA, 2001; ABRAMOVAY, 1988, 2000; KUGELMAS, 2007).
se dizer, como mostrou Caron (1993), que escamotear, como passo metodológico da proposta modernizante, a realização de uma “topografia cultural”145 tem sido ponto crítico da concepção e execução de seus programas e projetos.
Análises e conclusões como as apresentadas por Tonneau e Caron, é importante que se frise, raramente são compartilhadas pela “base tecnológica”146 que dá sustentação às inovações na agricultura brasileira. O aparato que materializa, em especial, o repertório mental de sustentação dessa base – instituído para consolidar a modernização da agricultura brasileira – é demarcado por um modus operandi que, em sua maioria, concentra esforços em pontos reduzidos dos sistemas de produção147.
O tecnicismo que organiza os elementos do constructo mental prevalente no campo da ciência agrícola brasileira, ao concentrar como objeto de pesquisa o aumento do conhecimento da biosfera produtiva, restrito ao desenvolvimento de tecnologias para incremento da produtividade, gerou em suas prateleiras um estoque de tecnologias que supera, por exemplo, o dos demais países da América Latina.
A incorporação desse acervo aos sistemas de produção em uso pelos agricultores tem se constituído um grande desafio para a comunidade científica. Quando submetidos às pressões oriundas da sociedade civil, os cientistas, rotineiramente, encontram justificativas na missão que lhes é imposta por seus regimentos. As falhas que se verificam no processo de adoção das tecnologias – pelo menos no que diz respeito aos agricultores familiares – são reputadas a esse segmento, sob a alegativa de que os mesmos apresentam “insuficiente base
pedagócica, resistência à inovação e aversão ao risco”148 .
Ancoradas nas prerrogativas de um modelo que delegou ao cientista agrícola a missão de gerar conhecimentos e tecnologias e à extensão oficial o papel de difundi-las junto aos agricultores149, as duas organizações, diante dos minguados resultados de suas lides
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Um procedimento sistemático capaz de identificar e descobrir os repertórios mentais, os equilíbrios relacionais e das hierarquias de pessoas ou de valores, bem como das práticas e dos interesses econômicos estabelecidos que caracterizem o grupo social ao que se está querendo convencer da operação de desenvolvimento (VASCONCELOS&LUSTOSA DA COSTA, 2004).
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Base tecnológica entendida como conjunto de máquinas, processos, conhecimentos e matérias-primas que sejam complementares e se relacionem estreitamente na atividade produtiva.
147Balizada em parâmetros que a definem como uma agricultura intensiva em capital, a cultura institucionalizada pela ciência agrícola brasileira é, como mostram os estudos de José Eli da Veiga (2005), um dos maiores empecilhos para os objetivos do desenvolvimento sustentável brasileiro.
148 Ver EMBRAPA. I Plano Diretor da Embrapa – Caprinos 1990 -1994.
149Eliseu Alves, figura proeminente na construção de uma institucionalidade capaz de acelerar a modernização da agricultura brasileira, defendia a ideia de que competiria à extensão pública as atividades de difusão de
tecnologia “para os grupos que não assimilaram o progresso”. Aos pesquisadores da Embrapa competia, como previsto no modelo de “inovação induzida”, a geração e adaptação de tecnologias (ALVES, 1989 p. 12).
específicas, defrontam-se em um campo de disputa profissional marcado por troca de farpas que em nada contribui para transformar o cenário indolente.
Nos programas e projetos, teorias de desenvolvimento são revisitadas e submetidas a renovações conceituais. Comissões de avaliação são criadas e recriadas para sentenciar formatos antigos e justificar a entrada em cena de novos aportes teórico- metodológicos que, por sua vez, invocam um reforço nos quadros burocráticos, requerendo a presença de novas especialidades.