Mantendo a mesma rotina interpretativa adotada no primeiro momento de problematização, cheguei à identificação das seguintes representações sobre tecnologia:
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Tecnologia é um recurso•
Tecnologia não é só computador•
Tecnologia está em todo o lugar•
Tecnologia está em constante mudança•
Tecnologia tem poder•
Tecnologia é sedutoraA identificação da representação tecnologia é um recurso revela que a percepção se tornou mais informada à medida que os alunos tiveram acesso aos textos teóricos, participaram das discussões, elaboraram um plano de aula e ministraram uma aula com o auxilio de um recurso tecnológico. O trabalho no semestre ofereceu condições para que os professores em formação se tornassem mais conscientes acerca do papel auxiliar da tecnologia para alcançar objetivos considerados mais amplos e duradouros como a formação de cidadãos críticos. Na primeira ilustração, a seguir, Suely (AM) afirma que a tecnologia é um recurso e, portanto, deve ser usada para atingir um fim. No entanto, o professor deve refletir cuidadosamente sobre o propósito da utilização do recurso para que este não seja somente um auxiliar da atividade docente mas, principalmente, promova a aprendizagem do aluno:
Creio que não há um limite e sim uma reflexão em por que usar esse ou aquele recurso, isto é, o que tal uso auxiliará na prática pedagógica do professor e no aprendizado dos alunos (Suely, AM).
O segundo excerto demonstra que Cleidylaine (AM) concebe a tecnologia como recurso para promover a inserção dos alunos na sociedade, tornando-os críticos, conforme os meus grifos no excerto abaixo:
O professor tem como papel o de incluir o aluno na sociedade, tornando-o um ser crítico, pensante e atuante no meio social. Assim, na sociedade tecnológica, o professor tem o papel de encaixar o aluno nessa sociedade, ou seja integrá-lo nesse meio social. Deste modo e tendo em mente os avanços tecnológicos, o educador deve proporcionar esses recursos aos alunos, possibilitando-os o acesso a computadores, Internet, televisão, rádio e todos os outros recursos que possam melhorar e conseqüentemente, enriquecer uma aula (Cleidylaine, AM) (grifo meu).
É importante ressaltar que a opinião dessa professora em formação revela uma influência dos textos teóricos que foram propostos. Ela tentou, de alguma forma, incorporar o discurso dos textos, tornado sua representação mais informada. Além disso, é possível perceber que ela entende tecnologia como recurso para atingir um fim mais imediato – enriquecer a aula. A conscientização da importância da formação de cidadãos está presente em seu discurso, mas há, também, a preocupação final com a aula, talvez porque ela ainda não tem experiência como docente, e sua vivência está, ainda, restrita à de uma aprendiz.
Na terceira ilustração, uma outra professora em formação, Vivian (BN), demonstra que a experiência de ter elaborado um plano de aula e ministrado uma aula com o auxílio de um recurso tecnológico fê-la ter uma preocupação em conhecer o ambiente escolar e verificar quais recursos estão disponíveis para uso. Mais ainda, demonstrou estar pronta para, no futuro, se necessário, enfrentar situações e ser capaz de fazer escolhas e dar respostas satisfatórias (cf. sugere Pretto, 2001:33) para oferecer aulas mais interessantes que ajudem na formação de um cidadão mais consciente e crítico, conforme o excerto abaixo:
Por meio da experiência realizada, posso considerar-me uma professora atenta a todos os recursos que a escola pode me oferecer, para realizar uma aula interessante e construtora. No caso das limitações da escola nesse sentido,
também posso dizer que estou ciente, preparada e engajada para lidar com esse problema, criando eu mesma novas condições (Vivian, BN).
A ilustração abaixo revela uma representação informada, pois Júlio (CN), ao mencionar que não mais concebe a utilização da tecnologia como uma quebra de rotina, conforme verbalizou várias vezes em sala, confirma que, agora, considera tecnologia como um recurso para promover uma melhoria na aprendizagem, na utilização dos conhecimentos no trabalho e na qualidade de vida:
Quero e sei que com dedicação serei um professor que utiliza tecnologia em suas aulas não apenas para quebrar a rotina, quero que a tecnologia seja algo atrativo aos meus alunos, inserindo-os numa sociedade tecnológica, fazendo com que tal recurso propicie a eles uma melhor condição de estudo, trabalho e vida (Júlio, CN).
Tecnologia não é só computador confirma, como na representação anterior, uma representação informada (calcada em conhecimento teórico). Duas professoras em formação explicitaram tal representação, o que indica que elas não tinham consciência de que há outras tecnologias tais como o giz e o quadro-negro, por exemplo.
Não esqueço, porém que a lousa, o giz e o apagador também são excelentes instrumentos no processo de aprendizagem (Nair, CN).
Sei hoje que usar tecnologia não é somente fazer uso do computador, mas sim de retro-projetores, etc (Vivian, BN).
Tal reconhecimento parece indicar que o processo de letramento digital foi desencadeado (Sampaio e Leite, 2000), porque durante as aulas, a discussão foi iniciada pelo papel das NTI C e caminhou rumo ao papel das tecnologias mais comuns e acessíveis: o giz e o quadro-negro. A discussão gerou reflexões interessantes porque fez com que os professores em formaçãos repensassem
sobre o que é tecnologia, seu papel e, sobretudo, a respeito de ter em mente um objetivo claro ao usá-las (I fa, mimeo).
A identificação da representação tecnologia está em todo lugar evidencia o reconhecimento de que a presença da tecnologia na sociedade justifica o trabalho com o letramento digital. As opiniões de três professoras em formação ilustram tal preocupação:
Quanto ao assunto, pudemos compreender a necessidade de se preparar o educando para a interação com uma sociedade de recursos tecnológicos, que são, freqüentemente, encontrados em seu cotidiano (Tatiane, BN).
É importante que o professor tenha a consciência de que cada dia mais a tecnologia passa a fazer parte das nossas vidas (Jaqueline, BN).
O professor deve sempre estar em busca de cursos e ter humildade para aprender, pois a tecnologia esta em todo lugar (Bernadete, CN).
É fundamental formar cidadãos que saibam utilizar os recursos tecnológicos a que tenham acesso para viver plenamente em uma sociedade em processo de digitalização. Para tanto, é preciso concretizar o trabalho de formação de professores e alunos para utilizarem a tecnologia de forma crítica (Sampaio e Leite, 2000:67). O trabalho de letramento digital pode e deve ser feito em todos os níveis escolares e cabe ao professor, no meu entender, abrir espaço em suas aulas para iniciar a inserção dos alunos. Nessa direção, os excertos abaixo ilustram a preocupação das professoras em formação com a inserção dos seus alunos:
Vimos em sala que a tecnologia está inserida em nossa sociedade e quem não a domina fica excluído (Dayane, AM).
Hoje posso dizer que sei o objetivo de se aproveitar os recursos tecnológicos que a escola oferece, mesmo que sejam restritos: para que os alunos tenham a experiência desde a aprendizagem básica com aparelhos e funções que nos rodeiam no mundo lá fora, para ampliar o conhecimento de mundo do aluno, para que ele tenha um ambiente escolar próximo a realidade a qual se insere, e
mesmo que não seja tão próximo, para que ele tenha oportunidades de conhecer o que há lá fora (Marília, BN).
Tecnologia está em constante mudança é uma representação que evidencia o fato de ela estar sempre em movimento, em constante evolução, porque a todo momento existem recursos tecnológicos novos e novas utilizações para os recursos existentes. I nterpretei, por exemplo, o excerto abaixo, textualizado no último momento de problematização, como uma justificativa para a necessidade do letramento digital com o professor e alunos. Nas palavras de Raquel (AM):
... mas é bom tanto para o professor quanto para o aluno entrar em contato com o mundo tecnológico em que vivemos, pois este avança a cada dia (Raquel, AM).
Assim como no momento inicial, a representação tecnologia tem poder foi identificada, neste último momento de problematização, por duas professoras em formação Marcéli e Ângela. Para Marcéli (BN), o poder exercido pela tecnologia acarreta mudanças no mundo, o que foi interpretado por mim como uma justificativa para trabalho com inclusão e letramento digital; ou seja, formar cidadãos para lidarem com os vários recursos tecnológicos existentes e com as transformações que eles introduzem na sociedade:
Estamos vivendo em um novo milênio, cercados pela presença da tecnologia e pela mudança que ela acarreta no mundo (Marcéli, BN).
Minha interpretação pode ser confirmada com a opinião que ela mesma textualizou no terceiro momento de problematização, sinalizando, assim, que a construção de sua representação, agora informada, iniciou-se provavelmente durante as discussões em sala de aula sobre os textos teóricos. Suas palavras foram:
A partir do momento que nós educadores utilizamos algumas tecnologias na escola estamos tentando aproximar os alunos com a realidade, por essa razão,
acredito que esse seja um dos objetivos de se trabalhar as novas tecnologias dentro da sala de aula.
É importante nunca nos esquecermos que as tecnologias utilizadas em classe devem sempre ter um objetivo que desejamos alcançar por meio destas (Marcéli, BN).
No último momento de problematização, Marcéli (BN) reforça a necessidade de professores trabalharem a formação crítica dos alunos em relação ao papel e ao uso dos recursos tecnológicos porque:
Estamos vivendo em um novo milênio, cercados pela presença da tecnologia e pela mudança que ela acarreta no mundo ... acredito que se não houver alguém que se proponha a desenvolver a capacidade crítica de nossos alunos será muito difícil mudarmos o padrão de ensino de nosso país (Marcéli, BN).
Como Marcéli (BN), Ângela (CN) também salienta que o poder exercido pela tecnologia alcançou e se instalou nos ambientes escolares:
A verdade é que a inovação e a tecnologia chegou em nossas salas de aula para ficar (Ângela, CN).
No entanto, o simples reconhecimento desse poder deve ser entendido como ponto de partida para a formação de cidadãos críticos, conforme textualizou no terceiro momento de problematização. Percebe-se, assim como em Marcéli (BN), que sua representação sobre tecnologia tem fortes ligações com a forma com que os recursos tecnológicos são usados e para que fim. Mostra-se, assim, que sua representação, após leitura e discussão dos textos teóricos, tornou-se mais informada e, portanto, mais crítica. No trecho a seguir, Ângela (CN) confirma o trabalho com essa formação:
... acredito que o uso da tecnologia em sala de aula tem essa finalidade de formar aluno crítico, para alcançar esse objetivo é necessário antes, que o professor use-a na sua aula a fim de conscientizar o aluno de como usá-la com responsabilidade e ética, possibilitando ao aluno a inserção dele na sociedade digital. (Ângela, CN).
Ângela (CN) ainda revelou uma outra representação decorrente dessa:
tecnologia é sedutora. O poder sedutor da tecnologia é evidenciado quando ela afirma “a evolução não está principalmente nas tecnologias – cada vez mais sedutoras – mas em nós mesmos” (Ângela, CN). Percebe-se que ela, provavelmente influenciada pela leitura de Kenski (2001), reconhece o poder da tecnologia de seduzir e o de provocar mudanças. Entretanto, reconhece também que cabe a nós, cidadãos críticos, conhecermos e usarmos criticamente a tecnologia. Mais ainda, tal sedução pode ter se transformada em uma sedução reconhecida como traço característico e distintivo dos novos recursos tecnológicos disponíveis.
Apesar de reconhecer o poder que a tecnologia tem, os professores em formação, nesse último momento de problematização, demonstraram uma maior conscientização acerca do grau de intensidade que nós conferimos a ela, pois quem confere o poder somos nós usuários e seus consumidores, não mais como meros espectadores ou observadores, como no momento inicial, mas como consumidores críticos e participantes (Almeida, 2005) porque iniciaram o processo de letramento digital.
Com o objetivo de oferecer maior clareza ao que foi discutido até agora, apresento o quadro com as representações identificadas no último momento de problematização, bem como o número de ocorrências e algumas ilustrações35 para cada uma delas:
Representações finais sobre tecnologia Número Total De Ocorrên- cias Algumas ilustrações Tecnologia é um recurso
14 Meios tecnológicos devem ser uma ferramenta adicional no processo
de ensino-aprendizagem, e não ser vista como a solução para os problemas encontrados numa sala de aula, que muitas vezes, são associados a falta de didática do professor, o que gera indisciplina (Raquel, AM).
Quanto ao assunto, pudemos compreender a necessidade de se
35Como o objetivo é oferecer um panorama das representações sobre tecnologia no último
momento de problematização, o quadro apresentado contém ilustrações mas não todos os exemplos indicadores de cada representação identificada.
Tecnologia é um recurso
preparar o educando para a interação com uma sociedade de recursos tecnológicos, que são, freqüentemente, encontrados em seu cotidiano, o que faz com que seja fundamental atividades que se desenvolvam no aluno habilidades relacionadas a esses recursos. (Tatiane, BN).
Tecnologia não é só computador
2 Sei hoje que usar tecnologia não é somente fazer uso do computador,
mas sim de retro-projetores, etc. (Vivian, BN). Tecnologia está em
todo lugar
10 Quanto ao assunto, pudemos compreender a necessidade de se
preparar o educando para a interação com uma sociedade de recursos tecnológicos, que são, freqüentemente, encontrados em seu cotidiano (Tatiane, BN).
É importante que o professor tenha a consciência de que cada dia mais a tecnologia passa a fazer parte das nossas vidas (Jaqueline, BN).
O professor deve sempre estar em busca de cursos e ter humildade para aprender, pois a tecnologia esta em todo lugar (Bernadete, CN). Tecnologia está em
constante mudança
3 ... mas é bom tanto para o professor quanto para o aluno entrar em
contato com o mundo tecnológico em que vivemos, pois este avança a cada dia (Raquel, AM).
Acredito que pelo fato de o mundo estar cada vez mais tecnológico e industrializado (Cleidylaine, AM).
Tecnologia tem poder 2 Estamos vivendo em um novo milênio, cercados pela presença da
tecnologia e pela mudança que ela acarreta no mundo. (Marceli, BN). A verdade é que a inovação e a tecnologia chegou em nossas salas de aula para ficar (Ângela, CN).
Tecnologia é sedutora 1 A evolução não está principalmente nas tecnologias – cada vez mais
sedutoras – mas em nós mesmos (Ângela, CN). Quadro 3.6: Representações finais sobre tecnologia
Tendo como finalidade entender o fenômeno que investigo, é possível, pelo que já foi interpretado, ter uma noção, ainda que parcial, de como os participantes que vivenciaram o semestre em foco concebem tecnologia e sua utilização. Para contribuir para uma maior clareza do fenômeno, discuto, a partir de agora, uma das minhas inquietações: entender como os participantes enxergavam a finalidade do uso da tecnologia em sala de aula, explicitada no último momento de problematização.