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4. RESULTS

4.3 Determinants of customer loyalty

O meu saber da língua é folclórico Muitos me argüirão deste pecado" [...] 'belo vale, por que belo vale' este som de leite e veludo. Quis dizer nêspera e não disse (Adélia Prado)

A teoria do discurso de Michel Pêcheux, de base lingüística, vai ser, necessariamente, atravessada pelas questões colocadas pela Psicanálise, principalmente com Jacques Lacan (1966). Um dos princípios básicos da teoria psicanalítica de Lacan é a questão de que “o Inconsciente é estruturado como uma linguagem”. (1966, p. 20).

lingüista J.C. Milner (1987) faz do termo, tomando de empréstimo a Jacques Lacan a distinção entre real/simbólico/imaginário. A realidade empírica em sua positividade não é o real da língua. O concreto com o qual a lingüística trabalha, de natureza negativa (Saussure), é o efeito lingüístico desse real.

Para Lacan, “o dizer é da ordem do não-todo” (1966, p. 73). Isso quer dizer que a língua é constitutivamente lacunar, que as palavras são insuficientes para expressar. Algo semelhante ao que diz a poesia de Adélia Prado (1991, p. 45): “esse som de leite e veludo, quis dizer nêspera e não disse”. Isso quer dizer que as palavras não expressam os pensamentos, os sentimentos, primeiro, porque o Sujeito da Psicanálise é um sujeito cindido, clivado, dividido, atravessado constitutivamente pelo Outro: o Inconsciente. De acordo com Lacan: “o sujeito não sabe o que diz, por uma simples razão: ele não sabe quem é.” (op. cit, p. 74). Daí, a assertiva de Milner (1987, p. 34) de que “o real da língua é o impossível que lhe é próprio”, ou seja, na constituição do dizer há sempre algo que não se pode dizer, que deve ser silenciado, como diz outra poesia de Adélia Prado (1991, p. 56): “a palavra é disfarce de uma coisa surda-muda, foi inventada para ser calada”.

Para explicar a questão do inconsciente Lacan cunha o insólito termo lalangue, traduzido para o português por “alíngua”. De acordo com Ferreira (2000, p. 26):

A alíngua é o real da língua, o inconsciente [...] A existência desse lugar singular – que admite a falta e a torna constitutiva da estrutura – é fundamental para uma concepção de língua afetada pelo real. Tal concepção vai nos permitir perceber no equívoco e nos fatos que ele representa o registro do simbólico que atravessa a língua e a consagra ao que lhe é próprio.

Pêcheux vai trabalhar, pois, com tais postulados lacanianos, criticando os lingüistas que descartavam o estatuto poético, as falhas e o humor como próprios à língua, ironizando-os: “somos lingüistas e lemos os poetas nos dias de Sabbat.”. (GADET e PÊCHEUX, 2004, p. 63). Para os autores, a poesia e o humor não são “o domingo do pensamento”. A falha, o humor, o equívoco, a falta, não são “defeitos” da linguagem, mas uma de suas características primordiais. É justamente nesta característica onde reside a possibilidade da interpretação. Assim, Pêcheux desenvolve uma concepção de língua como uma estrutura, mas uma estrutura permeada, não excepcionalmente, mas de forma constitutiva, inerente a ela própria, de falhas, de equívocos, não como o amolecimento de um núcleo duro “lógico”. Pêcheux considerava, pois, o joke, o humor, os deslizamentos do sentido não como algo extraordinário, mas como constitutivo do “real da língua”. É nesse

sentido que ele concorda com Jakobson, cujo trabalho lingüístico preocupou-se com a dimensão poética da linguagem. Para Pêcheux (1997, b, p. 53), “nada de poesia é estranho à língua [...], a poesia não é o domingo do pensamento.”A discursividade, para ele, seria, pois, efeito da língua sujeita a falhas que se inscreve na história.

Assim, quando coloca a questão do próprio da língua, Pêcheux enfatiza a necessidade de discutir as materialidades discursivas, implicadas em rituais ideológicos, nos discursos filosóficos, em enunciados políticos, nas formas culturais e estéticas, através de suas relações com o cotidiano e o “ordinário do sentido”. Em Pêcheux, o objeto da lingüística (o próprio da língua) aparece, pois, atravessado por uma divisão discursiva entre dois espaços: o da manipulação de significações estabilizadas, normatizadas, por uma “higiene pedagógica do pensamento”, e o da transformação do sentido, escapando a qualquer norma estabelecida a

priori, de um trabalho do sentido sobre o sentido (metáfora), tomados no relançar infinito das

interpretações. (PÊCHEUX, 1997 b, p. 51.)

Concordando, pois, com o filósofo, inserimo-nos entre aqueles que lêem os poetas tanto nos dias de Sabbat como nos demais dias da semana, inclusive os de “feira”, pois consideramos que o discurso poético, a despeito das suas especificidades, está também inserido numa rede de coerções tanto históricas quanto lingüísticas. Para o autor, a dificuldade do estudo das línguas naturais provém do fato de que suas marcas sintáticas são essencialmente capazes de deslocamentos, de transgressões, de reorganizações. “É também a razão pela quais as línguas naturais são capazes de política” (GADET E PÊCHEUX, 2004, p. 24).28

É, pois, nesses espaços intersticiais, nesses pontos de deriva onde trabalha a análise do discurso, como disciplina de descrição/interpretação, visto que tais elementos não são fases sucessivas, mas de uma alternância ou um batimento, no sentido mesmo de sístole/diástole. Isso ocorre porque o próprio da língua é dado, segundo Pêcheux pela “felicidade da simetria e o drama da abertura.” 29

Nesse sentido, as conseqüências teóricas do Inconsciente lacaniano para a teoria do discurso residem, dentre outros aspectos, em duas direções: a) Na questão do Outro constitutivo, o que, somando-se à teoria da ideologia, vai desaguar na concepção de discurso e de sujeito como heteróclitos, cindidos, clivados. Tais postulados terão como conseqüência o primado do interdiscurso, a heterogeneidade constitutiva da linguagem e b) A questão da não-

28 Grifos nossos.

29 Expressão cunhada por J. Milner em A Roman Jakobson ou le Bonheur par la Ssymétrie. In Ordre et

evidência do sentido, a não-transparência da linguagem.30

No entanto, é importante enfatizar que a teoria pecheutiana do discurso é constituída associando ao inconsciente os fatores sócio-histórico-ideológicos. Nessa perspectiva, retomando, também, a afirmação leninista de que “as palavras mudam de sentido segundo as posições sustentadas por aqueles que as empregam”, Pêcheux vai concordar com Jean Claude Milner quanto à “língua no ponto de poesia” e quanto à questão do equívoco como constitutivo e discordar do lingüista à medida que este não considera o real da história, o que vai ser desenvolvido no escopo da AD por meio do materialismo histórico.