“Depuis 1985, l’Année du Brésil en France est,
sans doute, (la saison) la plus populaire.”
(AGNÈS BENAYER – AFAA, 2005)97
O Comissário Geral francês, Jean Gautier, começou o trabalho de divulgação do Ano do Brasil na França no final do ano 2004. A partir de então, os jornais, revistas e televisão francesa passaram à tematização desse assunto com grande atenção, já demonstrando mais interesse pela temporada brasileira do que por temporadas anteriores. Com isso, o Ano do Brasil passou a ser um evento esperado pelos franceses, que tomavam conhecimento sobre os espetáculos e mostras programadas sobre as regiões, cidades e segmentos que se envolviam pouco a pouco com os projetos.
A participação e a cobertura pela mídia impressa, pela televisiva, radiofônica e eletrônica foi de capital importância para o acompanhamento do evento. Durante o ano 2005, essa mídia produziu e colocou em circulação mais de 15 mil materiais nos formatos de notícias, notas, reportagens, citações, boletins, artigos, peças
publicitárias dentre outros; de 40 edições especiais de revistas (semanais, mensais, bimestrais, trimestrais); e de 100 emissões televisivas especiais sobre o Brasil98, fazendo com que a temporada brasileira fosse considerada a mais proveitosa segundo a AFAA, pelo seu sucesso com o público francês, demonstrado pela participação intensa nas atividades, na audiência representada, pelas pesquisas de opinião e cartas ou e-mails recebidos.
Em um trabalho pioneiro, a AFAA decidiu, em 2005, fazer uma coleção que desse conta da cobertura completa feita pela mídia francesa sobre a saison brésilienne. Tal trabalho, executado sob demanda do Comissário Geral Francês Jean Gautier, encontra-se catalogado em 11 tomos de Revue de Presse (Notícia de Imprensa), organizados sob as seguintes rubricas, suportes e gêneros: artigos, citações, anúncios, revistas, propagandas, imprensa audiovisual, imprensa internacional, internet, imprensa nacional, e imprensa regional; subdividindo-se, ainda, em jornais de circulação diária, de circulação semanal, cadernos especiais, publicações quinzenais, mensais, bimestrais, semestrais e anuais. A tentativa da AFAA foi, então, de catalogar todas as notícias sobre o Brasil veiculadas na França durante todo o ano 2005. A título de exemplo, apresentaremos, a seguir, três gráficos ilustrativos dessa coleta realizada pela AFAA:
Gráfico 4 – Notícias publicadas pela AFP (Agence Française de Presse): O Ano do Brasil na França nov./dez. 2004, dez. 2005
Fonte: DADOS DA PESQUISA.
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Para maior facilidade, trataremos os materiais diversos sob a denominação de “documento de informação midiática”.
A partir do gráfico acima, elaborado por nós para o tratamento dos dados coletados, podemos perceber como o Ano do Brasil na França foi fomentado pela mídia francesa a partir de comunicados oficiais (releases), utilizados, mais tarde, para dar corpo aos artigos publicados pela mídia geral. De acordo com os dados, percebe-se que a AFP começou a fomentar o interesse da mídia sobre o Ano do Brasil na França em novembro de 2004, publicando, até o fim daquele ano, três documentos de informação sobre o acontecimento que seria lançado em março. Observa-se um aumento nas publicações de notícias sobre a temporada brasileira à medida que a data de lançamento do evento se aproximava. Dessa forma, se em novembro/dezembro de 2004 e em janeiro de 2005 foram veiculados três documentos de informação midiática respectivamente, já no mês de março, lançamento oficial do Ano do Brasil na França, foram publicados nove notícias sobre o evento, aumentando gradativamente, na medida em que as solenidades principais (14 de julho: o show Viva Brasil, na Praça da Bastilha, bem como a visita do Presidente Lula) aproximavam-se. O ápice foi justamente no mês de julho, quando foram publicadas dezesseis e dezessete notícias sobre a saison brésilienne.
O gráfico ilustra como, em geral, o trabalho da AFP foi importante para criar, entre o público francês, a expectativa quanto à temporada brasileira e seus desdobramentos. A participação do grupo de comunicação da AFAA foi, neste ponto, importante vetor para não deixar que a lassidão tomasse conta do longo período. Ao assegurar a renovação do interesse das mídias em tratar do Brasil, a AFAA garantia uma representação das diferentes facetas do país. A agência garantia, também, o objetivo do Ministro da Cultura do Brasil, Gilberto Gil, de mostrar várias identidades de um país unido “[...] pela língua e pelo ideal (de paz).” (GIL, 2004).
O gráfico a seguir ilustra as notícias semanais publicadas sobre a temporada brasileira e os eventos que ocorriam em Paris e em outras regiões da França. Essas notícias, entretanto, foram retiradas, em sua totalidade, de jornais circulantes na região parisiense.
Gráfico 5 – As notícias semanais sobre o Ano do Brasil na França em cada mês do evento
Fonte: DADOS DA PESQUISA.
O aumento expressivo dos artigos no mês de agosto, em se tratando das notícias semanais, deve-se ao balanço feito pelos jornais sobre a visita oficial do presidente Lula, que ministrou conferência no Colóquio Brasil ator Global, no dia 13 de julho de 2005, na Universidade Paris I - Sorbonne. Lula também participou, como homenageado, das solenidades oficiais do 14 de julho (data de comemoração da fundação republicana), estando presente no palco do Show Viva Brasil na noite anterior na Praça da Bastilha, o desfile oficial no dia 14 de julho, bem como participando no jantar organizado pelo Patronato francês na mesma data, em que ele voltaria a afirmar o papel do Brasil no comércio internacional. Entre julho e agosto, circularam, também, notícias sobre o escândalo do mensalão, mas essas receberam pouca atenção da mídia francesa que, em determinados momentos, comparou-o com a dificuldade enfrentada pelo próprio governo francês naquele período, proveniente de dissensos internos.
O gráfico a seguir apresenta dados da imprensa audiovisual sobre a temporada brasileira. Assim como demonstramos nos Gráficos 1 e 2, percebemos um interesse crescente quanto à saison du Brésil. Mesmo para os organizadores brasileiros, isso era algo ímpar, traduzindo uma demonstração de interesse da mídia, e, principalmente da população, que acessava os sites e deixava sua opinião.
Boa parcela dessa população tornava-se público fiel das emissões televisivas e participava ativamente dos programas de rádio.
Gráfico 6 – O Ano do Brasil na França na imprensa audiovisual – visão geral
Fonte: DADOS DA PESQUISA.
Embora tenhamos utilizado como exemplo a imprensa nacional, o mesmo poderia ser feito com a imprensa regional, uma vez que o trabalho da AFAA se estendeu a ela também. A nossa escolha foi, nesse sentido, voltada para a apresentação de um panorama geral, tendo em vista que a maioria dos artigos publicados pelos jornais parisienses servia, de certa forma, como informação primária para as pesquisas regionais. Por outro lado, não podemos deixar de observar que as localidades se engajaram para tornar o Ano do Brasil um evento único, buscando fatores identitários com os quais elas se aproximavam. Várias são as notícias de reuniões em pequenas localidades engajadas no intercâmbio de pessoas, na recepção de estrangeiros, no ensino de músicas infantis nas escolas primárias, etc. Esse engajamento mostrava-se também na denúncia de antigos estereótipos, como podemos observar no fragmento a seguir:
Fragmento de Informação Midiática 3 – A semana do Brasil denuncia estereótipos
Tradução do Fragmento de Informação Midiática 3 – A semana do Brasil denuncia estereótipos
France-Guyane
19/20 de novembro de 2005 Cotidiano Província
UNIVERSIDADE
A semana do Brasil denuncia os estereótipos.
No ensejo da semana do Brasil, organizada no campus Saint-Denis, os estudantes mostraram por sua dedicação e sua participação no projeto, interesse pela cultura deste país.
O mínimo que podemos dizer é que estes últimos responderam com sua presença ao apelo que lhes foi lançado. Quarta-feira, o debate que versava sobre os “estereótipos da cultura brasileira na Guiana” foi muito bem organizado pelos estudantes do DEUG de português. Observando-se a grande participação dos outros estudantes e a virulência dos intercâmbistas, estes últimos se sentem bastante tocados pelo problema dos estereótipos negativos sobre os brasileiros veiculados na Guiana. Os participantes do debate refletiram sobre a maneira de romper com essas imagens negativas. Para Haci Fanna, professora de português no IESG, sendo ela mesma de origem brasileira, “é de responsabilidade destes estudantes brasileiros que estudam na Guiana mostrar a riqueza cultural de nosso país”. Ao final do debate, os estudantes se declararam todos satisfeitos e pensam que trabalhando assim sobre os estereótipos que estes vão cair. Katiuscia Marques, estudante brasileira inscrita no DEUG de português afirma: “mesmo se o medo dos guianenses com relação ao Brasil existe, notamos que, com relação às outras comunidades, a população brasileira começa a ser cada vez mais bem aceita”. As mentalidades estão assim em plena mutação. L.B.
Fonte: AFFA, 2005.
Como podemos perceber, o debate sobre o Ano do Brasil na França foi além do território da França metropolitana, chegando aos domínios franceses nas Américas. O fragmento acima tem seu valor não apenas por demonstrar a extensão geográfica da publicidade sobre a temporada brasileira, que chegou às fronteiras do Brasil, mas também pela temática abordada que, segundo o Ministro da Cultura Gilberto Gil, inseria-se entre os principais objetivos da temporada brasileira na França: demonstrar que o Brasil era muito mais que os estereótipos circulantes, inventados e reinventados de fora para dentro ao logo das relações do Brasil com os demais países da Sociedade Internacional. Se a tentativa de desconstruir estereótipos e clichês é sempre um trabalho árduo, tendo em vista que, muitas vezes, eles têm suas raízes nas relações identitárias nacionais, os Comissariados do Brasil e da França, para a temporada brasileira, tinham como meta reinterpretá-
los, realçando os traços positivos dos mesmos e desconstruindo aqueles considerados nocivos à imagem do Brasil na França. Como demonstrado na notícia, a melhor forma de fazê-lo, no contexto acadêmico, seria, então, através de debates e do intercâmbio de professores, pesquisadores e alunos, capazes de criar, no exterior, perspectivas mais aproximadas da realidade em contraposição à construção estereotipada da realidade. Passemos, então, a análise de alguns estereótipos brasileiros presentes durante o Ano do Brasil na França.