Capítulo 1: Antecedentes y estado de la cuestión
1.2. Estilos de vida y conductas de salud
1.2.1. Determinantes de salud y determinantes sociales
De modo geral, há consenso entre os estudiosos que este movimento foi motivado pelo crescimento da economia japonesa, especialmente a partir de meados dos anos 1980, quando o país tornou-se um dos líderes da economia mundial graças àmodernização tecnológica de seus parques industriais e a implantação de mecanismos de gestão peculiares.
Em contrapartida, parece importante assinalar também que no mesmo período a economia brasileira, diferentemente da japonesa, encontrava-se em um momento de forte recessão, repleta de dificuldades que consolidaram um estado de desemprego elevado e de baixos salários no país. Fato este, que ajuda a entender a origem e a expressividade do movimento dekassegui. Sasaki (1998) aponta, por exemplo, que, no início da década de 1990, enquanto o salário de um homem dekassegui, trabalhando no setor operacional de uma fábrica qualquer no Japão, poderia chegar até aos US$6 mil mensais, professores em período integral no Brasil não conseguiam ganhar se quer R$400,00.
Em termos de localização geográfica, a maior parte dos brasileiros que migram para o Japão costuma se estabelecer na região central do país, na qual há uma expressiva concentração de indústrias que carecem de uma grande quantidade de mão-de-obra para executar suas atividades. Tal fato é ilustrado na tese de Sasaki (2009), que apresenta um mapa elencando as principais províncias onde o movimento dekassegui se manifesta (Figura 01).
Figura 01 – Principais províncias do Japão com presença brasileira, 2009
Via de regra, há uma concordância na literatura que o maior motivador do aumento deste fluxo foi a promulgação de modificações na legislação que rege as migrações no Japão, mais especificamente, da Lei de Controle sobre a Imigração e Reconhecimento de Refugiados, que passou a permitir a entrada de trabalhadores descendentes de japoneses (nisseis, sanseise seus cônjuges), possibilitando aos mesmos que se empregassem por um determinado período - de seis meses a três anos renováveis - em qualquer ramo de atividade neste país; sempre sob a categoria especial de “residente”, explica Suguiura (2009).
Ao contrário do fluxo de japoneses dirigido para o Brasil, o movimento dekassegui não teve um caráter predominantemente familiar, implicando - para quase todos os indivíduos que optaram em segui-lo - na reorganização da instituição família entre dois países bastante distantes. O que não implica dizer, todavia, que o perfil do dekassegui brasileiro seja homogêneo ao longo da trajetória do movimento. Segundo diversos estudos, pode-se observar que houve mudanças expressivas na composição do mesmo em termos de faixa etária e até de gênero (KAWAMURA, 1995; SASAKI, 1998; HIRANO, 2005; TONGU, 2010).
Entre as várias tentativas de periodização do movimento dekassegui, destaca-se a empreendida por Sasaki (1998), que estratificou a história do movimento em três períodos distintos: pioneiros (meados da década de 1980); massificação (final de 1980 e início dos anos 1990); e, consolidação das redes sociais (a partir de meados da década de 1990).
Segundo a autora, o início do movimento se dá em meados da década de 1980, quando se registram os primeiros migrantes, que, por serem constituídos prioritariamente por japoneses natos ou por descendentes de primeira geração - possuidores de dupla cidadania em muitos casos - não se confrontaram com muitos entraves burocráticos. Como relata a autora, o perfil típico do dekassegui brasileiro era de homens com média de idade entre 40 e 50 anos, pais de família, que dominavam a língua e a cultura japonesa e desejavam permanecer um curto período de tempo no Japão.
Ainda que este movimento assumisse um formato pouco expressivo, já se formaram a partir de então os primeiros nós das redes sociais migratórias, estruturadas segundo Sasaki (1998), não somente pelos candidatos a dekasseguis e suas respectivas famílias, como por outros atores sociais, com destaque para as pequenas empresas japonesas que demandavam mão-de-obra e pelas agências de recrutamento, entre outros.
Em seguida, o movimento passou a ser formado em sua maioria por filhos de migrantes japoneses que migraram isoladamente. E, por fim, ele passou a ser caracterizado por casais que migraram sem os filhos, com idade entre os 18 e 40 anos, cuja intenção de permanecer no Japão costuma ser de apenas três anos, reiterando o caráter temporário que é
embutido a tal movimento (SASAKI, 1998). Foi nesta fase, inclusive, que o movimento dekassegui atingiu o seu auge: de acordo com o Departamento da Imigração do Ministério da Justiça Japonês, existiam em 2003 cerca de 275.000 brasileiros residindo naquele país.
Embora a autora não mencione, convém assinalar, todavia, que, atualmente, o que se observa é o decréscimo da população brasileira residente no Japão; sobretudo desde 2008, em virtude dos desdobramentos malfadados promovidos da crise econômica e financeira internacional. Fase esta, que ainda permanece inexplorada pela literatura referenciada e que demanda pesquisas que a contemplem, pois, a partir de então, o retorno migratório, traço marcante da migração de brasileiros para o Japão, se tornou ainda mais saliente, um fato que naturalmente tem tido diversos impactos para ambos os países e, mais ainda, para os indivíduos que protagonizam este processo.
Longe de ser um “simples” fato demográfico, a estrutura etária destes indivíduos, juntamente com as aspirações que os motivaram a migrar e com outras características, ajudaram a demarcar os contornos do movimento dekassegui, fazendo com que o mesmo se tornasse, quase sempre, sinônimo de problemas sociais. Isto, não bastassem os desdobramentos que a história impôs naturalmente a tais indivíduos, problemáticos em sua essência, como explica Tongu (2010):
Os caminhos percorridos pelos imigrantes japoneses e seus descendentes no Brasil são elementos constitutivos de sua configuração como minoria étnica no Brasil. Por outro lado, ao migrarem para o Japão, percorrendo o sentido inverso de seus antepassados, entram em contato com uma sociedade onde suas características físicas são similares à maioria e, no entanto, são identificados culturalmente como brasileiros, continuando como minoria, portanto (TONGU, 2010. p.62).
Com base emdois anosdetrabalho de campono Brasile no Japão,Tsuda (2003) fez uma etnografiaexaminando as experiênciasétnicastanto dos migrantes brasileiroscomo dos japonesesa partir do avanço do movimento dekassegui. Segundo o autor, embora os migrantes tenham se tornado membrosde umacomunidade transnacional,eles têm reforçadoos seussentimentos nacionalistas, evidenciando uma identidade bastantecontraditória. O que ajuda a entender tantos entraves: saudade da família, problemas com a cultura, discriminação, educação dos filhos e, logicamente, a própria re-emigração pós-retorno, fruto da árdua adaptação à terra natal que os dekasseguis têm vivenciado ao longo de sua história.
3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
“Onde não posso deixar de ser metódico é na dúvida” Casimiro de Brito
Este capítulo presta-se à narração da metodologia da pesquisa, isto é, ao relato do caminho trilhado para se chegar ao objetivo desejado. Para tanto, dividiu-se o mesmo em cinco seções. De início, apresentam-se as características básicas da pesquisa e detalha-se o problema investigado conforme as perguntas que guiaram a recolha das informações. Em seguida, descreve-se a estratégia utilizada para operacionalizar o estudo, apresentando os sujeitos abordados e esmiuçando os procedimentos de coleta, tratamento e análise dos dados. E, por último, relatam-se os limites encontrados no decorrer deste processo.