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6. Recommendations

6.1 Detailed recommendations on grant management systems

Aquele povo, expulso de seu local, vem para uma fresta, entre os muros de duas grandes construções, erguer suas casas. Uma fresta que se transforma na única rua da favela, um espaço delimitado, uma viela que pode de alguma forma conter uma parte da angústia de não ter lugar.

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GONÇALVES FILHO, J. M. Humilhação Social – Um problema Político em Psicologia. In

As casas são construídas grudadas umas às outras, sem segurança, sem janelas e com materiais precários − emendas de madeira são vistas assim como frestas −, muitas vezes feitas como sobrados com escadas quase verticais que levam os habitantes para o andar de cima, oferecem uma experiência particular para quem vive nesses locais. Há barracos de alvenaria, mas são raros. Os cheiros, tanto de esgotos, como de comidas, são partilhados entre todos. Da mesma forma os sons – das falas e dos aparelhos sonoros. A privacidade ganha outros contornos, uma vez que os sons vazam, a visibilidade das casas é grande, seja pelas frestas que são inúmeras, ou as portas quase sempre abertas. Há poucas casas com janelas. Os cômodos são separados por cortinas, e muitas vezes há apenas um grande cômodo no barraco, tendo divisória apenas no banheiro. Pais, filhos e agregados compartilham dos espaços de uma forma específica, sem a privacidade das famílias burguesas, modelo construído em meados do século XIX e seguido até os dias de hoje73. Aliás, nem sempre todos os moradores da casa têm laços familiares: são os laços afetivos que prevalecem nesse co-habitar.

Se pensarmos a casa como representante simbólico do Eu, temos ai uma população muito permeável aos fatores externos. Eu não poderia ser uma invasora como os cheiros, e insetos, mas deveria entrar como convidada, quando elas permitissem. Queria compartilhar dessas histórias para poder recontá-las com elas, somando outros elementos e não roubar-lhes sua história para eu contar. Como uma mãe que não deve ser invasiva nos cuidados com seu bebê, eu também não podia fazer o mesmo, deveria respeitar os limites, mesmo que tênues.

Em alguns barracos vivem várias famílias cada uma em um quarto com a cozinha e o banheiro comuns, algumas vezes fora do barraco. A própria favela vai se infiltrando nela mesma, pelos becos que nela se fazem; prática do surgimento das invasões e favelas, que acontecem nos becos e vielas da cidade. A proximidade oferece uma experiência de segurança para alguns, ―na favela todo mundo se conhece, se ajuda (...) na favela me sinto seguro‖74, diz um jovem morador de uma favela em Belo Horizonte, em uma oficina sobre cidadania. Contudo, a falta de espaço nas próprias casas empurra seus moradores para fora delas. Estas pessoas que foram expulsas do convívio da cidade, têm um convício com seus vizinhos, pois agora têm a viela que vira passarela, lugar de convívio desses povos.

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POSTER, M. Mudanças na Estrutura da Família. In: Poster, M Teoria Crítica da Família, Rio de Janeiro: JZE, 1979.

74ALVARENGA, C. Cadê A Favela? Experimentando Sentidos Inabituais, VI

Encontro

Psicanalítico da Teoria do campos – Meditações Clinicas: Diálogos Possíveis. São Paulo:

As crianças brincam na rua, entre as casas, este é o espaço comum de brincadeira, o espaço social. Ao mesmo tempo, mulheres e homens ficam na frente das casas conversando. E é esse convívio que dá a experiência de confiança, pois ―todos se conhecem‖, como disse o jovem acima. (É claro, que isso não pode ser entendido literalmente, ali mesmo escuto muitas vezes as mulheres perguntando quem é uma criança, ou mesmo outra mulher.) Da mesma forma que as crianças de antigamente faziam, brincavam na rua, tinham seus amigos na rua e os vizinhos estavam sempre juntos, as mulheres ficavam nas portas conversando enquanto tomavam conta das crianças. Hoje essa prática foi levada aos condomínios, as crianças brincam entre si, em um espaço fechado o que dá a experiência de segurança, mas os adultos não convivem tanto, foram se restringindo às suas casas. A segurança das crianças dos condomínios parece estar na delimitação dos espaços – crianças da mesma escola, assim como do mesmo condomínio − e não no conhecimento entre as pessoas, como expressa o jovem.

Muitas vezes as crianças ficam a cargo de outras crianças maiores ou mesmo de mulheres disponíveis no momento. É claro que dentro da favela há as preferências entre eles, nem todos compartilham da amizade de todos, e mesmo morando em uma favela de apenas uma rua, pode-se perceber as divisões de espaço. Na favela do Beco Nove em especial as divisões são consideradas pelas curvas que ela faz. Quem mora em uma entrada quase não tem contato com os moradores da ponta oposta. Muitas vezes, relatam que não vão ‗daquele lado‘, pessoas do início do beco, não têm muita relação com os moradores de perto da ‗praça‘.

Por essa viela espalha-se o comércio, casas, igrejas, e uma pequena ―fábrica‖ de caixas, na qual quase todos os operários são pessoas da própria comunidade, uma pequena praça, espaço de brincadeira das crianças durante o dia e de festas nos finais de semana.

A rotatividade de casas é grande, sempre estão mudando de um barraco para outro. Isso pode ser fruto de uma melhora/piora na condição do proprietário do barraco – o tamanho do barraco ou o material de que é feito, próprio ou alugado e mesmo o valor do aluguel do imóvel são fatores de mudança. Algumas pessoas detêm vários barracos, por isso gozam de maior poder dentro da comunidade.

Essa especificidade provocou uma curiosidade... quem são essas pessoas, como vivem... parecem arredias ao nosso convívio... isso fez com que a instituição fosse conhecer essa população.