Tratamos aqui o texto televisivo, ou programa de televisão, como uma unidade comunicativa complexa, onde intervêm elementos que podem ser analisados em diferentes níveis complementares. Em primeiro lugar, podemos analisar o destinador ou o produtor do texto televisivo, um ente complexo, múltiplo, que manifesta intenções. Também podemos nos dedicar à análise de um texto televisivo proposto através de seus conteúdos, funções comunicativas e linguagens. Por fim, podemos nos concentrar na análise do destinatário, o telespectador a quem a mensagem é dirigida, estudando aspectos psicológicos, sociológicos, perceptivos, culturais, etc..
Nosso conceito de programa de TV, então, traz consigo a idéia de três níveis complementares de análise de um processo comunicativo que são: produção, produto e reconhecimento. É através da análise do produto que buscaremos estabelecer tipologias e aspectos associados à produção e reconhecimento — como as imagens do destinador e destinatário implícitas no texto, o perfil deste destinatário, as intenções e objetivos do destinador, o caráter dos conteúdos propostos ou os contratos que se efetivam no ato comunicativo.
Consideramos que cada tipo discursivo da televisão se constitui como uma unidade de máximo nível de atividade produtiva do meio, um elemento de caráter geral capaz de conter e delimitar critérios comuns, em diferentes textos. Entre muitos critérios a ser
adotados para a análise do discurso, elegemos aquele que se refere ao conceito de tipo discursivo dentro do pensamento de base textual e cognitiva, que o considera como um enfoque discursivo baseado em procedimentos de composição.
Enfocamos o estudo das propriedades que definem um texto, como a coerência e a coesão, na busca da classificação dos tipos de texto, de forma que os discursos se distingam uns dos outros ao mesmo tempo em que evidenciem suas semelhanças por grupo. Nossas classificações se baseiam na combinatória de elementos semióticos a partir de suas bases ou seqüências prototípicas, porque concluímos ser este um dos pontos de referência mais adequados ao estudo das tipologias textuais televisivas.
O grau de relação dos conteúdos do discurso com os referentes extradiscursivos nos dá o sentido de ficção ou não ficção; a função comunicativa predominante eleita pelo produtor nos indica se tratamos de um texto informativo, poético, expressivo, narrativo, argumentativo, etc.. Outras informações surgem através da análise da arquitetura, ou seqüência de estruturação básica do texto, que resolve o emaranhado das partes, além da observação de esquemas de formulação prototípicos. Optamos por nos ocupar com os níveis de classificação que permitem a construção de uma tipologia de discursos televisivos partindo do grau de relação com os referentes.
Quando o programa de TV faz referência a situações únicas e não passíveis de repetição, que pertencem ao cotidiano dos participantes do ato comunicativo, temos a ocorrência da não ficção. A ficção, por outro lado, se revela em programas que reportam situações criadas pelo produtor, autônomas, e por isso sujeitas a controle e modificações. A programação e os programas de televisão não só representam um conjunto de condições e funções produtivas próprias, como evidenciam uma atitude ideológica com relação aos modos de previsibilidade e credibilidade dos conteúdos propostos ao telespectador.
Na busca da catalogação de diferentes textos televisivos, questionamos: de onde vem a informação básica de que dispõe o discurso? Caso remeta a campos de referência externos, o classificamos como discursivo referencial. São os noticiários, documentários, debates, entradas ao vivo de todos os tipos, jogos esportivos, informações sobre bolsa de valores, previsão do tempo ou a publicidade, que tomam elementos da realidade referencial e empírica. Nestes textos, a função primordial é algo que está ou que acontece na realidade imediata dos indivíduos.
publicidade um estatuto próprio, onde as formas discursivas ficcionais e referenciais se combinam. O comentário também cabe à promoção dos produtos e programas de uma cadeia de televisão, à propaganda política, campanhas de bem estar social ou ao merchandising inserido nos programas. A dimensão criativa do discurso publicitário está sujeita às leis do uso persuasivo da linguagem, ou seja, às intenções do produtor e sua habilidade em convencer.
No caso do discurso que se reporta a um campo de referência interno, criando, por exemplo, um universo imaginário, a catalogação inicial o trata como tipo discursivo ficcional: telenovelas, humorísticos, desenhos animados, séries e filmes, entre outros, são considerados aqui. Sem a pretensão de valores de verdade ante o mundo real, o discurso de ficção gera modos narrativos e dramáticos próprios, onde a simulação, o fingimento e a incredulidade formam parte do pacto, do contrato de comunicação estabelecido entre a televisão e o espectador.
Por fim, há os programas que apresentam elementos tanto da realidade referencial quanto da ficção e compõem o que chamamos de referencial misto. Concursos, programas infantis, talk shows, reality shows ou documentários de ficção configuram como discursos televisivos que trabalham no limite entre a ficção e o acesso ao mundo físico atual. A neotelevisão produz, então, um discurso que se constrói na união de componentes referenciais e elementos de ficção. A relação com o espectador se estabelece através de um pacto comunicativo de cumplicidade proposto pelo enunciador ou produtor do programa e aceita pelo enunciatário ou telespectador.