No contexto de acumulação flexível, a presente proposta de pesquisa buscou conhecer como os trabalhadores de uma multinacional do setor supermercadista, instalada no Brasil há pouco mais de 15 (quinze) anos, vivenciam as políticas de gestão do trabalho, e como essas políticas constroem o engajamento desses trabalhadores aos valores e interesses da organização. Para tanto, fez-se necessário conhecer o impacto dessas políticas nas condições de trabalho e na vida pessoal dos mesmos, enfatizando os mecanismos de exploração.
A empresa estudada é uma grande multinacional do setor supermercadista instalada no Brasil desde 1994. A escolha desta rede de supermercados deveu-se ao fato de
sua representatividade no segmento em âmbito mundial e de possuir uma cultura organizacional e modernas políticas de gestão do trabalho bem definidas. Quanto a escolha dos sujeitos da pesquisa, esta foi feita por amostragem por julgamento, que segundo Malhotra (2001), consiste numa forma de amostra não-probabilística, por conveniência, em que os elementos da população são selecionados de acordo com o julgamento do pesquisador, seja por conveniência ou por afinidade de relacionamento.
Foram realizadas entrevistas semi-estruturadas com trabalhadores de unidades no formato super e hipermercado, localizadas nas cidades de João Pessoa/PB (quatro lojas) e Petrolina/PE (duas lojas), da região do nordeste brasileiro. Foram entrevistados gerentes e trabalhadores de áreas diversas, que ainda trabalham ou que já trabalharam na empresa estudada. Os critérios adotados para a escolha das cidades foi pela acessibilidade, pois a cidade de João Pessoa é onde a pesquisadora mora e estuda e a cidade de Petrolina foi escolhida devido ao contato existente com uma ex gerente, que já havia trabalhado em uma dessas unidades de Petrolina e conhecia bem a realidade vivenciada por esses funcionários. Através dessa ex gerente também foi possível o acesso a gerentes e ex funcionários da empresa, que contribuíram para a realização desta pesquisa.
O critério de acessibilidade prevaleceu para escolha dos sujeitos, através do contato com pessoas conhecidas que trabalham ou já trabalharam na empresa, algumas delas já vivenciaram situações críticas na empresa e que, por sua vez, indicaram outras pessoas. No que diz respeito aos trabalhadores e gerentes entrevistados da cidade de João Pessoa, o contato inicial foi por meio de pessoas indicadas pela professora Márcia Costa, as demais entrevistas foram obtidas por meio de pessoas conhecidas que indicaram outras pessoas que trabalham ou já havia trabalhado na empresa estudada. Assim como, foi feito contato direto com duas lojas de João Pessoa por meio de autorização formal, em que foram disponibilizadas 03 (três) pessoas de cada loja para realização da entrevista.
Por fim chegou-se a um total de 18 (dezoito) entrevistados, sendo 10 (dez) gerentes e 08 (oito) trabalhadores operacionais, a exemplo dos operadores de caixa e dos repositores. Dentre os gerentes entrevistados, 2 (dois) não trabalham mais na empresa, sendo, seus depoimentos bastante significativos, pois eles se sentiram mais à vontade quando explanaram sobre as questões mais críticas vivenciadas na organização, pois não mais dependem financeiramente da mesma. A intenção foi apreender como esses dois grupos de sujeitos, posicionados diferenciadamente na estrutura hierárquica, vivenciam as políticas de gestão de pessoas da empresa e como essas políticas conseguem capturar sua subjetividade.
De maneira a resguardar a confidencialidade dos entrevistados, foi assegurado o sigilo na sua identificação. Nesse sentido, as falas dos entrevistados são identificadas por meio de uma codificação. A codificação foi feita de acordo com o cargo do funcionário, de forma que, para os cargos de gerência foi utilizada a letra G e para os demais cargos foi utilizada a letra S. Quanto às falas, cada uma foi identificada com uma numeração, seguindo a ordem das respostas dos respondentes. Os quadros 04 e 05 identificam os gerentes e demais trabalhadores entrevistados:
Quadro 4: Código de identificação dos discursos dos gerentes entrevistados Identificação
Tempo de Empresa Trajetória na empresa
Código Cargo
G1 Ex Gerente 1984-2012 – 28 anos Auxiliar de atendimento- gerente de loja plênio – atua hoje como dirigente sindical
G2 Ex Gerente 1999-2006 (7 anos) Embalador - operador de caixa - auxiliar e encarregado de frente de loja - encarregado setor de horti - chefe de perecíveis
G3 Gerente 1999-2012 (12 anos) Repositor – pesquisador – encarregado de inventário G4 Gerente 1986-2012 (26 anos) Recepcionista, auxiliar administrativo, Atendimento ao
cliente, líder de atendimento, Encarregada de frente de caixa, Gerente de atendimento, Gerente de operações. G5 Gerente 1999-2012 (12 anos) Operadora de caixa, recepcionista de CAC, auxiliar de
atendimento, Encarregada de capital humano
G6 Gerente 1997-2012 (14 anos) Operadora de caixa (part time 6 meses), Operadora de caixa (full time 6 meses), recepcionista de centro de atendimento ao cliente; telefonista, locutora, secretária da loja, secretária do gerente geral da loja, encarregada de capital humano
G7 Gerente 2002-2011 (9 anos) Embaladora (01 ano), Operadora de caixa (04 anos), Atendente de cliente, Traineer. Hoje é encarregada por quatro departamentos
G8 Gerente 2000-2012 (12 anos) Operador de sessão (02 anos),
G9 Gerente 1998-2010 (12 anos) Auxiliar de patrimônio (08 meses), trainee (01 ano e seis meses), Gerente de setor (06 ano), Gerente geral (04 anos)
G10 Gerente 1999-2012 (13 anos) Auxiliar de segurança (01 ano), Gerente patrimonial (08 anos), Gerente de mercearia (02 anos), Gerente de atendimento (01 ano), Gerente área administrativa (01 ano). Atualmente é responsável por atendimento, entrega e auditoria.
Fonte: Elaboração própria, 2012.
Quadro 5: Código de identificação dos discursos dos subordinados entrevistados Identificação
Tempo de Empresa Trajetória na empresa
Código Cargo
S1 Auxiliar de atendimento
1995-2012 (17 anos) Operadora de caixa (6 anos) – auxiliar de atendimento S2 Operadora de
Caixa
2010-2012 (2 anos) Operadora de caixa (temporário), Operadora de caixa (tempo integral-efetiva desde maio de 2011)
S3 Fiscal de caixa 1997-2012 (15 anos) Segurança (3 meses), auxiliar administrativo (7 anos), Fiscal de caixa
S4 Repositora 1999-2010 (11 anos) Operadora de caixa (4 anos), Repositora de bazar, Repositora de Soft (backup da encarregada)
S5 Auxiliar administrativa
2000-2012 (12 anos) Operadora de caixa (8 meses), auxiliar de caixa geral (onze anos), SOS Cherick (há um mês)
S6 Operador de caixa
1999 – 2012 (13 anos) – da Fundac
Repositor, Auxiliar de Serviços Gerais, Operador de caixa, atua também como dirigente sindical
S7 Auxiliar de atendimento
1999-2012 (13 anos) Operadora de Caixa – Auxiliar de atendimento S8 Supervisor ex-funcionário Operador de caixa – Supervisor área de frios Fonte: Elaboração própria, 2012.
Ademais das conversas agendadas informalmente com os entrevistados, também foi solicitada a autorização formal para realização de entrevista em duas unidades localizadas na cidade de João Pessoa. Apesar de ter obtido êxito em relação à autorização formal para a realização das entrevistas com 03 (três) gerentes, sendo elas a G4, G5 e G6 e 03 (três) operadoras, que foram S3, S4 e S5, houve algumas restrições que limitaram uma coleta mais fidedigna das informações relativamente aos objetivos propostos. Primeiro, porque, por razão de a empresa considerar certas informações confidenciais, tivemos que reduzir a quantidade de temas abordados. Segundo, porque essas entrevistas específicas foram realizadas com pessoas determinadas pela empresa e no próprio ambiente de trabalho, durante o expediente, sendo este um entrave, pois as pessoas tinham o receio de falar algo que fosse contrário aos interesses da empresa. Foi possível perceber que as pessoas tinham sido orientadas a não transmitir certas informações que pudessem comprometer a empresa ou que remetessem a questões críticas. Ainda assim, pudemos contar com valiosas informações fornecidas gentilmente pelos gerentes.
Essa limitação foi, no entanto, de alguma forma contornada pelo acesso mais livre aos trabalhadores pela via dos contatos pessoais e das indicações de um representante sindical, de forma que conseguimos realizar algumas entrevistas em horário marcado, fora do expediente e das instalações da empresa, contando, por isso, com mais confiança e espontaneidade dos trabalhadores, que falaram mais à vontade sobre seus sentimentos e percepções. Muitas entrevistas foram feitas fora da empresa, no tempo de folga dos trabalhadores, a exemplo de uma das entrevistas realizada em um dia de domingo. Tivemos, também, a felicidade de contar com ex-trabalhadores. Com eles, sentimos muito mais abertura e confiança nas entrevistas e suas falas foram significativas para a captação das inúmeras contradições das políticas de gestão de pessoas da companhia.