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5.2.1. Destaques de Capa

O Público apenas faz referência à selecção portuguesa nos dias em que esta disputa jogos e nos dias seguintes, fazendo como que um resumo desse jogo. É também notória a tendência para destacar as outras selecções do Grupo G, onde Portugal estava incluído, abrangendo-as também nos destaques de capa.

Relativamente aos dois primeiros jogos (Costa do Marfim e Coreia do Norte), é evidente a questão da defesa da pátria, da importância de ganhar um jogo de futebol, de dar a conhecer ao mundo as potencialidades de Portugal:

“Portugal tem hoje jogo crucial frente à equipa de Drogba e Brasil estreia-se com Coreia do Norte” - Destaque dia 15

“Um jogo para desfazer as dúvidas - Selecção joga hoje com a Coreia do Norte. Brasil bate Costa do Marfim (3-1), mas perde Kaká para o jogo com Portugal.” - Destaque dia

21.

É necessário ter em conta o desfecho dos acontecimentos, para poder então entender estes dois títulos. A questão do “jogo crucial”, prende-se com a questão da defesa da nação, como já referimos, mas também por ser o primeiro jogo. Uma vitória levanta a moral, embala para uma competição sem falhas. Com o desfecho deste jogo, empatado a zero, o Público apresenta o seu discurso com um tom negativo, indicando que “Faltou-lhes coragem para

mais - selecção nacional estreia-se com exibição pálida e empata frente à Costa do Marfim”.

Ora, este destaque vai de encontro ao que foi definido como nacionalismo negativo, que João Nuno Coelho chamou a atenção, indicando que quando os resultados são negativos, também o discurso produzido sobre a selecção o será.

Com o decorrer do Mundial, chega o dia do segundo jogo da selecção portuguesa, por isso mesmo “um jogo para desfazer as dúvidas”. Ou seja, mais uma vez é a imagem de

Portugal que está em jog, sendo assim necessário um bom empenho futebolístico. O resultado foi claramente diferente do primeiro jogo. Os sete golos que Portugal marcou no seu segundo jogo contra a Coreia do Norte, mereceram destaque do Público:

“Goleada no Mundial - Portugal atómico derreteu a Coreia do Norte”

Aqui, já se nota o contrário do último destaque. E vai também de encontro ao nacionalismo positivo: bons resultados, bons adjectivos, boas acções. Um tom positivo, que, como verificamos no gráfico X, mereceu destaque também nas páginas interiores do jornal. Com o resultado obtido frente a Coreia, a selecção portuguesa abria uma porta para a fase seguinte. Faltava apenas o jogo com o Brasil, mas com o apuramento para os oitavos de final quase certo, já não há aquela obrigatoriedade de ganhar o jogo. Havia, no entanto, uma preocupação: a posição na fase de grupos, que iria ditar os próximos adversários, tanto de Portugal como do Brasil. A esse propósito escreve o Público:

“Portugal e Brasil jogam hoje - o bom resultado é fugir à Espanha.”

Á semelhança do jogo inaugural de Portugal, também este duelo “entre irmãos”, como foi intitulado, se ficou por um resultado a zero. Por isso mesmo, o destaque de capa apresenta-se com um tom mais negativo:

Jogo sem salero leva-nos à Espanha - portugueses e brasileiros não arriscaram em jogo marcado por muitos cartões. Espanha qualifica-se e joga com Portugal na terça-feira.

Chega o dia do esperado jogo contra dos oitavos-de-final: “Só o melhor Portugal

ganha à Espanha”, escreve o Público. Este destaque pode ser considerado como um misto

nacionalista: é positivo no sentido em que existe esperança, existe um “Portugal melhor” que tem possibilidades de vencer Espanha; por outro lado, a posição de país pequeno é notória: Espanha é campeã europeia, era um jogo difícil. E de facto, não foi o “melhor Portugal” que jogou, pelo menos a adivinhar pelo resultado. O primeiro golo sofrido pela selecção

portuguesa no Campeonato do Mundo ditou o fim do campeonato.

“O que fizemos nós para merecer isto?”

A emotividade deste destaque mostra a importância do futebol para a repercussão da imagem social portuguesa. Ao mesmo tempo, mostra um pouco da essência do português, a questão do fado e da sorte, presente nas decisões e na história portuguesa. Por outro lado, a metonímia da nação: nós, são todos os portugueses, não apenas a selecção. Ou seja, fica

patente a ideia de união: foram todos os portugueses que se despediram da África do Sul e do Mundial de 2010, fomos todos nós que perdemos contra a Espanha.

5.2.2. Antetítulos, títulos e superleads

A nível das entradas dos textos do Público, podemos dizer que o se destaca mais é a questão da defesa da nação, a importância da boa prestação em campo, quase sempre aliada a metáforas de guerra. Isto denota a consideração do futebol como alta representação da nação, espelhando o seu desempenho em campo para o estatuto nacional. Ainda mais, sendo a parte de destaque de uma notícia, quer pelo tamanho da letra, quer por ser o que mais atenção desperta, tendo por isso, o índice de maior leitura.

No que concerne a este jornal, é bastante interessante verificar que existe um certo equilíbrio entre os bons actos e os maus actos. Das 35 notícias analisadas do Público, 21 contém uma expressão que incite a defesa da nação, a obrigatoriedade de uma boa representação (60%), sendo que doze são positivas e nove negativas.

Nos dias antes dos jogos da selecção nacional, as entradas dos textos do Público dividem-se entre o louvor e a crítica, entre a exaltação e o julgamento: as notícias apresentam tanto a ideia de que a selecção é grande, capaz, como nas páginas seguintes afirmam que vai ser um jogo difícil, que é necessário enfrentar demasiados obstáculos. Por exemplo, a nível do primeiro jogo contra a Costa do Marfim, o Público escreve, para o lado positivo: Portugal

entra amanhã em acção no torneio (dia 14, página 27), como que exaltando a prestação dos

jogadores e da selecção, mas sempre indicando que existe uma possibilidade de chegar longe. O “entrar em acção” pressupõe uma coisa boa, denota confiança, crença e fé na equipa.

Por sua vez, acerca do mesmo jogo escrevem: Selecção inicial Mundial frente ao rival

directo (dia 15, página 2) ou Adversário de Portugal é dos melhores africanos (dia 15, página

5). Ou seja, ao mesmo tempo que levantam a moral, também lhe colocam uma certa fasquia, indicando que nem tudo é fácil.

O jogo contra a Costa do Marfim tem a peculiaridade de ter sido o que mais críticas recebeu: era feita a exaltação da selecção portuguesa, depositando uma confiança na vitória (como iremos verificar depois a nível das expressões contidas no texto), assumindo a

importância de “começar bem uma participação no mundial”. No dia seguinte ao jogo de estreia da selecção nacional escreve o Público: Selecção sem arte para derrotar a equipa

africana, alimentou a tendência dos empates neste Mundial (dia 16, página 2), levando-nos a

ver a selecção como mediana, igual aos outros, sem capacidade de se destacar ou brilhar, uma selecção “sem arte”, como referem. Até a nível dos jogos seguintes se notava a

amargura que este jogo deixará: Selecção tenta minimizar estragos após jogo com a Costa do

Marfim (dia 17, página 36).

Referiam-se já ao segundo jogo da fase de grupos que, pelo resultado alcançado foi a notícia com maior índice de positivismo. Se antes este jogo era noticiado como “jogo crucial

contra a Coreia do Norte”(dia 21, página 27), pois “Portugal terá pela frente um adversário tenaz - Coreanos correm muito, defendem bem e têm mau guarda-redes”(dia 18, página 37),

o seu resultado fez com que o Público considera-se que “Norte Coreanos assustaram na

primeira parte e foram destroçados na segunda. Portugal obtém maior goleada de sempre e está quase nos „oitavos” (dia 22, página 2). A confiança estava restaurada e mais forte: não

foi apenas uma vitória, foi a vitória, devido ao resultado alcançado: 7-0

Com o avançar da prova, é notória sempre a preocupação com as outras equipas, sempre com um olho no futuro, adivinhando o futuro português. O último jogo da fase de grupos tinha como adversário o Brasil, um jogo que para o Público, mais uma vez, balança entre o positivo e o negativo, entre a capacidade portuguesa e o seu fatalismo. As caras das notícias mostram-nos isso: “Selecção define hoje em que posição ficará no Grupo G - Portugal

com o objectivo e ganhar e a prioridade de não perder” (dia 25, página4), mostram-nos o

levantar da moral, apresentando um certo pleonasmo entre o ganhar e não perder. Para que o objectivo português fosse cumprido, seriam necessárias algumas armas: “Carlos Queiroz não faz poupanças frente ao Brasil e dar-se-á como satisfeito com empate,

embora o primeiro lugar, em teoria, ofereça caminho menos difícil - a ideia é evitar a Espanha nos „oitavos‟”(dia 25, página 4). Este título já se apresenta um pouco mais negativo.

Existe a clara preocupação com os “colossais brasileiros”, ao ponto de não se poderem fazer poupanças, encarando um empate já como uma vitória. Mostra o negativismo e a descrença frente à selecção portuguesa, completada pela ideia do medo à Espanha, (a ideia é evitá-los), e o facto de as outras equipas serem um “caminho menos difícil”, ou seja, nunca fácil. O empate visto já como uma vitória fez-se adivinhar, e pela grandiosidade brasileira, este jogo foi anunciado com um certo positivismo: “Selecção nos oitavos sem sofrer golos e com

instinto goleador - defesa portuguesa resiste ao Brasil e agora enfrenta ataque espanhol”

(dia 26, página 2). Dois factos se fazem realçar neste título: o instinto goleador, mostrando uma certa superioridade e a utilização dos verbos resistir e enfrentar. Ambos conotam força, a capacidade de enfrentar os medos e encará-los de cabeça erguida, sem medo. Mas nem tudo são rosas: “Portugueses terão de bater a campeã da Europa para seguir na prova -

Selecção tentará aproveitar a pressão sobre o adversário” (dia 29, página 2),. É notória a

preocupação com a selecção espanhola, a importância de ganhar o jogo para seguir em prova, tarefa nada fácil.

Por outro lado, de acordo com o Público, os resultados obtidos pela selecção portuguesa neste mundial não foram os mais convincentes, e por isso mesmo indica que “Espanha será o próximo desafio de uma selecção que já cumpriu os mínimos” (dia 26, página 2). Novamente se verifica a dicotomia positivo/negativo que o Público tem vindo a

apresentar. Por um lado, “o próximo desafio” aponta para uma certa confiança: um desafio é algo ultrapassável, não redentor de um fatalismo. No entanto, a selecção apenas “cumpriu os mínimos”, mostrando assim um certo receio na prestação da equipa, que não tem vindo a dar o seu máximo, requisito necessário para vencer o desafio ibérico.

Por fim, relativamente ao último jogo da selecção portuguesa no Mundial de Futebol da África do Sul, o dia antes é visto como uma luz ao fundo do túnel, onde não se pode perder as esperanças: “Selecção espanhola ataca e remata mais do que Portugal, mas nem por isso é

mais eficaz”(dia 28 pág,22). Ora, esta frase é bastante clara: os rankings podem dar

preferência aos espanhóis, “eles” podem até ter um estilo de jogo mais peculiar e eficaz, mas no futebol tudo se decide em campo, e as estatísticas e as probabilidades, apesar de serem significativas, não traduzem a realidade. Por isso mesmo Portugal tem hipótese. Mas não teve. “Táctica de contenção falhou e só Eduardo se recuperou” (dia 30, página 2); que significa dizer que a prestação da equipa não foi boa, apenas a prestação de Eduardo, do guarda-redes, por apenas ter sofrido “um golo milimetricamente em fora-de-jogo”. Ora, destas elações concluímos que de facto a selecção é vista de duas maneiras, dependendo assim da sua prestação em campo e dos resultados obtidos. Aliado a esta ideia de defesa da nação e da pátria, surge a categoria com mais relevo nas entradas das notícias do Público: a posição entre o centro e a periferia, a grandiosidade e a pequenez.

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