“Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio... Uma só para mim é pouca, talvez não me chegue (...) Tudo me quieta, me suspende. Qualquer sombrinha me refresca” (ROSA, 1967, p. 15).
Aquilo que a Igreja Católica chama em seus documentos de pluralismo cultural dos tempos modernos pode ser comparado àquilo que os estudiosos do fenômeno religioso chamam de pluralismo religioso.
De maneira formal, a possibilidade de se falar em pluralismo religioso se instala oficialmente no Brasil com o advento da primeira república, no final do século XIX quando há a separação formal entre Igreja e Estado. Essa separação permitiu a existência de instituições civis e instituições religiosas, que até então se encontravam imbricadas, abriu-se, com isso, possibilidades legais para o reconhecimento de formas religiosas não católicas, assim como possibilidades para instituições não religiosas se
103 Na maior parte dos municípios pesquisados os Testemunhas de Jeová são citados pelas pessoas como
colocarem à frente da hegemonia católica104. Apesar disso, uma visão comparativa dos números do censo acerca da questão religiosa mostra que:
Até os anos 1980, o perfil religioso da população brasileira pouco se altera: a religião católica mantém a sua supremacia herdada da época colonial. Entre 1970 e 1980, nenhuma mudança significativa aparece nos recenseamentos (...). No entanto, entre 1980 e 1991 a supremacia católica começa a sofrer fissuras (JACOB, et ali, 2003, p. 33).
A situação de pluralismo, antes mencionada, é assim entendida por Berger:
A característica-chave de todas as situações pluralistas, quaisquer que sejam os detalhes de seu pano de fundo histórico, é que os ex- monopólios religiosos não podem mais contar com a submissão de suas populações. A submissão é voluntária e, assim, por definição, não é segura. Resulta daí, que a tradição religiosa, que antigamente podia ser imposta pela autoridade, agora tem que ser colocada no mercado. Ela tem que ser “vendida” para uma clientela que não está mais obrigada a “comprar”. A situação pluralista é, acima de tudo, uma
situação de mercado. Nelas as instituições religiosas tornam-se
agências de mercado e as tradições religiosas tornam-se comodidades de consumo. E, de qualquer forma, grande parte da atividade religiosa nessa situação vem a ser dominada pela lógica da economia de mercado (BERGER, 1985, p. 149).
Em uma análise específica da situação brasileira Pierucci (2002) acha que é complicado falar de pluralismo religioso em um país onde quase 90% dos brasileiros se declaram cristãos. O que há de fato, de acordo com sua visão, é uma diversificação do campo cristão onde a pluralidade deixa muito a desejar, já que se quase 90% dos brasileiros se declaram cristãos, outras formas religiosas não católicas, incluindo os chamados “sem religião” estariam representadas por pouco mais de 10% da população.
Numa análise que extrapola o campo cristão, Pierre Sanchis (2006) acredita que o que muda de modo geral no universo das religiões na contemporaneidade é a relação indivíduo instituição; nessa relação é o pólo do indivíduo e não o da instituição que assume primazia. Tal primazia estaria relacionada ao sentimento de maior autonomia do fiel no comando de seu universo religioso, tendo em vista a “quantidade de ofertas institucionais que lhe são ofertadas”. Dessa forma, a composição de identidades
104 Falar de hegemonia católica não significa dizer que não havia, no campo das “relações vividas”, a
ocorrência de outras formas religiosas que ao longo do tempo conviveram com o catolicismo, ou mesmo, de diferentes interpretações sobre o catolicismo que na Amazônia se formou.
religiosas plurais é facilitada, mesmo quando essa religião apresenta como quadro de referência uma única religião, a sua composição está ligada às “intuições, desejos, sentimentos, emoções e experiências individuais”.
Um dos traços marcante desse atual contexto religioso de intensa diversidade e múltiplos pertencimentos é o trato da religião como um produto potencialmente comercializável e das instituições religiosas funcionando tal qual instituições seculares. Tal contexto tem como um de suas características fundamentais a idéia de laicização da sociedade, isto é, um contexto em que a vida social não é mais submetida às regras religiosas de uma instituição, essa não mais teria o poder de legitimar as regras da vida social (HERVIÈU-LÈGER 2005).
Nesse contexto a instituição religiosa passa a dividir importância como organizadora da vida social com outras instituições seculares, caracterizando o que Berger (1985) chamou de “crise de plausibilidade” da instituição igreja, levando, assim, o individuo a organizar sua vida fora de qualquer referência religiosa institucional, situação que caracterizaria uma sociedade secularizada, ou ainda, motivada por vários referencias, o que, de fato, melhor caracteriza o presente momento.
Se há uma mudança prática na vida religiosa, se as pessoas estão organizando sua vida espiritual de acordo com suas necessidades individuais, quase sempre fora de qualquer instituição, é de se esperar que as instituições religiosas tradicionalmente colocadas se pronunciem. E elas o fazem.
A instituição responsável por gerenciar a vida religiosa católica na Amazônia sempre teve como principal preocupação disciplinar as festas de santo, principal forma de manifestação religiosa católica popular. Havia uma preocupação muito grande em zelar pelo caráter cristão das festas de santo. Exemplos da história religiosa na Amazônia denotam bem esse contexto como visto no capítulo primeiro desse trabalho, em que a palavra chave na relação entre leigos e sacerdotes era disciplina, mesmo que isso significasse desagradar os leigos, muitas vezes considerados adeptos de “crendices” que só “deturpavam” o caráter cristão das celebrações religiosas católicas.
No atual contexto a situação não mudou. O desejo de disciplina continua sendo a situação que define as relações entre leigos e sacerdotes no campo religioso. Mas há outras necessidades.
Sobretudo no campo da gerência das celebrações, ainda se cultiva o desejo de disciplinar as mesmas de acordo com um imaginário eclesial; há uma preocupação muito grande em ter limites bem definidos entre relações consideradas sagradas e relações consideradas profanas; de separar “religião” e “folclore”. No caso do Círio de Nazaré, na capital paraense, as falas de um religioso, relativas às músicas que animariam uma das procissões do Círio no ano de 2008, evidenciam que tal preocupação ainda é central para o clero. Assim se expressou o mesmo: “temos que ter cuidado de evitar que tudo vire baile, marujada... seria deplorável... a massa ninguém controla... Transformaria o Círio em Pé Lourinho”105. No entanto, aliado a este olhar, há também a necessidade de que essa disciplina seja entendida como uma decisão democrática, que não fora imposta, mas, dialogada com a membresia que lhe diz respeito.
Essa noção de gerência partilhada está relacionada ao tipo de organização que se configurou para gerenciar as festas de santo. As Diretorias de Festa, ou Comissões, são formadas em sua maioria por leigos voluntários e têm como presidente, um pároco, ou o padre, como é o caso da Diretoria da Festa de Nossa Senhora de Nazaré em Belém. Mas a visão que esses leigos têm sobre o perfil das festas converge mais para aquilo que chamamos de catolicismo oficial do que com o imaginário do catolicismo popular. Conciliar as noções diversas sobre o catolicismo tanto no interior das Diretorias ou Comissões como fora, no trato com os leigos como um todo, é um desafio para a gerência dessas festas.
Outro desafio colocado para essas gerências é que elas sejam capazes de “proteger” as celebrações católicas, não apenas do povo que teima transformá-las em cortejos “folclóricos”, mas também do mercado que as descobriu e se fez descobrir por essas como um grande filão. A partir disso, soma-se ao desejo, de longa data, de disciplinar as celebrações, a necessidade de protegê-las do avanço mercantil, mas incluindo-o.
105 Creio que o padre faz o comentário em alusão ao Pé Lourinho, bairro da cidade de Salvador no
A celebração do Círio de Nossa Senhora de Nazaré em Belém-Pa principal manifestação religiosa católica da região Norte, nos permite pensar de forma prática algumas questões acima levantadas. Talvez a mais importante seja o exemplo do modelo empresarial de gestão dessa celebração, como relacionado ao contexto de situação de mercado religioso atual106. É bom lembrar que no contexto dessa celebração, tanto os evangélicos quanto outras celebrações católicas inspiram as práticas desses gestores católicos que, em situação de disputa por mercado, tentam ao mesmo tempo “imitar” um modelo de devoção que eles consideram que deu certo, a exemplo dos festejos de Nossa Senhora Aparecida em São Paulo, e, ao mesmo tempo, frear o crescimento dos evangélicos, se colocando assim, no mercado de bens simbólicos, numa situação confortável.
De forma geral, localizo três grandes ações da Igreja Católica na capital paraense no sentido de se mobilizar no mercado de bens simbólicos: a feitura de um censo na cidade de Belém para “conhecer” seu rebanho, o desmembramento da diocese de Belém para criação de uma nova diocese, a de Castanhal, e a potencialização da Festa religiosa católica mais importante da região e uma das mais importantes do Brasil, o Círio de Nossa Senhora de Nazaré.