As conexões entre Estado Amplo e Estado Restrito, além da administração deste, ocorre por meio da atuação da classe capitalista dos gestores. Desde a ascensão do modo de produção capitalista a sociedade passou a ser dividida em três classes. Novamente nos baseamos em importantes autores que abordam este tema, mais especificamente João Bernardo, Mauricio Tragtenberg e Lúcia Bruno e encontramos diferenças em relação à concepção de Marx sobre as classes sociais, entendendo assim a separação da classe capitalista em duas em detrimento da concepção de sua existência individual. Segundo Bernardo (1991, p. 202) “as classes sociais não são possíveis de definições substantivas, mas apenas relacionais”.
A classe que produz valor continua a mesma, a classe trabalhadora. Mas aqueles que se apropriam do valor produzido sem necessariamente produzi-lo, os capitalistas, constituem duas classes e elas se diferenciam na relação sob a qual se estabelece a propriedade privada, entre outras relações. Ainda com a contribuição de Bernardo (1991, p. 203),
A classe burguesa e a classe dos gestores distinguem-se: a) pelas funções que desempenham no modo de produção e, por conseguinte; b) pelas superestruturas jurídicas e ideológicas que lhes correspondem; c) pelas suas diferentes origens históricas; d) pelos seus diferentes desenvolvimentos históricos.
E mais especificamente, em relação à propriedade privada, o mesmo autor afirma que,
Se entendermos a propriedade capitalista como um título que dá direito a participar na distribuição da mais-valia, então a propriedade burguesa é de caráter individual, vitalício e transmissível. Os gestores, pelo contrário, participam coletivamente na apropriação, na medida em que exercem
funções em corpos dirigentes da burocracia política e econômica, pública ou privada. São estes corpos dirigentes que se apropriam da mais-valia, e repartem-na entre os seus membros não porque estes tenham qualquer direito próprio, mas apenas pelos cargos que ocupam.
Os postos preenchidos pelos gestores não possibilitam só o exercício do controle. No capitalismo, todo o controle acarreta uma apropriação de fato. Na medida em que decidem os investimentos a realizar com o capital da empresa e determinam o modo de aplicação dos lucros, os administradores da empresa detêm completamente esse capital, e não existe outro critério de apropriação válido em termos econômicos (BERNARDO, 1998, p. 52).
Deste modo, acerca das funções que desempenham no modo de produção capitalista, Tragtenberg (2005, p. 11) afirma que “verificamos, a partir disso, que não se lida, aqui, com a propriedade em seu sentido clássico, porém a lei não responde a isso. É que as relações jurídicas não correspondem ao desenvolvimento socioeconômico [...]”.
Tanto na análise de Bernardo quanto na de Tragtenberg, a ação da classe dos gestores ainda não é reconhecida juridicamente porque carece de uma legislação específica. Contudo, isso não altera o seu quadro de desenvolvimento. Seguindo a indicação de Bernardo acima exposta, podemos perceber nitidamente sua existência a partir das relações que as classes sociais estabelecem entre si. Observar sua intensa participação na gestão do Estado Restrito e no desenvolvimento do Estado Amplo significa compreender como ocorre a articulação entre ambos e, portanto, como, e por quem, é operada a estrutura de poder.
Esta atuação não se limita à estrita gestão de operações financeiras. Atinge também a organização de diversos setores da produção, incidindo, sobretudo, na organização e gestão das Condições Gerais de Produção. É neste complexo que percebemos com certa nitidez a existência da classe capitalista dos gestores.
Diversas vezes neste capítulo ressaltamos a fundamental importância da integração econômica para a formação, administração e expansão da estrutura de poder capitalista. Também destacamos que esta estrutura depende da existência das CGP’s para que sua integração se perpetue. Dentro deste complexo os gestores são os responsáveis, em grande medida, pelo funcionamento destas CGP’s, tanto dentro dos quadros do Estado Amplo como do Estado Restrito.
Como vimos, as CGP’s constituem um amplo quadro de organizações, processos e infraestruturas de materiais e serviços que se encontram presentes na sociedade. Independentemente de sua origem, servem à articulação econômica visando seu desenvolvimento. Assim, podemos observar o papel que cumprem as malhas ferroviárias, rodoviárias e portuárias no escoamento e distribuição da produção, diminuindo os custos de transporte para as empresas, por exemplo. Segundo Bruno (1986b, p.131) sua organização permite conceber o capitalismo como "uma totalidade estruturada onde as empresas estão estreitamente relacionadas entre si e integradas nas condições gerais de produção".
É também no contexto de organização e desenvolvimento das CGP's que percebemos com maior nitidez a existência e as funções exercidas pela classe dos gestores. Conforme acentua-se a integração tecnológica entre as empresas aumenta o campo de ação dos gestores em detrimento da burguesia, isto por que está integração extrapola os limites de funcionamento de cada Unidade Particularizada de Produção - UPP. Segundo Bernardo (1979, p. 58-59)
[...] os gestores lutam por se apoderar da propriedade do capital ou, pelo menos, obter posições decisivas de controle; quando conseguem detê-lo directamente tornam-se proprietários colectivos, consoante a colectivização material que o desenvolvimento tecnológico impõe às empresas.
Diferentemente dos períodos iniciais de desenvolvimento do capitalismo, quando os elementos da classe social dos gestores estavam presentes em departamentos técnicos e administrativos dentro das empresas e tinham o exercício de suas ações ainda restrito em uma economia pouco integrada, segundo Bernardo (1979, p. 67) esta classe social expandiu-se até as instituições governamentais e passou a ocupar postos importantes dentro da estrutura do Estado Restrito. Este processo fortaleceu seu desenvolvimento e contribuiu para que ampliasse seu controle, sobrepondo-se à burguesia.
A gestão da educação também pertence a esse quadro. Sendo uma das CGP's sua oferta e administração está sob o controle da classe dos gestores. A atuação desta classe social nesta área específica também não se limita a operações financeiras que determinam áreas prioritárias ou secundárias para a aplicação de recursos e investimentos. A preocupação com a integração econômica e tecnológica
esta presente nas características de funcionamento das instituições responsáveis pela oferta educacional e também pelo sentido conferido aos conteúdos das relações presentes nestas instituições.
Em passagens anteriores deste texto abordamos o processo de formação de novas gerações da classe trabalhadora como um processo regido pela relação de mais-valia. Neste processo cabe à escola formar estas novas gerações de acordo com as relações sociais e tecnologias presentes em sua época. Educar significa, então, preparar para viver na sociedade regida pela mais-valia, dentro ou fora do mercado de trabalho.
Assim, mais do que os conhecimentos, são as formas como estes conhecimentos são trabalhados dentro das escolas, as práticas que os cercam, lhes conferem sentido e os ligam à realidade destas novas gerações que contribuem para o fortalecimento das dinâmicas sociais sob o capitalismo e para o também fortalecimento da estrutura de poder existente.
As práticas as que nos referimos são as próprias formas de ensinar sob o capitalismo. Acreditamos que elas estão no centro do papel desempenhado pelas instituições escolares enquanto pertencentes às Condições Gerais de Produção. As diretrizes que estão relacionadas às práticas educacionais adotadas nestas instituições têm o propósito fortalecer o papel a ser desempenhado pela educação dentro da estrutura de poder. Desta forma, aqueles que formulam estas diretrizes exercem o controle sobre os modos de ensinar a medida que associam a educação às necessidades de desenvolvimento do capitalismo, direta ou indiretamente. Isto ocorre sobretudo quando outros gestores que atuam na administração da educação facilitam a entrada de teorias pedagógicas associadas a estas diretrizes nos sistemas de ensino por meio de diversos recursos, tais como sua utilização em bibliografias de concursos públicos, composição de documentos institucionais, premiação de práticas ligadas a determinadas concepções, etc.
Nos próximos capítulos pretendemos abordar algumas destas associações entre elaborações teóricas e diretrizes educacionais a fim reconhecer nelas os conteúdos que estão vinculados às atuais demandas de desenvolvimento do capitalismo. De maneira mais precisa, optamos por abordar o que conhecemos como pedagogia das competências e pedagogias do aprender a aprender (DUARTE, 2003 e 2006).
No entanto, antes pretendemos explorar o atual contexto de desenvolvimento do capitalismo, o que faremos já no próximo capítulo.