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OS RITMOS BIOLÓGICOS

E O “SONO DAS PLANTAS”

Maria de Fátima Neves Sandrin1 Eduardo Adolfo Terrazzan2

Introdução

O capítulo a seguir aborda a questão da atualização dos currícu- los de Biologia no ensino médio, a inclusão de temas oriundos da produção científica contemporânea e os meios para viabilizar essa inserção diante dos objetivos de desenvolvimento de cidadania e autoconhecimento prescritos em documentos educacionais. Trata- -se de um estudo historiográfico que embasa uma proposta mais ampla de inserção curricular e ensino de temas contemporâneos de relevância social e individual pela perspectiva da História e Filoso- fia da Ciência (HFC), entre outros recursos de ensino. O objetivo do presente estudo é caracterizar os episódios históricos mais mar-

1. Programa de Pós -Graduação em Educação para a Ciência – Universidade Es- tadual Paulista/UNESP – Bauru, SP. e -mail: [email protected]. 2. Universidade Federal de Santa Maria – UFSM. Programa de Pós -Graduação

em Educação para a Ciência – UNESP – Bauru, SP. e -mail: eduterrabr@yahoo. com.br.

cantes no desenvolvimento do estudo da periodicidade biológica, abordando o fenômeno denominado “sono das plantas” no século XVIII. O material resultante será utilizado para fundamentar, em próxima etapa de pesquisa, o desenvolvimento de uma proposta de trabalho didático, que inclua temas de Cronobiologia no currículo de Biologia no ensino médio.

Textos clássicos na área da Didática das Ciências enfatizam a importância do domínio do conteúdo como um dos saberes funda- mentais para a formação de professores (Carvalho & Gil -Pérez, 1995; Krasilchik, 1987). Segundo Marcelo Garcia (1995, p.28), o conhecimento didático do conteúdo é fundamental, visto que as- sume um papel “estruturador do pensamento pedagógico do pro- fessor”. Contudo, os conhecimentos produzidos academicamente estão constantemente mudando e a necessidade de atualização cons titui um desafio permanente para o docente, sobretudo quan to à abordagem dos temas da produção contemporânea na área bio- lógica, devido, entre outros motivos, à complexidade e às rela ções multidisciplinares. No âmbito geral, essa condição pode ser apoia da, em parte, pela Teoria Antropológica da Didática de Yves Chevallard (2007), ao afirmar que o saber que chega à escola de- pende de vários fatores, incluindo a legitimação das instituições. No capítulo intitulado “A transposição didática” de sua tese de doutorado, o sociólogo Michel Verret (1975, p.140) afirma: “Toda prática de ensino de um objeto pressupõe de fato a transformação prévia de seu objeto em objeto de ensino” e comenta que os con- teúdos chegam aos alunos dessincretizados, descontextualizados e despersonalizados. Chevallard (1991) admite essas proposições e completa dizendo que, na constituição do saber escolar privi- legiam -se os sucessos, a continuidade e a síntese, ocultando -se erros, dificuldades e dúvidas de pesquisa. A partir desse referen- cial, a preocupação com o ensino de temas contemporâneos se jus- tifica ao postular que não basta ensinar ciência, mas também ensinar sobre a ciência (Carvalho, 2004), desenvolvendo um tra- balho que evite entendimentos ingênuos, acríticos e descontextua- lizados da produção científica.

Admitindo a importância da contextualização das situações di- dáticas ao favorecer a compreensão dos processos de produção científica, encontra -se, entre várias alternativas, a opção pelo tra- balho com episódios históricos. Segundo Martins (1998, p.18), “o estudo de episódios históricos pode sugerir que o processo de cons- trução do conhecimento é lento e gradual e que os conceitos desen- volvem -se por meio de etapas decorridas de longos períodos, até chegarem àqueles aceitos atualmente”. A literatura da área de His- tória e Filosofia da Ciência (HFC) propõe que, entre as vantagens que pode conferir ao ensino de ciências, está a de proporcionar uma aprendizagem mais significativa, fundamentando o entendimento de questões relativas à natureza da ciência (Matthews, 1995; Bastos, 1998).

Tais assunções remetem a refletir sobre como a dimensão his- tórica dos conceitos e temas científicos tem sido contemplada no ensino médio. Uma observação exploratória de títulos de livros di- dá ticos disponíveis no mercado editorial (Sandrin, 2011, não publi- cado), permite constatar a frequência regular de uma abordagem histórica dos temas biológicos apresentada por meio de fragmentos de textos de outros autores, geralmente em formato de caixas de texto, narrativa linear, com ausência ou presença fraca de articu- lação com o corpo do capítulo no qual se insere e sem questiona- mentos sobre fatores associados a essa produção.

Este estudo aposta em um ensino de Biologia no qual se con- templem as polêmicas em torno da história das ideias, as hipóteses e as teorias abandonadas, as dificuldades superadas até o aceite de novos conceitos, a contribuição de um conjunto de personagens, homens e mulheres, em seus contextos e o avanço das tecnologias que possibilitam novas evidências a respeito dos objetos de estudo. Nesse sentido, elaborou -se uma proposta de trabalho didático (Sandrin, 2011) que inclui a dimensão histórica, visando à melhor compreensão das condições para a atualização do currículo de Bio- logia no ensino médio. Optou -se pelo estudo de um conceito fun- damental para a compreensão da organização da vida – os “ritmos biológicos”, objetos de estudo da Cronobiologia (CB), área de do-

mínio científico que estuda a dimensão temporal dos seres vivos (Araújo & Marques, 2002). Do ponto de vista da produção cien- tífica, a CB contribui para uma Biologia dinâmica, ao entender também o “tempo”, e não somente o “espaço”, como caracterís- ticas da matéria viva (Menna -Barreto & Marques, 2002). A área foi sistematizada em 1960 (Menna -Barreto, 1999), constituindo um caso de lenta construção do conhecimento até sua formalização. Fortemente apoiada na experimentação, na Matemática e na Fí- sica, o estudo dos ritmos biológicos iniciou -se com as plantas e, em seu desenvolvimento, ocorreu um longo e grande debate sobre a existência e a origem da periodicidade biológica – um fenômeno es- tudado pioneiramente com plantas e só mais tarde com outros seres vivos, incluindo o homem. Representando a época pré -científica da área, destaca -se um fenômeno emblemático denominado “sono das plantas”, estudado por Darwin (1809 -1882) e descrito ante- riormente pelo botânico Lineu (1707 -1778) como movimentos de abrir e fechar das folhas ou folíolos, durante o dia e a noite, respec- tivamente, em determinadas espécies. A sensitiva (Mimosa pudica) e o tamarindo (Tamarindus indica L.) são espécies que apresentam esse comportamento. Podemos questionar: as plantas dormem?