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Um (p. 31)

– Se Ana Clara aparecer diga que preciso daquele di- nheiro que emprestei.

– Oriehnid, Lião, oriehnid! – grito e levanto o braço direito, o punho fechado na saudação antifascista. Ela prende o cigarro nos dentes, fecha a mão e torce a munheca.

– Banana, Lião? Isso é u- ma banana?

Afasta-se a passos largos e pelo jeito de balançar a cabe- ça imagino que está sorrindo. Atravessa o jardim como um soldado em dia de desfile, a mochila ao lado, as meias desa- bando, podem desabar! toque- toque-toque-toque. Abriu o portão com um gesto desabri- do, heróico, gesto de quem as- sume não o seu caminho, pro- saico demais, imagine, mas o

Le ragazze

Uno (p. 172)

– Se Ana Clara si fa ve- dere dille che ho bisogno di quei soldi che le ho prestato.

– Idlos, Lião, idlos! – gri- do e alzo il braccio destro, il pu- gno chiuso per il saluto antifa- scista.

Lei stringe la sigaretta tra i denti, chiude la mano e piega il braccio.

– Ombrello, Lião? Sareb- be il gesto dell’ombrello? Si allontana a passi larghi e da come dondola la testa im- magino che stia sorridendo. At- traversa il giardino come un sol- dato in giorno di sfilata, lo zaino al fianco, le calze che scivolano, scivolate pure! toc toc toc toc. Ha aperto il cancello con un ge- sto irruente, eroico, gesto di chi assume non la propria strada, troppo prosaico, figuriamoci, ma il proprio destino. Prima an-

Ragazze

Uno (p. 31)

– Se Ana Clara si fa viva dille che mi servono quei soldi che le ho prestato.

– Idlos, Lião, idlos! – gri- do e alzo il braccio destro, col pugno chiuso nel saluto antifa- scista.

Lei tiene la sigaretta fra i denti, chiude la mano e torce il polso.

– Banana, Lião? Quello è una banana?

Si allontana a passi lun- ghi e per la maniera di don- dolare la testa immagino che stia sorridendo. Attraversa il giardino come un soldato in giorno di sfilata, lo zaino di la- to, le calze che cadono, posso- no cadere! Toc-toc toc-toc. Ha aperto il cancello con un gesto brusco, eroico, gesto di chi as- sume non la sua strada, troppo prosaico, ma il suo destino.

próprio destino. Antes mesmo de chegar à esquina as meias já desabaram completamente. Ai meu Pai. E justo a mãezinha fornecendo condução para o

aparelho. Pode ter um daque-

les ataques se souber.

cora di arrivare all’incrocio le calze sono già scivolate del tut- to. Oh mio Dio. E proprio mam- ma a fornire il trasporto per il

gruppo. Potrebbe venirle uno di

quegli attacchi se sapesse.

Ancora prima di arrivare al- l’angolo le calze le sono cadute del tutto. Oh padre mio. E inol- tre la mammina fornisce il mezzo di locumozione per il

partito. Potrebbe venirle uno di

quegli attacchi se lo sapesse.

Lorena, ao chamar a atenção de Lia para o uso da expressão, explicita o seu significado; assim, a própria narrativa se encarrega de esclarecer160 aquilo que a

princípio era causa de perplexidade – tanto em português quanto em italiano. É nesse sentido que o uso da nota em Ragazze parece caminhar em direção oposta à tendência geral da tradução, pois se o objetivo era reduzir ao máximo o número de notas, por que a usar para explicar um elemento já enfatizado pela própria narrativa? A minha tradução, embora faça largo uso das notas – dada a liberdade por não estar presa a um contrato editorial e a restrições de nenhum tipo – não recorre a essa alternativa para explicar que idlos é uma inversão, justamente por considerar suficiente o esclarecimento sucessivo na fala de Lorena.

Nesse fragmento do romance, as duas traduções não reagem de forma diferente apenas em relação a esse problema. Nota-se, por exemplo, a diferente interpretação dada ao gesto feito por Lia: a “banana”. Embora esse gesto faça parte tanto da cultura brasileira quanto da cultura italiana, as denominações dadas a ele são distintas. Assim, manter a denominação do português, como ocorre na tradução de Pesante, não significa manter a referência ao gesto, ao contrário, a preservação do elemento lingüístico elimina a compreensão do elemento cultural. Considerando ser mais importante a preservação do sentido da expressão, optei por uma tradução (il gesto dell’ombrello) que, embora não seja literal, condiz com o contexto.

Observa-se, ainda, uma pequena diferença nas escolhas dos tradutores diante de “prosaico demais, imagine”. Embora concordem na opção por “troppo prosaico”, Pesante elimina a expressão freqüentemente usada por Lorena, enquanto eu utilizo a mesma solução adotada nos momentos em que a personagem repete a palavra, adaptando, quando necessário, de figurati para figuriamoci, como nesse trecho.

Outro problema enfrentado no processo tradutório diz respeito ao uso do termo

aparelho, repetido algumas vezes por Lorena em referência ao grupo de militantes do

qual Lia faz parte. Visto que em outros trechos do romance Lorena também se refere

160 Há, ainda, um momento sucessivo no qual será Lia a reforçar o significado da expressão: “Fica com

este oriehnid, dinheiro de trás pra diante dá sorte, guarde: oriehnid. Depois acertamos nossas contas” (TELLES, 1998, p. 135).

aos amigos de Lia como grupo, optei por esse termo na tradução, descartando a possibilidade utilizada por Pesante (partito) por considerar que apesar de os jovens se reunirem, não há nenhum momento em que a narrativa explicite se tratar de um partido. Voltando ao problema específico das notas de rodapé – que, naturalmente, não diz respeito apenas a esse fragmento do romance –, parece uma contradição que a tradução que tende ao uso das notas opte por não a inserir, enquanto a outra, que raramente recorre a essa solução, decida incluí-la. Há um trecho do romance, contudo, em que ambas traduções fazem uso da nota:

Cotejo 21: C.D.A. As meninas

Três (p. 56)

Ah, que alegria quando fico aqui sozinha. Sozinha. Como chupar escondida um cacho de uvas. “E a máquina do mundo, repelida, se foi miudamente re- compondo” – ah, preciso deco- rar isso, C.D.A. Minha poesia. Minha música. Às vezes, os amigos (podiam ser menos ve- zes, ai meu Pai). A presença- ausência de M.N. Dos meus mortos.

Le ragazze

Tre (p. 185)

Ah, che gioia quando rimango qui da sola. Da sola. Come quando succhio di nascosto un grappolo d’uva. “E a máquina do mundo, repelida, se foi miu- damente recompondo”* – ah, lo devo imparare a memoria, C.D.A.** La mia poesia. La mia musica. Qualche volta, gli amici (potevano essere meno volte, oh mio Dio). La presenza-assenza di M.N. Dei miei morti.

* “E la macchina del mondo, re- spinta, si ricomponeva pian pia- no”.

** Si tratta del poeta Carlos Drummond de Andrade.

Ragazze

Tre (p. 56)

Ah che allegria quando resto qui da sola. Sola. Come man- giare di nascosto un grappolo d’uva. «E la macchina del

mondo, respinta, si è minuta- mente ricomposta» – ah devo

impararlo a memoria, C.D.A.* La mia poesia. La mia musica. A volte, gli amici (potrebbero essere meno volte, ah padre mio). La presenza assenza di M.N. Dei miei morti.

* C.D.A.: si riferisce al poeta brasiliano Carlos Drummond de Andrade. [N.d.E.]

A maior parte das referências literárias são feitas por Lorena: é através da sua delicadeza e do seu gosto pela poesia que se encontram menções a livros, citações de versos ou músicas. A jovem estudante de Direito é responsável, portanto, pela maior parte de intertextualidades (stricto sensu) inseridas no texto, como se observa no cotejo acima, em que cita o verso de Carlos Drummond de Andrade, indicando o nome do poeta apenas pelas iniciais.

Reconhecendo a intertextualidade e, mais do que isso, a autoria do verso, Pesante traduz diretamente a citação; sua tradução também apresenta uma nota (indicada como nota do editor) que esclarece a referência ao poeta mineiro. Estratégia semelhante foi adotada por mim, com a única diferença que os versos em Le ragazze permanecem em português e são traduzidos apenas na nota. Embora um pouco distintas,

tais soluções espelham uma coerência mantida por ambos tradutores ao longo de toda a tradução: Pesante sempre traduz os versos no corpo da própria narrativa, eu os deixo em português indicando a tradução numa nota.

Todavia, considerando-se que Ragazze, dentre as poucas notas que apresenta, utiliza-se de uma para explicitar a referência a Drummond, seria de se esperar que tal solução também fosse aplicada em outro caso semelhante, ou seja, a da autoria de outros versos indicada pelas iniciais, como evidencia o cotejo abaixo:

Cotejo 22: A poeta H.H.