O conhecimento clássico era profundamente nominalista, afirma Foucault. As coisas só poderiam ser conhecidas por meio deste quadro da linguagem representativa. Porém, a modernidade fez com que a linguagem se dobrasse sobre si mesma, desvelando sua historicidade, suas leis e objetividades próprias. É um movimento no qual a linguagem se torna mais um objeto entre outros, porém a sua efetividade se desloca para outras atividades. Se, por um lado, para conhecer a linguagem basta que se apliquem os métodos sistemáticos de outros saberes (da biologia principalmente), a este domínio de objetos específicos que são as palavras, por outro, é no espaço deixado pela dissociação entre a linguagem e a verdade da representação que puderam surgir três formas de “compensação” do processo de objetivação da linguagem: o conhecimento científico, o legado da crítica entre formalização e interpretação e o surgimento da literatura. A primeira compensação busca o progresso da ciência tanto pela neutralização da linguagem empregada como pela constituição de lógicas simbólicas que formatem adequadamente o conhecimento. A segunda, revelada pela própria crítica à linguagem, lê nas disposições gramaticais o a priori de todo enunciado possível: eis os limites que a linguagem nos impõe e a necessidade de que se renovem ou que ressurjam as técnicas interpretativas para fazer o discurso saltar das amarras gramaticais. “Lá onde se tratava, no fim do séc. XVIII, de fixar os limites do conhecimento, buscar-se-á desarticular as sintaxes, romper as maneiras constringentes de falar, voltar às palavras para o lado de tudo o que se diz através delas e malgrado elas. Deus é talvez menos um além do saber que certo aquém de nossas frases” (FOUCAULT, 1999, p. 413).
A terceira e mais importante compensação é o aparecimento da literatura. Para Foucault, somente agora denominamos literatura um conjunto de obras caracterizado por certo modo de escrita e que são produzidos desde sempre. Não havia esta distinção de estilo tão claramente estabelecida na idade clássica, justamente porque toda escritura se referia a uma ordem de representações já estabelecidas. Era este o empenho e a tortura de Sade, que proliferou ininterruptamente as representações. Mas, tendo a filologia entranhado a linguagem na espessura dos objetos, esta outra linguagem, “sob uma forma independente, de difícil acesso, dobrada sobre o enigma de seu nascimento e inteiramente
referida ao ato puro de escrever” (FOUCAULT, 1999, p. 415, grifo nosso) irrompe a existência da literatura como ser bruto da vontade, do desejo, da imaginação, enfim, numa autonomia que lhe é própria. Desde os gênios românticos até Mallarmé, a literatura se constituiu numa intransitividade radical, pois de nenhuma forma prescindirá de quadro, tópicas ou personas, mas sim o debruçar-se sobre si mesma no próprio ato de escrever.
[...] contra todos os outros discursos – sua existência abrupta; nessas condições, não lhe resta senão recurvar-se num perpétuo retorno sobre si, como se seu discurso não pudesse ter por conteúdo senão a sua própria forma: endereça-se a si mesmo como subjetividade escriturante, ou busca capturar, no movimento que a faz nascer, a essência de toda literatura; e assim todos os seus fios convergem para a mais fina ponta – singular, instantânea, e contudo absolutamente universal -, para o simples ato de escrever. (FOUCAULT, 1999, p. 416)
Será somente a literatura que guardará a relação fundamental dos nomes com o ser, obnubilado pelo quadro da representação. A literatura, apesar de ser um objeto privilegiado para a crítica, está nas antípodas do saber moderno. As teorias modernas da linguagem não comportam a literatura senão com o assombro diante do outro, e é exatamente por este privilégio de contestação e pela potência de transgressão que ela se constitui, em grande medida, como heterotopia. Se ela é capaz de antecipar a crítica, é por guardar uma relação mais fundamental com o ser da linguagem do que o ato reflexivo42.
A literatura só se deu aos saberes por meio do advento confuso da subjetividade na idade moderna, ainda que por um deslocamento provocado no próprio ser da linguagem. Ou seja, a literatura surge na passagem do séc. XVIII ao XIX como guardiã de um ser que havia se elidido por força da transformação ocorrida na disposição geral das representações e na ausência da função da linguagem para os saberes modernos. Vida, trabalho e linguagem tratam-se, agora, de princípios transcendentais compreendidos numa determinada historicidade. O que a literatura tem em especial é tanto a guarda deste ser profundo que dá estrutura à realidade, e que passa a ser ignorado pela modernidade, como a força
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Eis aqui uma hipótese de estudo a ser desenvolvida. Esta “natureza” da literatura, por falta de palavra melhor, a coloca em comunhão com a “natureza” da linguagem. Há que se prestar atenção nesta “natureza” eminentemente espacial, como procuramos sustentar no item 2.2 desta dissertação. O estudo do caráter espacial da linguagem, em nossa perspectiva, guarda relações fundamentais com a experiência literária, não apenas por se tratar de uma obra de linguagem, mas por trazer à tona uma característica pouco explorada de tal “natureza” que é capaz de desmontar a obra da razão, satirizar a obra da fé, abalar por completo a estrutura do saber ao passo que revela a heterotopia, a potência transformadora que denuncia o saber em seus princípios, como o simples enunciado de Mallarmé: todo pensamento é um jogo de dados.
de contestação de si própria no momento de seu “surgimento”. O princípio fundamental que a faz emergir, ou seja, o próprio homem e sua subjetividade escriturante são desmontados pela literatura e por suas heterotopias. Os princípios fundamentais do gênio que a fez surgir indicarão muito menos a liberdade daquele que escreve do que a indeterminação de ato puro de escrever. De outra maneira, se o que a modernidade conserva nos saberes o que outrora fora do interior da linguagem e, portanto, da capacidade de analisar o mundo, então o que se passa é a legitimação de tudo aquilo que já tinha funcionado como representação. Se a dobra dos saberes ocultou o deslocamento mais profundo e mais importante de todos, qual seja, o das representações num quadro de linguagem para os transcendentais num quadro antropológico, então o ser do homem e o ser da linguagem, tal como sustentados pelos saberes modernos, guardam em si uma grande mentira. O que aconteceria se esta suspeita da literatura viesse à tona?