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Ao regressar a São Paulo, em 2010, para tentar reencontrar os motoqueiros do Canal Motoboy, tive algumas dificuldades para falar com eles, de modo que, como havia tomado conhecimento, em meu Exame de Qualificação, da existência de uma farmácia, em São Paulo, que congregava quase trezentos motoboys, pensei que seria uma boa ideia ir até lá.

Em meu segundo dia na capital paulistana, acordei bem cedo e me dirigi até o local apontado pelo site da empresa. Lá chegando, pude notar, conforme apontava o site, que todas as lojas do grupo se concentravam na mesma avenida, uma ao lado da outra. Vi algumas motos paradas em frente às lojas e achei que aqueles motoqueiros

fossem seus motoboys. Ao perguntar a um deles, me respondeu que não trabalhava ali, mas sim em outro lugar. Fui, então, até outro motoqueiro, que me disse a mesma coisa. Depois de duas abordagens frustradas, decidi entrar em uma das lojas do grupo farmacêutico e perguntar onde ficavam os motoboys que trabalhavam ali, fazendo as entregas. Um simpático vendedor prontamente me respondeu que eles não permaneciam nas lojas, ficavam alocados na rua logo ao lado, isto é, na perpendicular à avenida onde nos encontrávamos. Pé na calçada: fui até lá.

Ao ir chegando ao local indicado, pude observar algumas pequenas aglomerações de motoqueiros e me aproximei da primeira. Fui-me apresentando e expondo os motivos que me traziam até ali. Havia uns quatro motoqueiros, nesse primeiro grupo, e um deles, em especial, se interessou pelo assunto e começou a conversar comigo. Em uma segunda conversa, dias depois, perguntei-lhe se deveria usar seu nome verdadeiro ou inventar algum outro, ao me referir a ele em meu trabalho: respondeu que queira ter outro nome, portanto, o chamarei aqui de Leão. Ele me contou, indicando o local com um movimento de cabeça, que trabalhava ali havia muitos anos e que, no início, aquele lugar era uma cooperativa de motoboys, que, com o tempo, começou a prestar serviços para a Motofarma, até que foi integrada por ela, de sorte que todos os seus cooperados passaram a ser empregados, com contratação formal, ou seja, com os direitos salvaguardados pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). O lugar era um sobrado de meia idade, com um enorme portão azul, todo fechado à frente e parecendo bem pequeno para congregar 300 motoboys.

Ao longo de nossa conversa, soube que ali trabalhavam por volta de 270 motoboys, que faziam entregas por toda a cidade de São Paulo e cidades adjacentes e que todas as manhãs, de segunda até sábado, passavam por ali para pegar suas entregas, que eles chamavam de “peças”, para saírem para o trabalho. Os motoqueiros eram divididos por setores, que variavam entre subdivisões de bairros de São Paulo, até cidades inteiras, no caso das pequenas vizinhas de São Paulo, as quais demandavam menos entregas. Sua fala era confiante e segura, fazia críticas a essa maneira de trabalhar e ao tipo de vínculo empregatício que mantinha ali, enumerando algumas desvantagens de fazer parte do quadro de funcionários de uma empresa, comparando à condição de cooperado. Criticou, ainda, os políticos e os representantes da categoria, referindo-se principalmente às medidas para organizar o trânsito tomadas pelos primeiros e à falta de combatividade e representação dos segundos.

Eu quis saber se ele achava que seria possível eu passar a frequentar o local, para continuar a conversar com mais motoqueiros e ele me disse que achava que não haveria problemas, mas que, para entrar no sobrado, eu precisaria falar com os responsáveis, e

me disse seus nomes. Além do portão azul que abria eletronicamente, o local era monitorado por câmaras de segurança, diante das quais os motoqueiros tinham que tirar seus capacetes, para poderem entrar. Pediu-me licença e saiu para trabalhar. Foi nesse momento que conheci a Andréa.

Quando abordei o Leão, ele estava tomando café da manhã com mais três motoqueiros, na Andréa, uma ex-funcionária de uma das lojas da Motofarma e agora vendedora, que tinha como negócio algo muito parecido com o que chamamos de padaria, quando pensamos nos serviços oferecidos; obviamente ela não fazia pães ali. Ela trazia, em seu carro, para a frente do local onde ficavam os motoqueiros, sanduíches, salgados, chocolate quente, pingado, café, sucos e refrigerantes, que eram todos consumidos no período da manhã, o momento de maior frequência de motos no local, devido à organização do trabalho da empresa. Essa simpática e jovem senhora tinha sido empregada da mesma empresa onde trabalhavam os motoqueiros e, ao sair de seu emprego, decidira montar seu próprio negócio e cuidar dos “meninos”, sua forma carinhosa de tratar os motoboys.

Ela já estava ali fazia alguns anos e tinha muitas histórias interessantes para contar sobre a sua convivência com os motoqueiros e as histórias que escutava deles. Muitas vezes, ela era a amiga, a conselheira sentimental, o carinho diário que esses motoboys encontravam, diante de seu local de trabalho. Contou-me que sua filha havia adoecido há algum tempo e precisava tomar muitos remédios caros para o tratamento, mas que, nesse momento, os motoqueiros, ao saberem de sua situação, faziam toda semana “uma vaquinha” de aproximadamente R$ 500,00, para ajudá-la a comprar os remédios. Disse-me que, se não fosse por eles, não saberia como iria conseguir arcar com os custos do tratamento de sua filha. Andréa me recebeu muito bem e me ajudou a conversar com os motoqueiros, chegando mesmo a chamar alguns, para que ficassem ali comigo conversando. Ela facilitou, já no primeiro dia, o meu contato com os responsáveis pelo local, pois pediu a um dos motoboys que o chamasse para fora do sobrado, a fim de que eu pudesse conversar com ele e contar os motivos de estar ali.

Enquanto o responsável não vinha me receber, segui conversando com a Andréa e com os motoqueiros que ali iam chegando, para lancharem, e, já nesse primeiro dia, pude perceber que uma convivência com os motoboys que trabalhavam ali, mesmo que curta, em função do curto tempo de que eu dispunha para ficar em São Paulo, seria muito rica e proveitosa para os objetivos deste trabalho. Com a vinda do responsável até mim, pude contar-lhe quem eu era e quais as minhas intenções. Ele foi muito acolhedor e se mostrou simpático aos meus interesses; todavia, revelou-me que a permissão somente poderia ser concedida por uma decisão em conjunto com o outro responsável.

Pediu meu telefone e me disse que ligaria mais tarde. Despedimo-nos e eu voltei para junto de outros motoqueiros, que tomavam seus cafés na Andréa.

Lá me conservei por toda a manhã, conversando com ela e com os motoqueiros que por ali passavam. Entrei em contato com muitas informações importantes e pude ter uma primeira aproximação com a lógica de funcionamento do lugar. Pude perceber que não precisaria entrar no sobrado para conseguir conversar com os motoqueiros, porque muitos vinham até a Andréa e, dentre eles, muitos se dispunham a conversar. Algumas conversas eram mais longas e sobre coisas importantes de seus cotidianos, ao passo que outras eram mais curtas e a respeito dos mais variados tipos de coisas. Nesse primeiro dia, após ter uma longa e proveitosa conversa com Leão, o Bombeiro e o Léo, tive que ir embora, já que tinha agendado um encontro com o Neka do Canal, logo após o almoço. Despedi-me da Andréa e parti.

Passado um dia da minha visita à Motofarma, o responsável pelo local ainda não havia entrado em contato comigo, para confirmar se eu poderia ou não passar a frequentar o local, para estar com os motoqueiros. Decidi voltar à Motofarma e falar pessoalmente com ele, para ver o que iria me responder. Ao chegar lá, pela segunda vez, fui muito bem recebido pela Andréa e por alguns dos motoqueiros com que eu tinha tido contato, no primeiro dia; antes de conversar com o responsável, pude estar com outros motoboys que tomavam seus cafés na Andréa. Ela pediu para que avisassem lá dentro que eu estava ali e que eu queria falar com o Rodolfo66. Ele, rapidamente apareceu no portão e me perguntou o que era exatamente o que eu queria. Temendo que entrar no sobrado fosse algo que não pudesse acontecer, por questões de segurança da empresa, e diante do fato de que, se ao menos, não se incomodassem com minha presença diária, na frente do prédio, pois isso já seria um grande ganho para mim, disse-lhe que gostaria do consentimento da empresa para que eu pudesse ficar ali fora, junto a Andréa, para conversar com os motoqueiros que se dispusessem a falar comigo sobre seu trabalho na cidade. Percebi que ele se aliviou e prontamente garantiu que não haveria o menor problema quanto a isso. Agradeci-lhe muito pela compreensão e pela ajuda e nos despedimos.

A partir desse momento, passei a frequentar, durante todas as manhãs da minha curta estada em São Paulo, a frente do prédio da Motofarma, na companhia da Andréa e dos motoqueiros que por lá passavam todos dias, para tomar seu café da manhã ou reforçar o que já tinham tomado em casa, a fim de dar conta da jornada que se seguiria quando retirassem suas entregas. Daquele lugar, pude perceber um clima de muitas

66 Nome fictício dado ao responsável pelo local, que tratou comigo a possibilidade de minha permanência

brincadeiras, gozações, piadas e solidariedade, que imperava entre os motoqueiros e que se confirmava em suas histórias. Estas também davam lugar a acontecimentos desagradáveis entre eles, como pequenas discussões e desconfianças, como em qualquer outro local de trabalho que eu já tenha frequentado. Notei, igualmente, que quase todos ali se tratavam e reconheciam os outros motoboys da cidade através de seus apelidos, visto que os nomes, muitas vezes, eram ignorados em seu cotidiano. Em minha permanência por lá, fui muito bem tratado por todos os motoqueiros, mas estabeleci uma convivência maior com nove deles: Léo, Marcelo, Hélio, Bombeiro, Café, Agrela, Eduardo, Leão e Deco67. Em nossas conversas, perguntei a eles se gostariam de ser apresentados em minha pesquisa com seu nomes verdadeiros, ou se prefeririam ser tratados por outros nomes. Todos, menos Leão e Deco, preferiram que eu falasse deles pelas denominações usuais com as quais os conheci.

67 Os dois últimos nomes são fictícios, atendendo ao pedido dessas pessoas, que preferiram fazer parte da

CAPÍTULO 4 – OS MOTOBOYS, A CIDADE E AS