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Foram organizados nas Figuras 68, 69 e 70 exemplos de espaços livres privados do bairro Buritis, levando em conta a ordem cronológica em que foram implantados no local.

Figura 67 - Espaços livres privados - A

Fonte: Google Street View (2016), adaptado pela autora.

Os espaços livres privados, por sua vez, constituem um sistema paralelo e totalmente articulado e interligado, ao menos funcionalmente com o sistema de espaços públicos. Alguns autores preferem o uso do termo conjunto para sistema de espaços livres privados.

De fato, não estão conectados entre si fisicamente, não podendo ser, no Brasil e na maioria dos países do mundo, ao menos visualmente acessados pelo cidadão comum, devido à barreira de muros, cercas e paredes que os circulam, sendo que pátios, quintais e jardins são espaços de uso e acesso restrito de seus proprietários, mesmo que visualmente sejam acessíveis ao público passante (MACEDO, 2012).

A relação que existe entre os espaços públicos e privados é complementar e funcional. Entende-se que há uma relação de total dependência entre ambos os espaços e que qualquer dos atributos de um completam e enfatizam do outro, compensando as limitações e vantagens mútuas (MACEDO, 2012).

Figura 68 - Espaços livres privados - B

A Figura 68 - 1 trata de um espaço poliesportivo pertencente ao Uni-BH. Nele, além das competições internas da faculdade e do uso regular dos alunos, ainda são realizados competições e eventos externos como a “Academia da Cidade”, com aulas de ginástica gratuitas para a comunidade patrocinadas pela PBH, festas juninas da Paróquia Santa Clara de Assis, apresentações de bandas de música, entre outros. Na mesma imagem, à direita está o estacionamento da BHTRANS.

Já a Figura 68 - 2 indica uma das primeiras zonas a serem ocupadas no bairro, na década de 1970, que podem ser identificadas na Figura 69. Essa região foi formada basicamente por uma expansão do bairro Palmeiras, que antes da década de 1970 já havia sido formado a noroeste do atual Buritis. Consequentemente, nota-se que a tipologia das residências ali presentes se aproximam mais com aquelas pertencentes ao bairro vizinho, do que com o próprio Buritis. Trata-se também do único aglomerado do bairro considerado como vila ou favela.

A Figura 68 - 3 diz respeito aos prédios residenciais localizados na rua Magnavacca, pertencentes à primeira fase de verticalização do bairro Buritis, na década de 80. Tais habitações correspondem a uma tipologia muito comum no período, tratando-se de conjuntos habitacionais verticais compostos por um ou mais torres de três ou quatro pavimentos, construídos de forma a ocupar praticamente todo o lote. Do pilotis é feito um espaço para garagem e poucas eram aqueles que possuíam algum espaço de convivência além dos estreitos jardins frontais.

Assim como a anterior, a figura 68 - 4 retrata o período morfológico de verticalização do bairro Buritis especialmente característica da década de 90. Geralmente, pôde-se observar no lote a construção de uma torre de cerca de dez pavimentos, cujos primeiros andares são ocupados por garagens geminadas em suas divisas laterais. No andar intermediário entre a torre e os carros é feita a colocação de salões de jogos e festas, piscinas e playgrounds. Esse fato – que corresponde à eliminação das atividades domésticas ao nível do chão e o seu fechamento entre paredes – é básico na caracterização do novo espaço urbano que, liberado das atividades de serviço, passa a se destinar todo à circulação, ao estar de pedestres e veículos (MACEDO, 2012).

Nos locais, nos quais se configura o processo de verticalização a partir desta forma de organização do espaço urbano, as atividades ao ar livre e junto a habitação, outrora destinadas aos jardins e quintais, devem ser feitas no espaço público das ruas, calçadas, praças, ou ainda se recolhem para dentro da habitação, ou são simplesmente suprimidas (MACEDO, 2012). É válido ressaltar que, nesse período, o bairro Buritis ainda se encontrava com uma elevada disponibilidade de lotes vagos, e, além disso, a rua ainda se oferecia à população –

especialmente às crianças – como um espaço de convivência, visto que o movimento de carros e a violência não eram tão ameaçadores.

Figura 69 - Espaços livres privados - C

Fonte: Google Street View (2016), adaptado pela autora.

Os prédios sobem em altura à medida que novas técnicas construtivas são introduzidas e criam-se pressões para o aumento de índices de aproveitamento do solo urbano. Esse processo induz novas formas de encarar a habitação e consequentes maneiras diferenciadas no uso dos espaços livres urbanos. São criados novos perfis da paisagem, que ora substituem formas tradicionais de vida, hábitos, vizinhança, hierarquias espaciais e funcionais culturalmente arraigadas e estruturam morfologicamente setores, configurando novos modelos urbano- paisagísticos. Dentro do lote se estabelecem formas particulares de acesso à habitação, apoiadas no uso do elevador, socializam-se os estacionamentos, jardins e eventuais equipamentos de lazer, propriedade de um conjunto de famílias – o condomínio –, o que implica na perda de possibilidade de intervenção direta do indivíduo no espaço livre junto à habitação. Além disso, modificam-se nas áreas verticalizadas as relações de vizinhança, como a antiga conversa no muro e na calçada, típica de bairros horizontais, que é drasticamente reduzida (MACEDO, 2012).

Isoladas em seus prédios e espaços de lazer privados, as crianças, por exemplo, pouco ou nenhum contato têm com seus vizinhos de muro, caracterizando o que é retratado pela Figura 68 - 4 e Figura 71, que indicam mais de uma dezena de edifícios localizados na rua Henrique Furtado Portugal do bairro Buritis (VACCARINI, 2015). Nesse local as áreas de lazer dos edifícios são vizinhas imediatas, porém não intercomunicadas. A inexistência de muros divisórios no interior das quadras poderia acrescentar aspectos positivos e negativos: maior socialização e mais conflitos.

Figura 70 - Diagrama com imagens aéreas de edifícios residenciais do Buritis

Fonte: Vaccarini (2015), adaptado pela autora.

A Figura 68 - 5 e a Figura 72 correspondem a um condomínio residencial horizontal localizado no quarteirão 93, desmembrado em 2004, compreendido entre as ruas Henrique

Badaró Portugal, José Silveira e Maria Heilbuth Surrete. O projeto do loteamento (CP273009M) aprovado em 27 de novembro de 1992 previu um quarteirão destinado a clube recreativo com área de 67.448,00 m2 que posteriormente teve o uso alterado.

O córrego da Ponte Queimada não foi desenhado na planta. Em 26 de dezembro de 2015, as informações do quarteirão 93 são suspensas conforme acordo judicial e parecer do COMAM, contidos no processo nº 01.100 394/95.54. E, em 22 de abril de 2004 (CP273022A) foi feito um desmembramento do mesmo e a marcação do córrego e da faixa não edificante de 30 metros de cada lado do curso d’água.

Figura 71 - Quarteirão 93 e córrego da Ponte Queimada CP273009M.

Aprovação data: 27/11/1998.

CP273022A. Aprovação data: 22/04/2004.

Vista aérea de 2002 do Google Earth. Vista aérea de 2014 do Google Earth. Fonte: Plantas on line da PBH e Google Earth (2014).

O espaço deixa de ter a destinação de clube recreativo e são construídos, pela mesma construtora, dois condomínios residenciais. O primeiro é composto por 70 residências geminadas de dois pavimentos, 134,00 m2 cada unidade, 140 vagas de garagem, construído em 2006 (parte superior da imagem de 2014, acima). Já o segundo, ano 2012, é constituído por quatro torres de edifícios com 568 apartamentos de 64,02 m2 a 99,24 m2 e 739 vagas de garagem. Ambos possuem áreas de lazer e destaque de publicidade para a área preservada ao longo do córrego da Ponte Queimada. Em apenas seis anos, período de valorização no mercado imobiliário, houve um aumento do número de unidades habitacionais em detrimento da área

das unidades, num bairro com vias já saturadas pelo trânsito intenso de veículos. E a possibilidade de um espaço de lazer coletivo é substituída pelo espaço privado.

A Figura 69 - 6 refere-se a uma nova tipologia de habitações que se tornou comum na última década: condomínios verticais, compostos por três ou mais torres, com muitos pavimentos cada e com áreas de lazer generosas.

Durante a primeira década do século XXI, uma série de novos elementos são criados pelo mercado imobiliário e seus agentes, para incrementar os espaços livres dos condomínios verticais mais ricos, de modo a atrair clientes/compradores para seus produtos. São espaços muitas vezes temáticos, como pequenas praças, jardins, espaços gourmet, piscinas, salões de festas, playgrounds, formando um conjunto completo de espaços para amenidades para o cotidiano. Essas novas “superquadras”, ao contrário das suas congêneres de Brasília, são propositalmente isoladas fisicamente do restante da trama dos espaços livres de edificação públicos – das ruas, das praças, da vida urbana (MACEDO, 2012). Esse isolamento pode ser verificado na Figura 69 - 6, a qual indica os muros de cerca de quinze metros voltados à rua que possui um condomínio do bairro Buritis localizado na rua Stella Hanriot.

Entre as formas de alteração da paisagem urbana, aquelas resultantes do processo de verticalização são, com certeza, das mais radicais em relação à transformação de um setor urbano qualquer. Elas são responsáveis pela alteração morfológica e funcional de grandes segmentos da cidade, estabelecendo um aumento da demanda por infraestrutura de serviços e acessos, de modos e formas de circulação e lazer (MACEDO, 2012). Daí, salta aos olhos a importância da conservação e manutenção dos espaços livres públicos de bairros densamente povoados, como, por exemplo, no caso do PMAPS no contexto do bairro Buritis.

Ainda mais recente a Figura 69 - 7, indica uma retomada dos ideais dos condomínios residenciais horizontais, porém, diferentemente da Figura 68 - 5, na qual foi construído o conjunto habitacional fechado em um quarteirão, elas são independentes, separadas por muros e com áreas de lazer individualizadas. A retomada da ideia de condomínio vem do fato de os moradores apresentarem o hábito de fechar a rua com cones e uma guarita, trazendo uma noção de privatização da rua, que é por excelência um espaço público. A partir da análise dos espaços livres privados, agrupando-os por tipologias das edificações e os períodos morfológicos, foi elaborada a Figura 73.

Figura 72 - Evolução das tipologias de residências no bairro Buritis

Fonte: Elaborado pela autora.

Na Figura 69 - 8 consta o córrego Cercadinho, em um ponto que corre em leito natural próximo à rua Pedro Laborne Tavares. Trata-se de um terreno privado que é utilizado por crianças e adolescentes. Nesse local, elas costumam brincar e banhar-se no córrego em dias de calor. Tendo em vista que a água é imprópria para o banho e consumo, não é indicado que esse contato com o manancial ocorra de forma tão direta. Para esse local foi criada a categoria “Espaços Livres Privados a serem Preservados”.

Cabem também nesse conjunto os terrenos indivisos situados: entre o PMAPS e a Estação Ecológica do Cercadinho, Figura 70 - 13 – o qual promoveria uma continuidade entre os dois espaços e diminuiria o efeito de borda; o trecho de mata ciliar no quarteirão 93, o córrego da Ponte Queimada, Figura 69 - 11, e o próximo à rua Dr. Javert Barros, no terreno adjacente à subestação da CEMIG.

A recuperação da mata ciliar e a despoluição dos córregos – nos quais há a nítida deposição de esgoto doméstico e industrial – é estritamente necessária. Essa importância vem não só da necessidade de preservação dos ecossistemas ali existentes, mas da manutenção da qualidade ambiental do entorno e melhoria da relação das pessoas com os córregos.

Há também, na Figura 69 - 10 aqueles locais definidos como “Espaços Livres Privados de Uso Público”. Aqueles localizados no entorno do Uni-BH e da BHTRANS já são atualmente utilizados. Entretanto, na rua Laura Soares Carneiro, Figura 69 - 12, no local onde foram demolidos os dois edifícios condenados ao desabamento, há um grande platô de cerca de 1.300 m2, que não está sendo utilizado. Caso fosse desapropriado pelo município, esse local, cuja estrutura está pronta e estável, possui um grande potencial para a implantação de diversos tipos de equipamentos públicos que poderiam atender o bairro, tais como a implantação de uma praça, de um mirante, ou mesmo de uma quadra poliesportiva.