A capacidade/habilidade/aptidão/competência/talento (ability) para projectar é fruto da inteligência humana e é uma das actividades que a distingue dos outros animais e (por enquanto) das máquinas. Esta aptidão é natural e distribuída por todos os seres humanos, comprovada desde os artefactos desenvolvidos por civilizações primitivas até aos mais sofisticados produtos existentes no mundo de hoje [Cross, 1998]. No entanto, há pessoas com maior aptidão para a prática de projectos do que outras, quer seja por herança genética quer seja por desenvolvimento dessa aptidão por via social ou educacional (formação). Foi nas décadas de 50 e 60 do século passado que apareceram os primeiros estudos que explicavam a actividade de projectar do ponto de vista cognitivo [Coley et al., 2007], tentando compreender o modo de pensar dos projectistas, e a partir de finais dos anos 80 começaram a surgir vários trabalhos de investigação nessa área.
Nos últimos anos, os estudos da componente cognitiva da actividade de projecto (design
cognition), ou seja, a compreensão da racionalidade subjacente aos problemas de projecto e
ao modo como os mesmos são resolvidos, têm aumentado continuadamente [Liu et al., 2009], existindo trabalhos de investigação (research) que abrangem uma vasta gama de tópicos na área de projecto, tais como, o processo cognitivo do projecto, o comportamento cognitivo dos projectistas, ou o estudo dos métodos desenvolvidos para capturar o comportamento cognitivo dos projectistas.
O sucesso do projecto está, também, muito dependente das competências próprias do projectista (conhecimentos de matérias básicas – física, matemática, desenho, tecnologia, órgãos de máquinas, etc.), da sua criatividade, da sua capacidade para visualização no espaço, da habilidade para representar as suas ideias em desenhos e, ainda, muito dependente daquilo que habitualmente se designa pela “sensibilidade do projectista”, a qual é adquirida ao longo da sua experiência profissional [Coley et al., 2007], [Ullman et al. 1990], [Ullman, 1997], [Cross, 1998].
Existe actualmente uma grande variedade de métodos, que têm sido utilizados com o objectivo de compreender o processo mental executado pelos projectistas durante a actividade de projectar, abrangendo os vários tipos de projectos e os vários graus de
experiência dos projectistas, desde os iniciados (noviços) aos projectistas mais experientes e conceituados [Cross, 1998].
Segundo [Coley et al., 2007], os métodos correntemente mais utilizados são:
- A “protocol analysis”, que se tornou uma técnica popular, mas que tem sérias limitações; - Pensar alto (thinking aloud);
- A observação dos esboços dos projectistas que, para muitos, constitui a visualização dos
seus pensamentos, servindo os mesmos para memorizar e registar conceitos;
- A etnografia, que se tem revelado um método bastante útil;
- Relativamente ao método de escrever no diário não foram obtidos resultados
bem-sucedidos;
A investigação sobre a resolução de problemas distingue claramente problemas que não são de projecto (non-design problems), tais com problemas matemáticos (bem definidos) e problemas de projecto (mal definidos) e de resposta aberta. Para resolver problemas de projecto, os projectistas criam subtarefas para realizar a solução da forma mais eficiente. Por tal motivo, as competências e as características individuais alteram o processo de projectar e o resultado final do seu trabalho. Este facto constitui uma desvantagem para os modelos dos processos de projectar, uma vez que, embora os projectistas sigam todos os passos e recomendações do modelo, o resultado não será universal.
Por outro lado, é reconhecido que a resolução dos problemas de projecto varia consoante o nível de experiência do projectista, tendo-se sido verificado que os projectistas noviços seguem mais um modelo de tentativa e erro, enquanto os mais experientes têm mais capacidade para avaliar os conceitos na fase inicial, reduzindo o tempo para realizar a solução final.
Mark A. Robinson [Robinson et al., 2005] apresenta o método utilizado para identificação de competências próprias do ser humano que facilitam a execução das tarefas de projecto, conforme defendido pelas abordagens baseadas em competências, tendo identificado o perfil do engenheiro projectista do futuro, como sendo composto por 42 competências, as quais poderiam ser agrupadas nas seis categorias seguintes (por ordem decrescente de criticidade):
- Atributos pessoais; - Gestão de projectos; - Estratégias cognitivas; - Aptidões cognitivas; - Aptidões técnicas; - Comunicação.
Neste estudo, foram detectadas evidências de mudança no perfil do engenheiro projectista, o que demonstram que apesar de as competências técnicas se manterem no futuro, a sua importância, comparativamente com competências não técnicas, deverá decrescer.
A capacidade para visualização no espaço e a habilidade para representar ideias em desenhos, ou noutras representações gráficas, são as competências que mais ajudam o projectista na realização das suas tarefas de projecto, verificando-se que, regra geral, todos os projectistas têm uma grande capacidade de visualização no espaço e uma grande facilidade em se exprimirem através de representações gráficas.
Pelas razões mencionadas por David G. Ullman [Ullman et al. 1990], Nigel Cross [Cross 1998], A. T. Purcell and J. S. Gero [Purcell et al. 1998], Vinod Goel [Goel,1995] e Bryan Lawson [Lawson,2004], entre outros, a prática de representar graficamente, por esboços, desenhos, diagramas, esquemas, etc., desempenha um papel importantíssimo na actividade de projectar.
Embora a Humanidade pratique a actividade de projectar há milhares de anos e exista uma infinidade de produtos que funcionam, e que funcionam bem, a necessidade de estudar e aperfeiçoar o processo de projectar resulta da exigência continuada de novos produtos, de elevada qualidade e a custos reduzidos, para que as empresas consigam sobreviver num mercado global e cada vez mais competitivo [Ulman, 2010].
Tal como David Ullman, que descreve no prefácio do seu livro “The Mechanical Design
Process” [Ullman, 2010] que, apesar da sua facilidade em fazer projecto e da sua vasta
que ele fazia tão naturalmente – projectar – também outros autores sentiram a necessidade de desenvolver teorias que descrevessem a actividade de projectar.
Nas suas aulas de projecto, Ullman podia mostrar exemplos de projectos de boa qualidade e projectos de má qualidade; podia relatar casos concretos de actividades desenvolvidas por projectistas; podia sugerir ideias para projectar, no entanto, não conseguia dizer-lhes o que deveriam fazer para resolver um problema de projecto, sem uma descrição racional e sistemática do processo de projectar.
Ullman relata um episódio em que, ao tentar patinar de costas, o instrutor lhe disse que observasse o que ele fazia e fizesse igual. Face ao insucesso do método, ele compreendeu a frustração dos seus alunos, que não conseguiam obter bons resultados com o método de ensino de mostrar bons e maus exemplos.
De um modo geral, os trabalhos existentes, relacionados com o tema desta tese, têm como objectivo comum a racionalização do processo de projectar, utilizando métodos e ferramentas cuja utilização reduz a subjectividade do processo de projectar, especialmente na criação de produtos que permitam obter as funcionalidades pretendidas, maximizando a eficiência da combinação de materiais, energia, informação, com vista a reduzir os custos inerentes a todo o processo.
Os estudos existentes apresentam justificações racionais para muitos dos procedimentos seguidos pelos projectistas, proporcionando uma maior consciencialização das razões que conduzem ao seguimento de determinados métodos e a aplicação de determinados princípios, para que estes processos possam ser percebidos e apreendidos por novos projectistas.
De um modo geral, esta tendência tem sido seguida em diversas áreas onde se realiza projecto, como é o caso do projecto de software (entidades imateriais) [Friedrich, 1996]. Para que seja possível ensinar a projectar ou para que seja possível criar máquinas capazes de realizar tarefas de projecto na área conceptual, é necessário compreender as formas de elaboração mental, incluindo a tomada de consciência dos processos cognitivos e dos critérios que regem as decisões dos projectistas, bem como estabelecer teorias e modelos que reduzam a subjectividade do processo.
Relativamente ao ensino da actividade de projecto e à transmissão de conhecimentos dos projectistas mais experientes (que se vão reformando) para os mais novos que se iniciam na profissão, deverão ser utilizados outros métodos que não apenas daquele que consiste em mostrar exemplos de soluções bem-sucedidas e mal-sucedidas.
Quanto às máquinas, podemos dizer que estas não devem servir para executar as tarefas que as pessoas gostam de executar e nas quais são competentes, mas sim para executar as tarefas que são árduas e difíceis de executar para os seres humanos e que estes não conseguem levar a cabo sem ajuda [Cross, 1998].