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Antes de usar o HYPO71(Lee & Lahr, 1975) num modelo de semi-espaço, necessita- se determinar, inicialmente, os valores da velocidade das ondas P (VP) e a razão entre as velocidades das ondas P e S (k=VP/VS). O modelo do semi-espaço foi escolhido para este estudo, pois o mesmo tem sido usado com êxito no estudo da atividade sísmica do Nordeste do Brasil (Ferreira et al., 1987, 1995, 1998 e 2008; Takeya 1992; do Nascimento, 1997; França, 1999, França et al. 2004; Vilar, 2000).

Para determinar o modelo de velocidades inicialmente foi preciso obter um conjunto de dados confiáveis, partindo dos dados iniciais dos 230 sismos locais de São Caetano. Primeiramente foram considerados somente os eventos registrados em pelo menos cinco estações. O diagrama Wadati (Wadati, 1933, apud Kisslinger & Engdahl, 1973) foi o critério considerado para conferir a consistências dos dados. No diagrama Wadati a diferença nos tempos de chegada das ondas P e S (tS-tP) e a diferença entre o tempo de chegada da onda P e a hora de origem do sismo (tP-tO) são representados graficamente. Idealmente o gráfico é uma reta passando pela origem, com coeficiente angular dado por a=(VP/VS)-1 (Kisslinger & Engdahl, 1973).

A partir de um conjunto de dados inicial de 230 eventos restaram 78 eventos com leitura do tempo de chegada das ondas P e S em pelo menos cinco estações, descartando-se as leituras acima do dobro do valor do desvio padrão, em relação a reta determinada por mínimos quadrados(figura 3.1).O valor do coeficiente angular obtido foi a= 0,688±0, 004, isto é, k= VP/VS= 1,688±0,004.

Os 78 eventos consistentes usados no diagrama Wadati foram utilizados na determinação da velocidade VP e razão VP/VS, consideradas constantes, ou seja, não variam lateralmente, nem com a profundidade nem com o tempo. O diagrama Wadati serviu como critério para separar um conjunto de dados confiáveis que foram utilizados para obter o modelo de velocidades.

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Figura 3.1--Diagrama Wadati dos sismos selecionados para a obtenção dos parâmetros do modelo de velocidades. (P-O) é a diferença entre o tempo de chegada da onda P e a hora de origem. (S-P) é a diferença entre o tempo de chegada da onda S e da onda P.

O critério inicial, para a escolha dos melhores parâmetros para o modelo de velocidades, foi selecionar todos os conjuntos de parâmetros que satisfazem a seguinte condição: RMS1≤0,001 s; ERH2 ≤0,3 km; ERZ3≤0,3 km. Foi observado que um total de 11 conjuntos satisfez a condição inicial (tabela 3.1). Isso foi feito variando a velocidade VP de 5,0km/ a 6,4km/s e a razão VP/VS de 1,60km/s a 1,74km/s. Os valores foram calculados com auxílio do programa HYPO71.

1 Média do erro quadrático médio do desvio no tempo dos 78 eventos. 2

Média do erro horizontal médio dos 78 Eventos.

Como os 11 conjuntos de parâmetros satisfizeram a condição inicial, foi necessário utilizar critérios adicionais para escolher o melhor conjunto de parâmetros. Esses critérios foram os seguintes: máxima quantidade de eventos com rms ≤0,02 (N2); máxima quantidade de eventos com rms ≤0,01(N1); menores erros possíveis de ERZ e ERH. Outro critério adicional foi a proximidade do valor de k=VP/VS da posição central. Observando a tabela 3.1 percebe-se que o melhor modelo que se enquadra dentro dos critérios é o modelo número 8, ou seja, o que possui k= VP/VS= 1,70 e VP= 5,90 km/s. O valor de k é praticamente igual ao encontrado pelo diagrama Wadati, de forma independente. Esse conjunto de parâmetros foi utilizado em todos os cálculos que se seguiram.

Nª VP/VS VP(km/s) N2 RMS (s) ERH (km) ERZ (km) N1 1 1,60 5,35 53 0,017 0,111 0,119 12 2 1,62 5,45 56 0,017 0,111 0,120 12 3 1,64 5,55 55 0,017 0,111 0,115 15 4 1,66 5,70 56 0,017 0,112 0,116 15 5 1,67 5,75 54 0,018 0,115 0,124 11 6 1,68 5,80 57 0,016 0,107 0,118 17 7 1,69 5,85 57 0,017 0,107 0,118 17 8 1,70 5,90 56 0,016 0,105 0,116 18 9 1,71 5,95 56 0,016 0,104 0,116 18 10 1,72 6,00 56 0,017 0,102 0,116 16 11 1,74 6,15 54 0,016 0,111 0,117 16

Dissertação de Mestrado – PPGG –UFRN Lima Neto, H.C. 46 3.2-Determinação dos hipocentros

Durante o período de operação da rede de São Caetano, praticamente 6 (seis) meses, a mesma registrou 259 eventos. Desses 259 sismos registrados, 230 são sismos locais de São Caetano (distância epicentral menor que 10 km). Dos sismos locais, 214 foram registrados em pelo menos 3 estações. Todos eles foram analisados utilizando-se o programa SAC (Tapley W.C. & J.E. Tull, 1991). Foram calculados os hipocentros, utilizando-se o programa HYPO71(Lee & Lahr, 1975) com os parâmetros que foram anteriormente apresentados (modelo do semi-espaço, k= VP/VS = 1,70 e VP= 5,90 km/s).

As figuras 3.2, 3.3, 3.4, 3.5 e 3.6 mostram a configuração da distribuição das estações sismográficas da rede de São Caetano e a localização dos epicentros dos sismos ocorridos no período em que cada configuração da distribuição das estações foi utilizada.

Figura 3.2-Rede inicial de São Caetano. Os quadrados representam a localização das cidades de São Caetano e Caruaru, os círculos (profundidade h <4 km) e quadrado (4 km< h ≤ 6km) representam os epicentros dos sismos ocorridos entre os dias 01/02/2007 até 19/03/2007 e a estrela corresponde ao epicentro do sismo de magnitude 3,7 mb ocorrido no dia 20/03/2007. NO (número de observações) ≥6, Gap ≤ 180º, rms ≤0.03 s, erh ≤0.3 km e erz ≤0.3

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Figura 3.3-Os pequenos círculos (profundidade h <4 km), quadrados (4 km< h ≤ 6km) e triângulos (6km < h ≤ 8km) representam os epicentros dos sismos locais com NO≥ 10, Gap ≤ 180º, rms ≤ 0.03 s, erh ≤0.3 km e erz ≤0.3 km ocorridos após o sismo de magnitude 3,7mb entre os dias 20/03/2007 até 01/04/2007.

Figura 3.4- Nova distribuição de estações. Os epicentros dos sismos entre 02/04/2007 até 18/06/2007. Os pequenos círculos ( profundidade h <4 km), quadrados (4 km< h ≤ 6km) e triângulos (6km < h ≤ 8km). Os sismos representados nessa figura possuem NO ≥ 10, Gap ≤ 180º, rms máximo ≤0.03 s, erh máximo ≤0.3 km e erz máximo

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Figura 3.5-Distribuição final das estações: seis estações digitais de período curto (triângulos vermelhos) e uma estação analógica (triângulo verde). Os pequenos círculos ( profundidade <4 km), quadrados (4 km< profundidade ≤ 6km) e triângulos (6km < profundidade ≤ 8km) representam os epicentros dos sismos registrados do dia 18/06/2007 até 28/07/2007 com Gap ≤ 180º, NO ≥ 10, rms máximo ≤0.03 s, erh máximo ≤0.3 km e erz máximo ≤0.3 km

Na figura 3.7 são mostrados todos os sismos que ocorreram na região que foram registrados em pelo menos 5 estações (número de observações, NO ≥10) com erro quadrático médio (rms) ≤ 0,03; erro médio horizontal (erh) ≤ 0,3 km e erro médio vertical (erz) ≤ 0,3 km e com , valor em graus, de maior separação azimutal entre as estações (gap) ≤ 180º. De acordo com essa figura, os sismos apresentam uma distribuição predominante na direção NE- SW acompanhando uma ramificação nordeste do Lineamento Pernambuco.

Figura 3.6- Distribuição dos epicentros dos sismos registrados na região de São Caetano com NO≥10, Gap ≤ 180º, rms ≤0,03 s, erh≤ 0,3 km, erz≤ 0,3 km na ramificação nordeste do Lineamento Pernambuco. Os pequenos círculos ( profundidade <4 km), quadrados (4 km< profundidade ≤ 6km) e triângulos (6km < profundidade ≤ 8km)

Dissertação de Mestrado – PPGG –UFRN Lima Neto, H.C. 52 3.3-Mecanismo Focal.

Para determinação do mecanismo focal composto através do programa FPFIT, foram utilizados 14 eventos selecionados (tabela 3.2). Só foram utilizadas as polaridades de excelente qualidade das ondas P registradas (P0). O resultado da determinação do mecanismo focal composto (azimute, mergulho e rake), se encontra na tabela 3.3 e está representado na figura 3.7.

DATA Origem LAT S LONG W Prof NO GAP DMIN rms erh erz QM

070420 1430 53,21 8-15,69 36- 9,57 4,64 12 108 1,1 0,01 0,1 0,1 B1 070519 0328 04,02 8-15,65 36- 9,45 4,66 12 119 1,3 0,01 0,1 0,1 B1 070520 2344 38,44 8-15,68 36- 9,54 4,77 10 130 1,2 0,01 0,1 0,1 B1 070523 0707 17,13 8-15,48 36- 9,53 4,28 12 121 1,1 0,01 0,1 0,1 B1 070523 0757 22,67 8-15,51 36- 9,61 4,40 12 117 1,1 0,01 0,1 0,1 B1 070523 1207 51,30 8-15,49 36- 9,57 4,12 16 073 1,1 0,01 0,1 0,1 A1 070524 0354 56,74 8-15,52 36- 9,68 4,13 15 075 1,4 0,01 0,1 0,1 A1 070524 2331 09,26 8-15,58 36- 9,58 4,16 13 096 1,1 0,01 0,1 0,1 B1 070526 0239 09,14 8-15,54 36- 9,60 4,44 12 119 1,1 0,01 0,1 0,1 B1 070527 2113 15,11 8-15,53 36- 9,61 4,37 13 122 1,1 0,01 0,0 0,0 B1 070530 0813 21,65 8-15,59 36- 9,51 4,35 13 080 1,2 0,01 0,1 0,1 A1 070602 2133 34,74 8-15,54 36- 9,54 4,30 11 132 1,2 0,01 0,1 0,1 B1 070606 0917 53,76 8-15,67 36- 9,27 5,01 10 139 1,2 0,01 0,1 0,1 B1 070617 0356 26,70 8-15,78 36- 9,27 5,24 13 142 1,4 0,01 0,1 0,1 B1

Tabela 3.2- Lista dos eventos utilizados para a determinação do mecanismo focal utilizando o programa FPFIT.

Azimute Mergulho Rake

Solução (FPFIT) 43º±15º 59º±9º -142º±15º

Como já foi explicado anteriormente, o programa FPFIT (Reasemberg & Oppenheimer, 1985) busca, numa malha, as soluções que minimizam uma média ponderada de discrepância nas polaridades, considerando a variância estimada dos dados e a amplitude de radiação da onda P (Reasemberg & Oppenheimer, 1985). É importante também lembrar que embora a solução dada pelo FPFIT seja estatisticamente a melhor, ela não pode ser adotada sem uma análise crítica (Reasemberg & Oppenheimer, 1985). Sempre que for possível outro parâmetro, como a direção e o mergulho da distribuição dos hipocentros, devem ser considerados.

A figura 3.7 mostra o resultado do mecanismo focal composto utilizando o programa FPFIT para os 14 eventos selecionados (Reasemberg & Oppenheimer, 1985).

Figura 3.7- Mecanismo focal composto utilizando o FPFIT. Hemisfério inferior, projeção de igual área.Os símbolos de + (mais) denotam primeiro movimento compressivo e o símbolo Ο (círculo vazio) denota regiões de dilatação.

Dissertação de Mestrado – PPGG –UFRN Lima Neto, H.C. 54 Este estudo propõe uma outra solução para o mecanismo focal composto. Para propor esta outra solução do mecanismo focal composto, a direção e o mergulho dos hipocentros foram considerados na solução.

Na figura 3.8 são mostrados os mesmos eventos da figura 3.6 em escala ampliada. De acordo com essa figura os sismos apresentam uma distribuição predominante aproximadamente NE-SW e uma clara correlação espacial com uma das ramificações para nordeste do Lineamento Pernambuco. Para se visualizar melhor a situação existente e tentar se determinar com segurança, a direção do plano de falha das possíveis falhas foram feitas duas projeções: uma projeção vertical num plano paralelo à falha mapeada e uma projeção vertical no plano perpendicular à essa mesma falha.

A figura 3.8a mostra a distribuição dos sismos no plano cartográfico, as setas verdes b e c indicam, respectivamente, a direção da projeção vertical no plano paralelo a falha e no plano vertical perpendicular a falha. O ponto central para essas projeções está na origem das setas b e c. A figura 3.8b mostra a projeção vertical no plano paralelo à falha mapeada e a figura 3.8c mostram a projeção vertical no plano perpendicular a essa falha.

Na figura 3.8c é possível perceber três distribuições hipocentrais no plano vertical perpendicular a falha. A primeira com sismos mais rasos (profundidade de até 4 km) representados por círculos, a segunda distribuição é o agrupamento principal com sismos (profundidade acima de 4 km e até 6 km) representados por pequenos quadrados e a última distribuição é composta por sismos mais profundos registrados na região de estudo (profundidade maior que 6 km e até 8km) indicados por pequenos triângulos. Os 14 sismos selecionados para o mecanismo focal composto estão no agrupamento principal.

No que se refere às projeções verticais perpendiculares a falha, para esses agrupamentos deve haver alguma explicação real. Isso pode estar possivelmente associado a estruturas, pois os dados utilizados são de excelente qualidade, e não ter sido gerado por problemas na precisão da determinação dos hipocentros.

Figura 3.8- Sismos com rms ≤ 0.03 s, erh ≤ 0,3 km, erz ≤ 0,3 km, gap ≤ 180º e NO ≥ 10 observações. A figura 3.8(a) mostra os sismos no plano do mapa e suas correlação espacial com as estruturas geológicas mapeadas, enquanto a figuras 3.8(b) mostra a projeção vertical no plano paralelo a falha e a figura 3.8(c) mostra a projeção vertical no plano perpendicular a falha. O ponto central das projeções está localizado na origem das setas a e b na figura 3.8(a). O dip (δ=55º) foi encontrado geometricamente para os 14 sismos selecionados para o mecanismo focal que estão localizados no agrupamento principal (ver Figura 3.9).

Dissertação de Mestrado – PPGG –UFRN Lima Neto, H.C. 56 Para a determinação do plano de falha e mecanismo focal foram selecionados os eventos que possuíam erro médio quadrático (rms) ≤0,01s, erro médio horizontal (erh) 0,1 km e erro médio vertical (erz) ≤ 0,1 km, com leituras de P e S (NO)= 10 observações e com valor em graus e gap ≤ 180º. Assim foram selecionados 14 eventos (tabela 3.2). Esses 14 eventos selecionados pertencem ao agrupamento principal que tem um total de 71 eventos.

Através da geometria (utilizando a projeção vertical no plano perpendicular a falha) foi calculado o ângulo de mergulho para os 14 melhores eventos. O mergulho mostrado é apenas para os 14 melhores eventos do agrupamento principal na figura 3.8c. A figura 3.9 mostra a distribuição espacial dos 14 eventos selecionados (3.9a) e as projeções nos plano vertical paralelo à falha (3.9b) e no plano vertical perpendicular à falha (3.9c) utilizando o mesmo ponto central da figura anterior para as projeções.

Figura 3.9- Sismos selecionados para o mecanismo focal (todos pertencem ao agrupamento principal). A figura (a) mostra os sismos no plano do mapa e suas correlação espacial com as estruturas geológicas mapeadas, enquanto a figura (b) mostra a projeção vertical no plano paralelo a falha; a figura (c) mostra a projeção vertical no plano perpendicular a falha. O dip (δ=55º) foi encontrado geometricamente para os 14 sismos selecionados.

Dissertação de Mestrado – PPGG –UFRN Lima Neto, H.C. 58 Para visualizar a distribuição de polaridades e os planos nodais dessa nova solução proposta para o mecanismo focal composto, foi utilizado o programa FPFIT (Reasemberg & Oppenheimer, 1985) para os 14 sismos selecionados que estão no agrupamento principal.

Desse modo, baseando-se na solução encontrada a partir da geometria, o mergulho foi fixado em 55º para os 14 eventos selecionados.O azimute foi fixado em 58º de acordo com a geometria da distribuição dos hipocentros dos sismos que acompanham a direção da ramificação para nordeste do Lineamento Pernambuco (fig 3.8) e baseado na existência de estações com alternância de polaridades, o que denota proximidade de um dos planos nodais. O rake foi fixado em -155º. Os valores dos demais parâmetros são mostrados na tabela 3.4. O mecanismo focal proposto é de um plano de falha na direção aproximada NE-SW, com movimento transcorrente dextral e com uma forte componente normal (Figura 3.10).

Agrupamento Azimute Mergulho Rake P-Azim. P-Merg. T-Azm, T-Merg.

Principal 58º 55º -155º 270º 41º 8º 9º

Tabela 3.4- Solução proposta por este estudo para o mecanismo focal composto feita com o auxílio do programa FPFIT, fixando o azimute em 58º, o mergulho em 55º e o rake em -155º.

A tabela 3.5 mostra a comparação dos resultados obtidos pelo FPFIT (Reasemberg & Oppenheimer, 1985) que estão na tabela 3.3 com a solução proposta por este estudo (tabela 3.4), percebe-se que a solução proposta está de acordo com a solução calculada pelo FPFIT (Reasemberg & Oppenheimer, 1985), pois os valores sugeridos para o azimute, mergulho e rake estão dentro da margem de erro que foi calculada pelo programa FPFIT (Reasemberg & Oppenheimer, 1985).

Azimute Mergulho Rake

Resultado (FPFIT) 43º±15º 59º±9º -142º±15º

Solução Proposta 58º 55º -155º

Tabela 3.5 Comparação entre o resultado calculado estatisticamente pelo FPFIT e a solução proposta para o mecanismo focal composto. Note que os valores propostos para o azimute, mergulho e rake estão dentro da margem de erro que foi calculada pelo FPFIT.

Para se ter uma melhor visualização da alternância de polaridades, foi criada a figura 3.11. Na figura 3.11a estão representadas as polaridades positivas e na figura 3.11b as polaridades negativas. Como se pode perceber, a estação SOFI apresenta todos os registros com polaridade positiva e as estações SOLC, SOMA e SOSL apresentam todos os registros com polaridades negativas, enquanto a estação SOVJ tem apenas um registro de polaridade negativa. As estações SOSD, SOJO e SOXI têm uma alternância de polaridades (-, +), que é algo característico de estações próximas aos planos nodais.

O mecanismo focal dos sismos mais rasos ( profundidade < 4 km) e dos sismos mais profundos ( 6 km < profundidade≤ 8km) infelizmente não foi possível calcular devido ao baixo número de polaridades.

Dissertação de Mestrado – PPGG –UFRN Lima Neto, H.C. 60

Figura 3.10- Mecanismo focal composto para os 14 eventos selecionados do agrupamento principal (4 km < profundidade < 6 km). Hemisfério inferior, projeção de igual área. Cruzes e círculos representam os primeiros movimentos compressivos e dilatacionais, respectivamente. P e T São os eixos de compressão e dilatação, respectivamente. FP indica o plano de falha.

Figura 3.11- Visualização da alternância de polaridades do mecanismo focal da figura 3.10, mostrando as polaridades separadamente. Na figura 3.11 a estão representadas as polaridades positivas e na figura 3.11b as polaridades negativas. FP indica o plano de falha.

Dissertação de Mestrado – PPGG –UFRN Lima Neto, H.C. 62 3.4-Discussão dos resultados obtidos

Este trabalho foi realizado utilizando-se uma rede que foi composta por até nove estações sismográficas, com registradores SMART24-R. Durante o período de coleta de dados foram usadas 3 configurações de distribuição das estações com o objetivo de ter uma boa cobertura azimutal dos sismos. A estação SOJO ficou praticamente sobre os epicentros, o que contribuiu para diminuição do erro vertical na localização dos sismos.

A direção do plano de falha foi determinada através da geometria da distribuição hipocentral que está correlacionada com a feição geológica superficial mapeada na área de estudo. O mergulho foi obtido graças à geometria dos hipocentros que foram vistos num plano vertical perpendicular a falha. Os valores da direção e do mergulho foram 58º e 55º, respectivamente, para os 14 sismos utilizados.

A solução do mecanismo focal composto proposta neste estudo, para os 14 eventos selecionados, foi obtida fixando os valores do azimute (58º), mergulho (55º) e rake (-155º) e a visualização da solução foi feita por meio do programa FPFIT (Reasemberg & Oppenheimer, 1985). Essa solução proposta está de acordo com a solução para o mecanismo focal composto calculada pelo FPFIT (Reasemberg & Oppenheimer, 1985), pois os valores para o azimute, mergulho e rake estão dentro da margem de erro calculada pelo programa (tabela 3.5) Esses 14 sismos ocorreram no período em que operaram as nove estações digitais. Os mecanismos focais do agrupamento dos sismos mais rasos (profundidade < 4 km) e mais profundos (6km< profundidade < 8 km) registrados na região de estudo não foram feitos, devido a quantidade insuficiente de polaridades. A falha tem orientação NE- SW, com movimento da falha transcorrente dextral com uma forte componente normal.

A distribuição hipocentral vista no plano vertical perpendicular à direção da falha (figura 3.8c) pode estar possivelmente associado à estruturas mapeadas, pois os dados utilizados são de excelente qualidade, e não possivelmente, ter sido gerado por problemas na precisão da determinação dos hipocentros.

CAPÍTULO 4 - SISMOTECTÔNICA

Há muito tempo é conhecido o fato de aproximadamente 90% da atividade sísmica global se encontrar nas regiões de fronteira de placas litosféricas (Sykes & Sbar, 1973), tendo, inclusive, a quantidade de sismos, assim como a magnitude e energia dissipada, servido como orientação na delimitação das placas.

Embora a sismicidade intraplaca seja responsável por somente uma pequena fração da energia liberada (10% p. ex., Jonhston, 1989), os danos podem ser relativamente importantes devido a baixa atenuação da litosfera nas regiões da crosta continental estável.

Os sismos de borda de placa não ocorrem aleatoriamente, mas são distribuídos nos limites das placas. Uma questão fundamental é saber se a distribuição dos tremores intraplaca é ou não aleatórias, que estruturas e fatores fazem uma dada região localizada, longe das bordas de placa, apresentar atividade sísmica.

De acordo com Sykes (1978), nos continentes, os sismos intraplaca tendem a se concentrar ao longo de zonas de fraqueza pré-existentes (incluindo zonas de falhamento, zonas de sutura, riftes abortados e outros limites tectônicos), particularmente aquelas próximas das margens continentais, foram reativadas durante os primeiros estágios da separação dos continentes. Sismos intraplaca que ocorrem em áreas da crosta continental estável têm sido explicados basicamente pela reativação de zonas de fraqueza preexistente, concentração de stress, ou ambos. Zonas de fraqueza são geralmente identificadas como lugares de maior orogenia, províncias da recente intrusão alcalina, ou estiramento da crosta em riftes. Em contraste, os sismos intraplacas raramente ocorrem dentro da litosfera oceânica antiga ou no interior de antigos blocos cratônicos continentais (Vauchez et al. 1995).

Os estudos anteriores da atividade s´simica do Nordeste Brasileiro (Ferreira et al. 1995, 1998), mostram que em muitos casos a atividade sísmica não tem relação com as falhas mapeadas nas zonas sísimicas.

No Nordeste brasileiro, a seqüência de terremotos ocorre na crosta superior com profundidades geralmente limitadas a uma média de 1-5 km. As profundidades das

Dissertação de Mestrado – PPGG –UFRN Lima Neto, H.C. 64 seqüências de sismo (João Câmara e Irauçuba) chegaram a 9km e 11km, respectivamente. Apesar da profundidade rasa deles, a clara correlação com qualquer seqüência de sismos com feições geológicas não tem sido ainda bem demonstrada (Ferreira et al. 1998).

A seqüência de João Câmara tem sido o melhor exemplo da falta de correlação clara entre a sismicidade e feições superficiais. A atividade ocorreu em profundidades rasas (indo de 1 a 9km) na orientação SW-NE da zona da falha sismogênica ao longo de 40km, claramente definida pela distribuição hipocentral. Entretanto, na época não foram observadas claras feições superficiais correlacionadas com falhas sismogênicas, apesar do trabalho de campo extenso levado a cabo após o início da seqüência de 1986. Recentemente, Bezerra et al. (2007) mostraram que existe uma correlação entre a direção geral do plano da falha determinada pelos sismos e a direção de veios de quartzo existentes na região (Figura 4.1). Nogueira (2008) mostrou que a distribuição da sismicidade está correlacionada com fontes profundas de anomalias magnéticas.

Até antes da atividade sísmica em Caruaru em 2002 (Ferreira et al. 2008), em dois casos anteriores havia sido possível sugerir uma possível correlação com feições geológicas superficiais. No reservatório de Açu (Ferreira et al. 1995) e a seqüência de sismos em Caruaru de 1991 (Ferreira et al. 1998).

O primeiro estudo que integrou dados sismológicos e estruturais para identificar um caso de reativação sísmica de uma zona de cisalhamento de escala continental na placa sul- americana foi realizado por Ferreira et al. (2008). A zona de cisalhamento do Lineamento Pernambuco contém topografias que apresentam uma clara expressão em fotografias aéreas e imagens de satélite e ambas são marcadas por milonitos e foliações regionais. Nesse estudo foi mostrado que a preexistência de cinturões miloníticos pré-cambrianos resultam zonas de fraqueza, as quais acompanham a localização da reativação sísmica em Caruaru. Pela integração de dados sismológicos e dados estruturais, foi estabelecida uma relação entre o campo de esforços (stress) presente e os cinturões de milonitos pré-cambrianos e enfatizada a importância de rochas miloníticas frágeis na reativação (Ferreira et al. 2008).

Figura 4.1--Mapa da área epicentral de João Câmara (JC) representado a geologia e a sismicidade. Os epicentros foram selecionados do conjunto de dados da rede telemétrica.O padrão de orientação na legenda indica a tendência das foliações (Adaptada para o português de Bezerra et al. 2007).

As atividades sísmicas de Caruaru que ocorreram 1984, 1991 e 2002 não aconteceram no mesmo lugar (Ferreira et al 1998, 2008). A atividade de 1991 ocorreu numa falha normal com tendência E-W similarmente orientada com o Lineamento Pernambuco, enquanto a atividade de 2002 ocorreu numa falha transcorrente de direção NE-SW (Ferreira et al. 2008). Apesar do mecanismo focal encontrado para a atividade sísmica em 2002 ser diferente do encontrado em 1991 por Ferreira et al. (1998), ambos os mecanismos, entretanto, estão em acordo com a compressão aproximadamente E-W e distensão aproximada N-S do regime de esforços (stress) na região.(Ferreira et al. 2008).

Os enxames sísmicos de Belo Jardim em 2004 e São Caetano 2006 foram os primeiros enxames sísmicos conhecidos nos respectivos municípios. O município de Belo Jardim está

Dissertação de Mestrado – PPGG –UFRN Lima Neto, H.C. 66 localizado a 31 km oeste de São Caetano.A atividade sísmica de Belo Jardim, persistiu por vários meses e a magnitude máxima registrada foi 3,1mb no dia 1 de junho de 2004. Os sismos foram sentidos pela população local com intensidade acima de VI MM. (Vasconcelos et al. 2008).

O município de São Caetano está localizado 20 km a oeste de Caruaru. Graças ao