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Conforme o autor, os campos são universos sociais relativamente autônomos, constituídos a partir da diferenciação progressiva do mundo social. Diversamente das sociedades modernas, as condutas nas sociedades antigas frente às questões econômicas, religiosas ou estéticas eram indiferenciadas, todavia, com a evolução das sociedades, surgem universos sociais dotados de leis próprias, com relativa autonomia, como os campos artístico, econômico, científico, dentre outros. (BOURDIEU, 1996c). No campo se estabelece uma classificação de signos, do que é adequado, do que pertence ou não a um código de valores. Porém, a estrutura do espaço social, espaço de posições sociais, não é imutável, esta permite analisar a dinâmica de conservação e transformação da estrutura de “distribuição de propriedades” (BOURDIEU, 1996b, p.50).

O conceito de campo é utilizado por Bourdieu (1996b) para referir a certos espaços de posições sociais onde determinados tipos de bens são produzidos, consumidos e classificados. Certos padrões culturais são considerados superiores e outros inferiores: distingue-se entre baixa e alta cultura, entre religiosidade e superstição, entre conhecimento científico e crença popular, entre língua culta e falar popular. Segundo o autor, os indivíduos:

[...] existem e subsistem na e pela diferença, isto é, enquanto ocupam posições

relativas em um espaço de relações que ainda que invisível e sempre difícil de

expressar empiricamente, é a realidade mais real (ens realissimum, como dizia a escolástica) e o princípio real dos comportamentos dos indivíduos e dos grupos (BOURDIEU, 1996b, p.48-49, destaques do autor).

Segundo Nogueira e Nogueira (2006), cada campo de produção simbólica seria palco de disputas – entre dominantes e pretendentes – relativas aos critérios de classificação e hierarquização dos bens simbólicos produzidos e pelas pessoas e instituições que os produzem. O campo representaria um espaço simbólico, no qual as lutas dos indivíduos determinariam e legitimariam suas representações. Nas palavras do autor, o campo consiste em:

[...] ao mesmo tempo, como um campo de forças, cuja necessidade se impõem aos agentes que nele se encontram envolvidos, e como um campo de lutas, no interior do qual os agentes se enfrentam, com meios e fins diferenciados conforme sua posição na estrutura do campo de forças, contribuindo assim para a conservação ou a transformação de sua estrutura (BOURDIEU, 1996b, p. 50).

Nesse sentido, cada campo possui uma classe vencedora, uma dominante e outra dominada. Enquanto os dominantes tendem a adotar estratégias conservadoras, visando manterem-se no apogeu da estrutura social do campo, os dominados tendem a adotar uma de duas estratégias. A primeira consiste na aceitação dessa estrutura hierárquica no campo, reconhecendo sua inferioridade. Já a segunda, consistiria nas tentativas de contestação e subversão das estruturas hierárquicas presentes no campo.

Ao tratar especificamente do campo escolar, o autor considera que a cultura consagrada e transmitida pela escola não seria objetivamente superior a nenhuma outra, mas a ela seria atribuído um valor simbólico de superioridade, ou seja, lhe é concedido um valor de caráter arbitrário, mas que implica que seja reconhecida como a cultura legítima. A conversão de um arbitrário cultural em cultura legítima se daria pela luta de classes num certo campo, onde o grupo vencedor (mais forte) imporia seus valores. Nesse sentido, pode-se dizer que a instituição escolar faz parte da cultura da classe dominante, grupo tido como vencedor nesse campo. Embora a cultura escolar busque apresentar-se como cultura neutra, ela transmite funções de reprodução e legitimação das desigualdades sociais.

Segundo Valle (2007), as diferenças sociais não têm sentido em si mesmas, e sim, ganham significação na estrutura hierárquica que está em constante mudança. No entanto, mesmo que os conteúdos mudem, a diferença implícita na hierarquia e na dominação tende a permanecer intacta. Cada campo encerra interesses específicos, conhecimento e reconhecimento, categorias de percepção, sistemas de classificação, esquemas cognitivos, que resultam da incorporação de estruturas objetivas do campo considerado.

As ditas “escolhas” da carreira escolar e dos estabelecimentos de ensino são indícios da influência a um só tempo do meio familiar e da origem e posição social. Desse modo, nas mais diferentes situações sociais, a herança social tende a ser transmutada em herança escolar, e, portanto, se configura como elemento fundamental

no que se poderia denominar o “sucesso” futuro do filho, em que pesem as dimensões não raramente ideológicas de tal termo (sucesso).

Conforme pudemos identificar em um depoimento de uma aluna da escola urbana, a opinião da mãe pode vir a contribuir para a ambição de um futuro profissional mais promissor em termos da evolução do conjunto de seus capitais. Ao questionarmos a aluna sobre o que sua mãe gostaria que ela fizesse no próximo ano, ela respondeu:

Medicina. Porque ela [a mãe] fala que é o que mais tem emprego, assim, que nunca vai deixar de ter emprego. Ela fala que não adianta nada eu fazer uma coisa que depois eu não vou ter emprego, que nem Administração, todo mundo tá fazendo (curso existente na Faculdade do município), metade da minha sala vai fazer Administração.” (Adriana6, aluna da escola da zona urbana).

Por outro lado, a opinião familiar também pode influenciar de modo diverso a opinião do filho, não para seu suposto sucesso, mas pelo “reconhecimento” da “inferioridade” de sua posição social. Poder-se-ia considerar que quanto mais limitados os processos de escolarização e de recursos das instituições escolares, mais modestas seriam as ambições escolares e mais limitados os projetos de ascensão social. Assim, as práticas mais improváveis tenderiam a ser excluídas a título de “impensáveis” (BOURDIEU, 1980, p.90). O excerto de entrevista entre uma mãe e sua filha foi ilustrativo:

(M8): “Ela (a filha), nunca falou nada (com relação à intenção de ingressar no Ensino Superior), hoje que eu tô sabendo”. (A8): Lógico que eu falei, “Psicologia ou Jornalismo”, aí você falou assim: “Ah, você não dá conta”. /(E): “Por que não dá conta?” /(M8): “Ah, vai só pra brincar lá na escola”. (Flávia, 17 anos, aluna da escola de zona rural e sua mãe).

Conforme Bourdieu (1998d, p.77), a herança corresponde a um “conjunto de

direitos de preempção sobre o futuro, sobre as posições sociais passíveis de serem ocupadas e, por conseguinte, sobre as maneiras possíveis de ser homem”. É sob esta

condição que ocorre, entre as classes, a distribuição das chances de acesso a diferentes percursos escolares, ou seja, dos lucros materiais e simbólicos.

Vale ressalvar que, de nossa parte, compreendemos que, ainda que o habitus seja predominantemente constituído no sentido da perpetuação da desigualdade, seria despropositado, dada a nossa compreensão de que a teoria de Bourdieu assinala para uma dialética entre objetividade e subjetividade e para um campo social de luta e

disputa, aprisionar o habitus a uma inevitável e eterna reprodução, como se não pudesse ser também reinvertido ou modificado por uma (nova) condição objetiva e histórica. Para nós, é inadequado se propagar a idéia de que a teoria de Bourdieu seja reprodutivista; esta é uma teoria praxiológica, uma teoria da reprodução, mas não de uma reprodução isenta de tensões e contradições.

Consideramos que as expectativas de formação e trabalho dos estudantes possam estar relacionadas às pretensões de ascensão social. É certo que as chances objetivas de êxito ou ascensão por meio do sistema escolar não são verificadas em todas as frações de classe de maneira uniforme. As disposições e predisposições para com a escola são atreladas às condições sociais em que se constituem, engendrando “esperanças, aspirações, motivações, vontades” (BOURDIEU; PASSERON, 1992, p.115). As

condições objetivas e as expectativas subjetivas se mesclam e se influenciam mutuamente e tendem a incutir, formar e deformar tanto ousadia como conformismo.

Nesse sentido, a metodologia praxiológica, bem como o conceito de habitus e campo, e demais outros conceitos de Bourdieu, nos foi de relevância neste estudo, já que enfatizam que a origem social e as condições objetivas de vida possuem grande peso no sucesso ou fracasso escolar do estudante, nas ditas “escolhas” frente aos distintos estabelecimentos de ensino e cursos, assim como no maior ou menor prolongamento dos estudos ou na inserção mais ou menos precoce no mercado de trabalho.