Vaterland inn i fremtiden
6.2 Det åpne rusmiljøet
Na esfera da cultura, estão contidas as manifestações artísticas, sobre quais Gramsci, em alguns momentos, nos aponta uma defesa de que arte não é cultura e vice-versa. Por vezes fica evidente que ele dicotomiza estas áreas e em outras, evidencia-se a necessidade de se fazer uma arte compreensível a todos para que todos pudessem compreender a realidade de caminhar na direção da transformação social. Todavia, não compreendemos desta forma: as artes fazem parte da (re)produção cultural da sociedade. O próprio raciocínio do autor reflete isto, embora ele registre uma diferenciação quando argumenta sobre uma e outra.
No que tange às artes especificamente, Gramsci desenvolveu reflexões principalmente sobre a literatura e o folclore, sempre questionando a necessidade das obras escritas serem acessíveis a todos. Neste âmbito, é criada uma categoria imanente à questão lingüística que se destaca no campo das artes literárias e dramáticas, qual seja, o nacional-popular. Este é concebido como alternativa à cultura elitista produzida na Itália, historicamente pela predominância do fenômeno da “Revolução Passiva”50
50 Gramsci assinala nos Quaderni que a categoria de “Revolução Passiva” tem estreita significação com o
conceito de “Revolução pelo alto” de Bismarck. O filósofo italiano utiliza esta categoria para definir as características principais da passagem do capitalismo concorrencial italiano para sua fase monopolista,
como forma de transformação social e pelo “transformismo” dos intelectuais daquela latitude (COUTINHO, 2000).
A Literatura nacional-popular além de ser acessível a todos, deve alcançar o gosto estético do maior número de leitores possíveis. O escritor, categoricamente um intelectual, promove uma ampliação de público no que tange o acesso às artes, cujo consenso é hegemonizado pelas camadas dominantes.
A crítica de Gramsci é desenvolvida tendo por cenário uma Itália sem unidade lingüística, sem uma unidade nacional-cultural, tendo como pressuposto primordial para a construção da identidade nacional a questão da unificação lingüística. A questão da língua e da busca da afirmação da nação é muito forte na Itália de Gramsci. Em regiões pobres do Mezzogiorno há contingentes populacionais inteiros que até hoje não falam o italiano oficial, o qual tem bases fortes na região da Toscana. Costuma-se, em gramáticas italianas produzidas no Brasil, dizer que a língua oficial da Itália consolidou- se em torno do dialeto Fiorentino, da cidade de Florença (Firenze; Fiorenza). Na realidade, ela configura-se a partir do italiano falado na região da Toscana, onde se situa Florença.
É interessante observar que a grande preocupação de Gramsci à época era com a unidade lingüística e percebemos que na contemporaneidade, a preocupação das gerações passadas é com a preservação dos dialetos, pois cada vez mais as novas gerações deixam à margem os registros lingüísticos regionais. Como exemplo, em Roma, na região do Lazio, quase não se fala o dialeto.
Em suas análises sobre a obra de Luigi Pirandello, afirma que os textos do autor são carregados de consciência crítico-histórica a respeito da unificação italiana e sua
sendo de fundamental importância este conceito para a compreensão da formação do Estado burguês moderno na Itália, indicando uma não ruptura na estrutura do Estado quando da passagem para a dominação de classe burguesa. A “Revolução Passiva” indica uma revolução sem revolução, ou, conforme Freire (1998) “uma espécie de estatização da transição que destrói toda iniciativa popular na
base e qualquer modificação nas relações governantes-governados no interior das superestruturas e das instituições. A ‘Revolução Passiva’ compromete, por meio de automatismos inscritos no coração das instituições de reprodução social, a mudança com a conservação.” (p.38). Este conceito nos permite,
como o próprio Gramsci assinalou, salvaguardando as questões estruturais e conjunturais do Estado observado, compreender as transformações históricas concernentes ao período analisado. Fernandes (1987) enfoca este conceito gramsciano ao tratar das questões inerentes a passagem para a dominação de classe burguesa no Brasil, identificando traços em comum com as reflexões de Gramsci em relação ao Estado italiano.
afirmação como Estado europeu. É nisto, diz Gramsci, que constitui a “fraqueza artística” do autor perto de seu grande significado cultural. Pirandello consegue dissolver o velho teatro tradicional, convencional, de mentalidade católica ou positivista, superando o contexto e o cenário das obras até então produzidas e encenadas, emolduradas no “imputridito nella muffa della vita regionale o di ambienti borghesi piatti e abbietamente banali”51 (GRAMSCI, 1992: 8).
De fato, depois de Pirandello, emergiu tanta coisa no campo das artes que Gramsci não tomou conhecimento. Os paradigmas mudaram, principalmente no cinema e na TV e, apenas como conjecturas, talvez os apontamentos gramscianos sobre Pirandello hoje não fossem tão criticamente ferrenhos como o são. As dimensões política e dialética são inerentes tanto às artes quanto à cultura compreendida à maneira gramsciana.
O folclore para ele é considerado cultura popular de grau ínfimo. Por ser produzida pelas camadas subalternizadas da população, considera que o folclore não é uma cultura moderna, pois enraizado em costumes tradicionais e antigos, impede a elevação daquelas camadas a uma nova cultura, libertária e crítica.
No entanto, a etimologia da palavra nos revela as dimensões de que folclore é “cultura popular”, mas nem por isso de menor valor artístico. Folclore, do inglês “folk” – povo, “lore” – conhecimento. Um dos aspectos do folclore é que este é manifestação tradicional, passada de geração a geração, transmissível pela oralidade e pela prática. Gramsci não nos parece ser defensor do folclore como patrimônio cultural de um povo, mas da criação de uma nova cultura nas e das massas populares, “attraverso la progressiva scomparsa della separazione tra cultura moderna e folclore” (1992: X – introduzione).
Deve-se pensar o folclore como concepção de mundo e de vida de certos estratos sociais determinados historicamente, ou como o próprio autor, no tempo e no espaço, em contraposição às concepções de mundo e de vida a que chama de “oficiais”. Dentro do que Gramsci analisa como folclore, ele nos aponta que há aquelas tradições enraizadas, fossilizadas, que não acompanham o movimento histórico, tornando-se
51 “Apodrecido no mofo da vida regional ou de ambientes burgueses completamente banais” (tradução
conservador e reacionário, e as outras que ele chama de inovações, criativas e progressistas, pois são expressões do desenvolvimento histórico daquele grupo social e que estão na contramão da moral das camadas dominantes intelectualmente e economicamente.
Mais à frente, afirma que o folclore não deve ser compreendido como uma bizarria, mas como algo sério e que requer análises sérias. Em alguns momentos, se questiona se os professores devem ou não aprender o folclore, como se o folclore fosse mesmo uma bizarria. Ele defende que se os professores conhecerem o folclore e seu ensinamento determinará o nascimento de uma nova cultura, como se os docentes fossem descolados da história cultural da sociedade italiana, mesmo que fragmentada. Ao mesmo tempo, afirma que o conhecimento do folclore para os insegnanti significa conhecer outra concepção de mundo, fato este que permitiria uma melhor e mais qualificada atuação do docente em relação aos seus alunos (Q. 27: 2312).
Neste movimento de reprodução cultural, as manifestações culturais tradicionais e modernas devem conviver. O folclore no Brasil é legalmente respaldado, considerado patrimônio cultural imaterial (art. 215 e 216 da Constituição Federal brasileira). Em nossa concepção, os jovens devem conhecer o folclore de seu povo, e tentar desenvolver sobre este concepções de mundo sob a perspectiva de totalidade.
Certamente que as reflexões de Gramsci versam sobre a emancipação das classes subalternas em âmbito local e nacional, impulsionado pela “questão meridional”: o sul se emancipa em relação ao sul mesmo e em relação à Itália. Mais uma vez, assinalamos que a categoria nacional-popular a que Gramsci se refere reside no campo da linguagem e exprime a necessidade de compreensão pelas massas do Italiano que era reproduzido pela elite. Estas implicações são de central importância se pensarmos que sem acesso às informações não se cria opinião. Os rebatimentos destes aspectos na população perpetuam a ideologia/hegemonia dominante.
Por intermédio da ampliação do acesso, e, fundamentalmente, compreensão das manifestações culturais e artísticas, amplia-se as capacidades de reflexão das camadas subalternizadas acerca da hegemonia produzida, já que estas não incorrerão em um domínio das camadas dirigentes sobre as dirigidas, mas uma influência geral sobre as várias manifestações da sociedade civil.
Lembrando que para Gramsci, Para ser dominante, primeiro uma classe precisa ser dirigente e, para tanto, os aspectos lingüísticos e da comunicação são o primeiro passo para o alcance da proposta ideológica. Haver comunicação significa haver compreensão do que se quer informar. Se a grande massa, os que detém bem menos do que a renda da elite econômica, consegue perceber a reprodução da ordem capitalista vigente, há mais possibilidades de articulação para uma tomada de poder e construção de um novo projeto societário.
Uma outra preocupação de Gramsci que perpassa o campo das artes é a necessidade de o italiano se compreender, se perceber como europeu, assim como os franceses e ingleses. Em termos de literatura, indaga nos Cadernos nas notas sobre cultura porque a Itália não produz uma literatura como a França, por exemplo.
Sobre literatura, ainda destaca o caráter individualista de certas produções, no sentido de exaltação da figura do herói e da delegação deste o papel de “bom” em oposição ao “mal”.
(...)ma non esiste, di fatto, né una popolarità della letteratura artística, né uma produzione paesana di letteratura ‘popolare’ perché manca uma identità di concezione del mondo tra ‘scritori’ e ‘popolo’ (...)
(...)se i romanzi di cento anni fa piacciono, significa che il gusto e l’ideologia cel popolo sono próprio qualli di cento anni fa. (...) (...)I giornali sono organismi político-finanziari e non si propongono di diffondere le belle lettere ‘nelle proprie colonne’, se queste belle lettere fanno aumentare la resa. (...). (Q: 2114)52
Relacionando jornal e literatura, nos aponta que os jornais publicam encartes literários, mas não os mais rebuscados ou de mais bom gosto estético. Estes escolhem assuntos que o povo gosta e que vende, e não o que possivelmente construiria uma opção diferente de cultura. As mulheres, segundo ele, tinham grande peso na escolha do jornal que se compra por causa do bel romanzo! Gramsci aponta que isto não é um
52 “(...) mas não existe, de fato, nem uma popularidade da literatura artística, nem uma produção no país de literatura popular porque falta uma identidade de concepção de mundo entre os ‘escritores’ e o ‘povo’ (...)”; “(...) se os romances de cem anos agradam, isto significa que o gosto e a ideologia do povo são os mesmos daqueles de cem anos atrás.(...); “(...) Os jornais são organismos político-financeiros e não se propõem a difundir as belas letras ‘nas próprias colônias’, se estas belas letras fazem aumentar os rendimentos(...)” (tradução livre).
recorte puro e simples de gênero, e que os homens também lêem o romance pois se identificam com a figura do herói.
Os jornais políticos só têm uma grande saída em períodos de intensas lutas políticas. Uma das questões postas por Gramsci nos Quaderni é: porque os jornais italianos de 1930 se quisessem alcançar bons índices de circulação, tinham que publicar os romances d’appendice de um século atrás (ou aqueles modernos que seguiam a mesma linha) e por que na Itália não existia uma literatura dita nacional. A beleza não basta, pois é necessário determinado conteúdo intelectual e moral que seja expressão das aspirações de um determinado público.
Gramsci ainda questiona o que significa o fato de o povo italiano terem maior preferência pelos escritores estrangeiros, o que ele considera uma hegemonia intelectual e moral dos intelectuais estrangeiros. Significa que eles se sentem ligados mais aos intelectuais estrangeiros que italianos, pois não existe no país um bloco nacional intelectual e moral, nem hierárquico, nem igualitário.
É nesta perspectiva de nacionalização cultural que Gramsci traça suas reflexões sobre a arte desenvolvida naquela Itália. As aspirações do pensador versam sobre a democratização artística, e compreendemos que seja cultural também, na ótica da elevação moral e intelectual das camadas subalternizadas da população e, com isso, possibilitar a construção de uma nova ordem societal, sob a direção destas camadas, sem, obviamente, negar que esta transformação abarque as relações de produção.