Na produção intelectual do século XIX havia intensa aproximação entre história e literatura. Sobretudo no Romantismo brasileiro, pois o movimento indianista mantinha um debate que se consolidava entre a história e a literatura. Na história, tivemos o nascimento do IHGB e uma etnografia com fins de reconstituir o passado nacional. E na literatura com homens como Gonçalves Dias e José de Alencar surgiram obras com intuito de se criar referências da nação com personagens tipicamente brasileiros de acordo com a sociedade e a historiografia nacionais. Sobre essas construções literárias ou historiográficas, devemos ter como referencia que os dois ofícios são essencialmente operações políticas. Conforme Bernardo Ricupero afirmou, em O Romantismo e a ideia de nação no Brasil, tanto a história como a literatura, “ordenam dados, elaboram quadros inteligíveis”, selecionam “fatos e valores” de forma política. Além disso, se tratando de uma literatura do século XIX, devemos considerar que nessa época, “passou a ser bastante comum romances reivindicarem a condição de realistas”. Sobretudo quando a literatura intervinha na história, estabelecendo como inspiração “muitos de seus temas e problemas, o que é particularmente verdadeiro quando os dois campos não estão bem definidos”240. Tendo essa aproximação em vista, fazia-se mister que, no século XIX, se criasse na literatura
240 RICUPERO, Bernardo. O romantismo e a ideia de nação no Brasil (1830-1870). São Paulo: Martins Fontes, 2004, p. 141.
88 formas e técnicas típicas de um romance nacional. Nesse contexto, a obra indianista de José de Alencar torna-se fundamental para a análise dos limites entre a literatura e a história que se pretendia construir para a nação.
José de Alencar consegue levar a literatura indianista para um novo patamar. Tivera tempo para estudar e criticar seus antecessores, tais como Gonçalves de Magalhães e Gonçalves Dias, e, de acordo com aquilo que julgou insuficiente na literatura dos autores da Confederação de Tamoios e Os Timbiras, pôde organizar ideias acerca do romance brasileiro. A contribuição de Alencar para o romance nacional está em obras como O
Guarani e Iracema, nos quais ele pôde reinventar o indianismo com formar próprias de
escrever. Alencar distanciava-se da forma clássica de versos de Gonçalves de Magalhães, que pareciam imitar as grandes epopeias tradicionais da fundação de grandes civilizações como a grega, a romana, dentre outras. Além disso, Alencar, ao incorporar termos indígenas e escrever de forma mais simples, tentou forjar uma língua portuguesa que seria próxima à maneira de falar no Brasil. Uma das maiores contribuições de José de Alencar para a literatura foi o estilo de linguagem novo que, “sem perder a correção gramatical”, se aproximava da “maneira brasileira de falar”, segundo Antonio Candido, criava por meio da diferenciação linguística uma suposta “independência estética em relação a Portugal”241. A questão linguística foi cara aos românticos de modo geral, segundo Sílvio Elia em “Romantismo e Linguísticas”. A fim de conhecer as origens da nação, houve ensejo para pesquisas linguísticas, ou seja, conhecer um país era também conhecer a língua que se falava242. No Brasil, isso ocorre em dicionários linguísticos com significados de termos tupis publicados na Revista do IHGB, dentre outros periódicos243. Esses dicionários sem dúvida foram inspiradores para José de Alencar.
A partir das notas, a literatura indianista possibilitava um mergulho na origem da nacionalidade. Segundo Flora Süssekind, os textos dos viajantes provocava “confiabilidade”, porque primeiramente era uma “experiência da viagem” e por seu um
241 CANDIDO, Antonio. O Romantismo no Brasil. São Paulo: Humanittas/FFLCH, SP, 2002. p. 63.
242 ELIA, Sílvio. “Romantismo e linguística”. In: GUINSBURG, Jacob (org.). O Romantismo. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1978. pp. 113-135.
243 Algumas Revistas do IHGB possuem dicionários léxicos com termos indígenas, cujos principais troncos são o Tupi-Guarani e Macro-Jê. Segundo Dantielli Garcia e José Nunes, “a elaboração/divulgação de vocabulários bilíngues pela RIHGB está relacionada à formação de uma história do Brasil que busca constituir uma identidade aos brasileiros, com um passado linguístico de origem indígena”. GARCIA, Dantielli Assumpção e NUNES, José Horta. “Vocabulários de línguas indígenas na Revista do IHGB: o processo de gramatização”. In: BARROS, Lídia Almeida e ISQUEREDO, Aparecida Negri. (orgs). O léxico
89 “olhar de estrangeiro”244. Quando alguns dos literatos do século XIX apropriam-se dos relatos, “não há propriamente um diálogo crítico”, não obstante há uma “absorção pragmática, do que “serve” ao projeto de afirmação de uma literatura nacional”, portanto se exclui dados que não queriam que fossem transmitidos. Flora Süssekind percebe principalmente que, tanto na ficção do século XIX, quanto nos relatos de viagem, havia “a necessidade de uma reiterada afirmação de verdade e confiabilidade do narrador”245. Esse tipo de recuo histórico e a incorporação das fontes no texto literário inseria um caráter de verossimilhança, tornando o relato mais legítimo aos olhos do leitor - que era convencido da nobreza do indígena. As notas pareciam representar um selo de veracidade, uma vez que continham dados científicos. De acordo com Mirhiane Abreu, a função da nota de rodapé alencariana era “solidificar a imagem heroica da origem do país”, fazendo circular, indiretamente, “a documentação da suposta virtude oral dos antecessores nacionais.”246 Conforme Mirhiane Mendes Abreu, o recurso da nota de rodapé é utilizado com uma segunda narrativa, com uma pretensa feição científica. O olhar de Alencar é como o do historiador, de acordo com Valéria Marco:
[...] os modos usados por Alencar para apropriar-se da crônica histórica contribuem decisivamente para esboçar as imagens que ele quer divulgar da história do país, para perscrutar como e por que romanceia certos dados e não outros, para tentar compreender que razões movem na escolha do alvo em que investe a sua imaginação.247
Assim, as notas de Alencar não são um pormenor, mas um espaço no qual o autor pode produzir sentidos de veracidade para a narrativa com intuito de afastar possíveis desconfianças do leitor. Sob esse prisma, Mirhiane Mendes Abreu indica que a notas valem-se como “recurso de compreensão do projeto de construção do Brasil”248. O escritor d’O Guarani buscava os textos dos primeiros “viajantes, missionários e cronistas” a fim de selecionar dentre as opções disponíveis os autores que gerassem “maior relevo ao retrato brasileiro almejado.”249 Desse modo, a partir do “respaldo dito científico” de autores como Aires de casal e Baltasar da Silva Lisboa, o leitor poderia se render “às “evidências” de ter
244 SÜSSEKIND, Flora. O Brasil não é longe daqui. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 49. 245 SÜSSEKIND, op.cit. p. 128-129.
246 ABREU, Mirhiane Mendes. Ao pé da páginas: a dupla narrativa em José de Alencar. 2002. 185 p. Tese (doutorado em Teoria e História Literária). Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, SP. p. 10.
247 MARCO, Valéria. A perda das ilusões: o romance histórico de José de Alencar. Campinas: Ed. Unicamp, 2001. p. 35.
248 ABREU, op.cit. p. 57. 249 ABREU, op.cit. p. 58.
90 havido num passado remoto um índio herói.”250 Nessa perspectiva, as notas tomam caráter educativo ao apresentar comprovação de autores respeitados. Sobre as notas de Alencar, Mirihane Mendes Abreu sintetiza a discussão:
O olhar que Alencar dirigiu ao passado será o ideal; entretanto, trata-se de um ideal documentado, fazendo com que a narrativa constantemente se harmoniza com as notas. Os rodapés exercem a função determinada de criar conjuntos significativos que interagem entre si e explicam a imagem da história nos romances alencarianos, alimentada em torno de dois pontos essenciais: o registro de personagens, compreendidas numa perspectiva biográfica, e seus comportamentos, descritos sob a ótica exemplar. A observação desses elementos leva-o a estabelecer estrutura épica no livro (uma vez que ressalta os feitos dos chamados “grandes homens” do passado, pensando sempre na visão romântico-nacionalizante que fundamentou sua escrita) e a vincular a arte à realidade palpável, isto é, aquela que se pode comprovar.251
Em suma, Alencar cria um exemplar de romance de fundação, com a dinâmica de circularidade entre memória e esquecimento. Alencar mistura sua narrativa com lendas e textos históricos, dessa forma, segundo Lucia Helena em A solidão tropical, o autor “resolve o problema da verossimilhança”. Assim, memória e esquecimento são as duas faces da ficção que se propõe criar um “imaginário nacional incumbido de cimentar as diferenças raciais, de classe e ideológicas”252. Com a narrativa dupla na qual incorpora documentos históricos e lendas, Alencar demonstra domínio da retórica romântica de criar uma identidade nacional legítima.