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9.2 Deskriptiv  statistikk

A subjetividade, a esfera subjetiva, ocupa, indiscutivelmente, um posto central na produção ideal marxiana.1 Há uma enorme e constante preocupação em Marx de tornar

evidente teórico-metodologicamente a presença indestrutível da subjetividade nas mais heterogêneas dimensões constitutivas do ser social e na construção do próprio devir formador da história humana. Na esfera da estética, por exemplo, diz Lukács (1968:36) que

1 “Um dos pressupostos fundamentais do materialismo histórico é a primazia das relações e dos conflitos entre

as forças sociais na determinação do curso da história. Nas sociedades divididas em classes, tais relações são, necessariamente relações de classes. Deste modo, a história é explicada, em última análise, como a história das lutas entre as diversas classes sociais e suas frações essenciais, extensamente sobredeterminada pela lógica interna de cada modo de produção específico. Tal visão da história não está baseada na ‘negação’da individualidade humana nem no ‘menosprezo’pela autonomia individual, estrutura de caráter ou ‘valores’. Ao contrário, a visão de que a história é configurada basicamente pelas forças sociais resulta, precisamente, do completo entendimento do fato de que um número infinito de pressões individuais tende a criar movimento

definitivo da história – isto é, para que a história possua um padrão inteligível e não seja uma mera sucessão

sem importância de fatos desconexos – aspectos comuns têm de ser descobertos no comportamento dos indivíduos” (Mandel,1989:181).

“a objetividade da estética marxista não se acha absolutamente em contradição com o reconhecimento do fator subjetivo na arte”.

Ora, a tradição marxista salienta a capacidade humana de apreender teoricamente a objetividade (e, isto, não só superficialmente, mas substancialmente, as intrincadas e complexas relações e interações que se desdobram entre essência e fenômeno) do mundo. As considerações de Marx (e de Engels) não só realçam a objetividade mais contundente e radical do reflexo estético, como também acentuam “o papel indispensável do sujeito criador, já que este processo, esta aproximação gradual da essência oculta, é uma estrada que se abre somente para os maiores e mais persistentes gêneros da criação artística” (Ibidem).

Ademais, e fundamentalmente, toda esta ênfase à subjetividade, à dimensão subjetiva, em realidade, não se reduz a meras especulações abstratas sobre o ser do homem; antes, trata-se de um momento criador de um humanismo verdadeiramente concreto que consiste na marca indestrutível, no ícone, na distinção particular e profícua do modo de pensar ontológico dialético-materialista em relação às demais linhas de pensamento, inclusive com determinadas formas de pensar que se auto-intitulam marxistas – que se pense no estruturalismo; e, no denominado marxismo analítico.

Do ponto de vista da ontologia dialético-materialista e histórica, o tema da subjetividade articula-se inerentemente, primeiro, ao trabalho como produtor de valores de uso, como a necessidade “eterna da humanidade”, como o fundamento ontológico do ser social; segundo, ao trabalho como o momento predominante que em última instância determina o sentido e a orientação da reprodução social em sua totalidade; e finalmente, ao processo da ontológica autoconstrução humana, eixo fundamental e norteador das preocupações marxianas.

Em síntese: o tema da subjetividade insere-se no contexto do projeto revolucionário de emancipação do trabalho da dominação e exploração do capital – já que as relações humanas só podem ser realmente autênticas (isto é, isentas tanto do fenômeno da alienação quanto da coisificação) à medida que se pautarem e forem de fato parametradas pelas imprescindíveis relações e interações entre gênero e indivíduo. Ou (o que expressa a mesma coisa): o tema da subjetividade na perspectiva ontológica dialético-materialista articula-se à problemática do indivíduo emancipado, ao indivíduo automediado, como um ser universal

e, portanto, que conecta à classe proletária enquanto classe para-si, como uma classe universal.2

Considerando a importância que a questão da subjetividade assumiu como um momento dos candentes embates contemporâneos; e que pela mediação das pesquisas ontológicas lukacsianas, os estudiosos marxistas em foco têm-se contraposto quer seja contra a tradição liberal, quer seja ao marxismo vulgar e às formas contemporâneas do marxismo, ou ainda, contra Habermas, que ao propugnar a substituição da categoria “trabalho” como fundante do ser social pela categoria “o mundo da vida (...) se converteu no autêntico filósofo da burguesia nesta época de crise pois forneceu as bases para uma concepção de mundo em tudo compatível com o mercado e com as relações político- democráticas do capitalismo desenvolvido” (Lessa,2002b:205), a teoria da subjetividade em base ontológica dialético-materialista consiste na preocupação central do tema por ora proposto.

A teoria da subjetividade (entendendo a subjetividade sob a determinação de fundamento ontológico essencial de todo pôr teleológico – neste preciso sentido, como um momento de expressão da liberdade humana, outrossim, como uma pré-condição substancial do processo revolucionário; e como a dimensão de distinção e desenvolvimento das particularidades de cada singularidade individual) tem-se constituído em um dos momentos centrais do esforço constante de se renovar e de se assentar o marxismo sobre bases ontológicas.

A determinação da subjetividade em bases ontológicas se constitui entre outros aspectos em uma radical crítica ao conjunto de teses (valores e idéias) profundamente conservadoras que expressam uma determinada concepção de homem, de sociedade etc., que o grande capital e suas personificações difundiram sob a designação de “neoliberalismo”. Vale a pena fixar que

O que se pode denominar de ideologia neoliberal compreende uma concepção de homem (considerado atomisticamente como possessivo, competitivo e calculista), uma concepção de sociedade (tomada como um agregado fortuito, meio de o indivíduo realizar seus propósitos privados)

2“O conceito do proletariado também como uma classe para si implica uma universalidade autoconsituinte,

isto é, uma oposição consciente não somente à particularidade burguesa, mas a qualquer particularidade, inclusive aquela que acompanha necessariamente todas as formas do ‘poder político propriamente dito’, mesmo se esse estiver nas mãos do proletariado” (Mészáros, 1993:103).

fundada na idéia da natural e necessária desigualdade entre os homens e uma rasteira noção da liberdade (vista como função da liberdade de mercado) (Netto e Braz,2006:226).

Como se vê, trata-se da noção de que o mercado consiste na instância privilegiada de todo pôr teleológico. Subsumida a subjetividade pelo mecanismo imanente à lógica do mercado, a “noção rasteira da liberdade”, torna-se “racional”. Trata-se a não ser da ausência de liberdade, pois que a subjetividade transformada em um simples epifenômeno, regida pela lógica do mercado, tem-se como corolário uma caricatura da liberdade, ou melhor, uma

Alegoria da liberdade – econômica e política, alusão abstrata à ‘sociabilidade perfeita’, baseada na clausura das individualidades e nas suas recíprocas contradições, entendidas como artífices naturais do ardil da razão pela afirmação do egoísmo (Chasin,1989:31).

Trata-se como se pode depreender da liberdade peculiar do indivíduo mônada, típico da sociedade civil burguesa, na qual ele “considera outros homens como meios, degrada-se a si próprio como meio e converte-se em joguetes de poderes estranhos (Marx,1991:26). O neoliberalismo, não apresenta um fundamento ontológico e, portanto, passível de ser detectado, do qual a gênese e o desdobrar do fenômeno da liberdade tornar-se-iam satisfatoriamente racionais. A liberdade, concebida como a “liberdade de mercado”, inexoravelmente, implica na transformação da subjetividade em um simples epifenômeno. Nos parâmetros do mercado e em razão de sua determinação causal, o capitalismo contemporâneo, emerge regido em sua essência pela dinâmica imanente à circulação das mercadorias – pela mediação das leis de mercado, pela “mão invisível”. As mercadorias, na totalidade do ser social em sua práxis cotidiana, assumem, por conseqüência, um estatuto ontológico cujos elementos determinantes caracterizar-se-iam mediante a sua perenidade e imutabilidade: tudo flui, tudo seria efêmero no interior do todo social, à exceção das mercadorias, do mercado.

O corolário desta abstrata e vazia determinação, resulta evidente:

Se a história fosse uma deusa, poderíamos com razão supor que desejasse nos enlouquecer. Em nossa vida cotidiana, ao mesmo tempo em que nos assegura, tão certo quanto iremos morrer, que nada permanecerá como é

hoje, também nos assegura, com igual certeza e com igual convicção, que o mercado é eterno. O que permanece na transformação extremada de tudo e todos é o mercado, a mercadoria. E, sendo a mercadoria a nossa ‘essência’, seríamos sempre essencialmente os mesmos – ainda que em tudo sempre diferentes (Lessa, 2005b:71).

Pois bem, é exatamente em razão deste contexto sócio-histórico, que a determinação da subjetividade em bases ontológicas, se revelou como um momento fundamental de crítica às teses que preconizam o fim do trabalho, a descentralidade do trabalho do mundo humano-social, o fim da história etc.