O município de Guaraqueçaba, área de estudo da presente pesquisa, fica localizado, na porção norte do Paraná e possui 2.315,733 km² (Ipardes, 2012). No censo de 2010 Guaraqueçaba contava com uma população de 7.871 habitantes dos quais 2.683 residia na
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Discorda'se parcialmente, aqui, de Fontes (2010) para quem todas as ONGs apresentam'se, indiferente ao seu processo histórico de mobilização e de lutas, como aparelhos privados da hegemonia. Tal análise apresenta, a meu ver, uma interpretação maniqueísta dos processos, uma vez que homogeneíza e considera despolitizado todo e qualquer movimento que assuma tal categoria legal – como a própria autora lembra, a relação capitalista não se resume a uma relação contratual – e, assim, dependem muito mais da maneira como a sociedade se relaciona para produzir, dividir e consumir seus bens materiais do que com as formas legais de se organizar para isso.
área urbana e 5.188 na rural. A população reduziu'se desde o censo anterior, realizado em 2000, quando somava 8.288 habitantes.
Registros históricos localizam temporalmente a ocupação do Paraná pelo homem do sambaqui há 6.000 anos. Ainda hoje se encontram tais monumentos compostos por conchas nas regiões estuarinas, não tendo sido esclarecido, ainda, os reais propósitos da construção dos sambaquis (Pierri 2006). De acordo com Bigarella (1999), a cultura do homem do sambaqui já estava extinta quando da chegada dos europeus à região do litoral paranaense, momento em que a ocupação se dava pelos índios Carijó que se relacionavam de maneira direta com a costa, sobretudo através da pesca.
De acordo com Kuhn (2005) o início do processo de colonização se deu no século XVI pelos europeus. No entanto, as significativas modificações antrópicas no município tiveram seu início na metade do século XIX com a instalação de uma colônia suíça na Ilha de Superagui.
Grande parte da literatura sobre a região tem tratado os grupos sociais do litoral norte do Paraná pela identidade
De acordo com Adams (2000) a origem do termo vem do tupi'guarani caá'içara, que significa homem do litoral. Segundo a autora, esta expressão era utilizada por esses povos para caracterizar um sistema de cercamento de peixes e, posteriormente, foi utilizado para denominar os espaços reservados para o armazenamento das canoas e instrumentos de pesca.
Sanches (2004) defende a concepção de Darcy Ribeiro para quem os caiçaras, assim como os caboclos e caipiras, consistem em sociedades com distinções culturais de sua origem europeia, indígena e negra, onde cada uma delas passa a ganhar características diferenciadas conforme o contexto geográfico, ambiental, regional e histórico.
Estudos focados na cultura caiçara existem a mais de 50 anos, fato que contribui para a percepção da dinâmica desses grupos que passaram por diversos processos de transformação, como a expansão do turismo, a especulação imobiliária e a criação de diversas unidades de conservação (Rodrigues & Silva, 2011).
Existem também diversos estudos que definem os grupos tradicionais habitantes de Guaraqueçaba a partir da denominação , como Lima (1996), Vivekananda (2001), Guarido (2005), Rocha (2005), Martins (2006), Ramires . (2007), Kasseboehmer (2007), Farias (2009), Limont (2009), Uejima (2009), Bazzo (2010), Silva (2010), Kashiwagi (2011), Silveira'Junior & Botelho (2011) e Solá Pérez (2012), entre outros.
Segundo o órgão gestor do Parque Nacional do Superagui em seu sítio oficial na internet14, as populações do interior e entorno da UC denominam'se caiçaras. No entanto, o órgão ressalta que em 2010 ocorreu um movimento local desses grupos para que fossem identificados como
A movimentação citada pelo ICMBio consistiu em uma cartografia social15 do Projeto Nova Cartografia Social dos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil (Almeida, 2010), encabeçada pelo Movimento dos Pescadores Artesanais do Litoral do Paraná (MOPEAR) e realizada na Vila do Superagui, uma das comunidades da região do Parque Nacional do Superagui.
Um conceito de extrema importância para lançarmos o olhar à realidade da comunidade de Barbados é o de conforme elucidado por Oliveira (1976). O autor sustenta que diante de uma definição antropológica de identidade social, ela pode ser tanto uma ideologia16 quanto uma forma de representação coletiva, sendo essa identidade inteligível apenas dentro do contexto do sistema de relações sociais que a originou.
No mesmo texto Oliveira parte do pressuposto de que a identidade é sempre relacional, formada por processos sociais, sendo conservada, transformada ou remodelada pelas próprias relações sociais. A identidade surgiria da relação dialética entre indivíduo e sociedade, dependendo da existência de outras identidades, se baseando em redes afetivas e materiais de pertencimento. Assim como qualquer conceito, não se pode frigorificar o conceito de identidade, visto que esta é sempre relacional, como exemplifica o autor ao elucidar a noção de relações de identidade. Para ele, uma identidade existe sempre a partir de uma relação. Ou seja, a identidade varia de acordo com os sujeitos envolvidos na relação de identificação, existindo identidades complementares ou combinadas que se tornam inteligíveis apenas em uma alteridade. Conclui'se, assim, que uma identidade surge sempre da relação de dois agentes.
Em trabalhos de campo preliminares pude registrar depoimentos de moradores que não concordaram com a cartografia social realizada nessa comunidade. Dentre os argumentos utilizados estavam a não identificação com o conteúdo expresso na cartografia e na própria
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Visualizado em maio de 2012 e disponível em http://www.icmbio.gov.br
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Solá Pérez (2012) relata o processo da cartografia social em Superagui em sua dissertação de mestrado.
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Para Oliveira (1976:40) ideologia “é um discurso coerente, construído para eliminar contradições encontradiças no sistema social, ela possui uma natureza sistêmica, integrada, capaz de conter um “saber” organizado (se bem que não'científico) para certos fins, sejam eles econômicos, políticos, estéticos [...]”. Ou seja, as ideologias podem ser ou não conscientes, mas o mais comum é que sejam inconscientes. As representações coletivas, por sua vez, “são sempre inconscientes, fracamente integradas e desprovidas daquele caráter sistêmico inerente ao discurso ideológico”.
identidade de '( Embora o trabalho tenha sido focado nessa comunidade, houve uma forte repercussão sobre ela em outras comunidades da região.
Desta forma, por considerar que não há um consenso acerca da identidade local e levando em consideração as reflexões teóricas que indicam a complexidade de tal definição, optei por não tomar de antemão uma dessas identidades. Ora, se a autoidentificação justifica' se como preceito básico para uma leitura mais condizente com a realidade social desses grupos, apenas a partir dos discursos dos próprios envolvidos será possível tentar captar o real sentido da identidade local.