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Com este panorama sobre o início do século XXI conseguimos observar as principais caraterísticas de algumas bibliotecas universitárias nacionais. Traços comuns que emergem desta caraterização e que se podem elencar são: uma necessidade de otimização de recursos e melhoria da eficácia técnica; uma procura do equilíbrio entre a tradição e a inovação, entre o património histórico significativo que as bibliotecas têm à sua guarda e a necessidade de o preservar e divulgar; uma adaptação constante às tecnologias e ao enfrentar do crescimento exponencial de informação científica; um imperativo de melhorar o acesso às coleções e aos recursos de informação, para o que se torna imprescindível assegurar a formação dos utilizadores, tornando-os mais eficazes e criteriosos na obtenção de informação; assumir, enfim, uma função pedagógica, através da qual se justifica o investimento nas bibliotecas e se encontra o ponto de contacto entre a aprendizagem e a produção de conhecimento científico.

A eficácia técnica e a otimização de recursos são aspetos mais sublinhados recentemente devido ao contexto político, económico, ambiental e social que se vive na Europa e particularmente em Portugal, que agudiza a necessidade de pensar e agir sobre a evidência da escassez e limitação destes mesmos recursos. As formas que as bibliotecas têm encontrado para dar continuidade ao seu trabalho, procurando enfrentar esta condição, relacionam-se com a adequação do trabalho e das rotinas, a gestão de equipas através da preparação para otimizar as suas competências, exponenciando a sua ação junto de mais utilizadores, que procuram autonomizar e a adaptação tecnológica e simplificação de procedimentos, de maneira a conciliar em menos tempo maior quantidade de tarefas e rotinas.

Quanto ao equilíbrio entre a tradição e a inovação, observa-se, de alguma forma, como se enquadram algumas noções, do meu ponto de vista algo polémicas, propostas por Armando Malheiro da Silva (2006) relativamente à caracterização das bibliotecas universitárias. Este autor polariza, dentro de binómio simples, uma visão custodial, historicista, patrimonialista e tecnicista (afirmado com a Modernidade e com o Estado Cultural) em contraste com uma visão de um paradigma pós-custodial, informacional e científico. O primeiro (Silva, 2006: 158):

Caracteriza-se por vários traços fortes (…) que é possível resumir deste modo: primado da História como fonte legitimadora e matriz modeladora (formadora); necessidade custodial

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extrema tanto para alimentar o discurso historiográfico e ideológico de preservação / exaltação da identidade cultural / nacional, como para sustentar o mercado dos bens materiais antigos e raros e dos objectos de Arte (antiquários, alfarrabistas, galeristas); e operacionalização do acesso (controlado) e das condições de custódia através de um corpo de normas e procedimentos (dimensão técnica), muito empíricos (baseados no senso comum), vários anacrónicos (em face às sucessivas alterações tecnológicas e outras) e alguns científicos (procedentes, sobretudo, na área do restauro e conservação por intermédio da Química, da Física, da Biologia, etc.).

O segundo (Silva, 2006: 158-159):

É emergente porque está a surgir no dealbar, em curso, da Era da Informação e nos meandros de uma conjuntura de transição bastante híbrida, complexa e sujeita a um ritmo de inovação tecnológica e científica quase vertiginoso (a Sociedade de Informação, em rede, etc.). (…) em que a preocupação pela custódia e a “ritualização” do documento é secundarizada pelo estudo científico e pela intervenção teórico-prática na produção, no fluxo, na difusão e no acesso (comunicação) da informação (representações mentais e emocionais que podem estar em diversos suportes e em mutação constante).

Discuto se estas duas noções estão atualmente tão distantes e se confrontam de modo mutuamente excludente, à luz da observação anteriormente realizada. Do meu ponto de vista, o paradigma custodial não deixou de existir, tendo antes encontrado novas formas de sobreviver, já que a preservação da memória é tanto mais afirmada, quanto o seu acesso for possível. Isto é, se concordo com a ideia de que o foco da atenção da biblioteconomia é hoje colocado no acesso, no fluxo, na difusão, discordo da ideia de que a preservação e guarda material das coleções históricas daí se excluem. No meu entender, antes participam deste movimento (lembremos o exemplo de Coimbra, com a disponibilização em formato digital de muitas coleções patrimoniais; ou o de Cambridge, que tem adquirido coleções históricas raras para valorização do seu espólio). Questiono portanto a visão em que a custódia deixou de ser uma preocupação das bibliotecas, em oposição à divulgação. Ao contrário, creio que a característica de guarda e preservação aproveitou a divulgação e difusão para se garantir como matriz identitária relacionada com o próprio valor das bibliotecas. Daqui decorre também que o acesso às coleções e a adaptação às tecnologias sejam outros tópicos emergentes nos traços comuns à caracterização das bibliotecas. Tecnologias não só para permitir a preservação e o acesso (catálogos, repositórios, bases de dados, plataformas integradas, dispositivos de auto-empréstimos, entre outros), como para estender a ação e espaço da biblioteca, através da sua virtualização. Temos então modelos híbridos resultantes de uma confluência de diversas necessidades, entre as quais, inevitavelmente a formação

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de utilizadores. A inclusão das tecnologias e a mudança dos modelos educativos no contexto universitário pode influenciar um reposicionamento das bibliotecas na assunção da sua missão, como claramente é expressado no artigo La biblioteca universitaria como apoyo al aprendizaje en el espacio europeo de enseñana superior (López Gijón, e outros, 2006: 63):

La biblioteca universitaria se encuentra en un proceso de transformación ante el Espacio Europeo de Educación Superior (EEES). Este nuevo marco implica básicamente un cambio en el modelo de enseñanza, centrado en el aprendizaje y basado en una serie de competencias que convierten al estudiante en protagonista de su propio aprendizaje. Este cambio en el paradigma docente integra las Tecnologías de la Información y Comunicación (TICs), así como los planteamientos e-learning y la alfabetización digital, en los futuros modelos educativos. Para apoyar este cambio las bibliotecas universitarias deben adaptar sus espacios y servicios a las nuevas necesidades docentes, evolucionando a un Centro de Recursos para el Aprendizaje e Investigación (CRAI)

As bibliotecas, caracterizadas como estão pelos aspetos relativos às coleções e acesso, à tecnicidade das suas funções, aos espaços físicos e virtuais que ocupam, são finalmente também entendidas como espaços de aprendizagem (perceção e apropriação) e de produção (autonomização e preparação da expressão) de conhecimento dentro da universidade. Lugares de individuação e autonomização da aprendizagem (porque o percurso do aluno é essencialmente solitário na biblioteca) em contraste com a sala de aula (lugar da comunalidade e homogeneidade da aprendizagem). Foi este lugar ambíguo, emergente do espaço-modelo escolar, identificado com as características da instituição a que pertence, mas também espaço de refúgio, de silêncio e de encontro, que procurei compreender, no âmbito do papel pedagógico que desempenha junto do aluno universitário e do devir que representa para a sua aprendizagem.

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APÍTULO

VI-A

PLICAÇÃO PEDAGÓGICA DA LITERACIA DE INFORMAÇÃO