Uma vez compreendido o significado de Educação apresentado no Caderno de orientação para dirigentes, a discussão do tema “escola” é apresentada em cinco tópicos, intitulados:
1. Estudante, razão de ser da escola;
2. A escola trabalha pela democratização do saber;
3. A escola conserva a cultura e as tradições; trabalhando pelo progresso;
4. A vida na escola, o estudo principalmente, faz o estudante descobrir o mundo; 5. O mundo espera a contribuição da juventude que estuda.
Por esse roteiro, verifica-se a presença da estratégia de valorizar a vivência estudantil, bem como as práticas escolares, especialmente quando coloca o estudante, alvo da prática da JECF, em uma posição privilegiada na escola, afirmando ser ele a razão de ser desta.
O modo privilegiado como é tratado o estudante aparecerá ainda como objeto central das discussões sugeridas para outras reuniões. Um exemplo disso é a forma como se discute a função da escola na sessão intitulada Meio estudantil (Caderno de orientação à dirigente, pp.
10-12).
Nesse tópico, a escola é apresentada como o lugar onde são agregados indivíduos com objetivos comuns: os estudantes, proporcionando a eles,
- uma vida em comum, pois organizados por idades, freqüentando o mesmo espaço, desenvolvem atividades comuns;
- objetivos comuns, voltados à aquisição de uma formação integral, capaz de prepará- los para o futuro, para a vida adulta;
- desenvolvimento intelectual, por entrar em contato com o conhecimento já produzido.
Vê-se que, se na primeira sugestão de tema, os estudantes aparecem em uma posição privilegiada em relação à escola, na segunda sugestão essa posição é sedimentada, sob o argumento de que a atuação dos estudantes não se restringe à escola, fazendo notar em outros espaços de convivência social, como a família, a paróquia. Sendo assim, não se restringe à escola a instituição capaz de influenciar a juventude e que também é influenciada por ela, destacando que “o meio estudantil, portanto, existe no mundo e nele tem parte ativa”
(Caderno de orientação à dirigente, p.11).
Esse argumento aponta para a relação de disputa que a Igreja mantinha com a escola. Mas, ao se voltar para a categoria estudantil, o lugar da escola torna-se sempre como referência, embora se reconheça que não seja o único onde esses jovens atuam. Isso justifica o porquê de ser a escola um lugar estratégico para a Igreja, por reunir pessoas de origens diferentes, a fim de receber uma formação comum, para atuar nos mais diversos lugares. Ou seja, agir sobre os estudantes, reunidos em escolas, representa uma economia de esforço para ampliar o raio de ação da Igreja nos mais imprevistos espaços.
Mas, para que a prática dos estudantes se tornasse favorável aos interesses da Igreja, seria necessário que eles aprendessem a se fazer consenso na diferença e, também para isso a escola se apresentava como uma ambiente favorável, uma vez que nela também estavam, representadas pelos estudantes, as diferenças sociais. Ensinar aos estudantes a atuar na escola, também era uma boa estratégia para fazer com que eles aprendessem a agir em qualquer outro meio social, onde também defenderiam os interesses da Igreja.
vivem com pessoas de mentalidades diferentes, convivem com todos, divertem-se. E, então para a militante da JECF não pode haver um cessar de trabalho nas horas que não são de aulas (Caderno de orientação à dirigente, p.11).
Nesse sentido, a formação de lideranças estudantis católicas era fundamental, pois suas práticas se fariam sentir não só na escola. Por isso, inculcava-se que as funções das jecistas não se limitariam ao espaço escolar, precisariam exercer essa função todo o tempo, em qualquer espaço: “sua ação de militante não pode se reumir só ao colégio, ou mesmo só ao convívio com os companheiros de equipe. Dizemos que a militante o é 24 horas por dia.”
(Caderno de orientação à dirigente, p.11).
Essa dedicação, no entanto, aparecia como um ponto de tensão, pois se temia que as militantes, ao perceberem que teriam que se dedicar com tal intensidade ao movimento, deixassem a JECF. Por conta disso, orientavam-se as futuras dirigentes informassem que a militante deveria ter vida normal, não poderiam abandonar suas amizades, nem viver num mundo à parte.
Ao expor essa preocupação, observa-se que a solução respondia a dois problemas: primeiro, impediria o desestímulo pelo excesso de dedicação solicitada; e, segundo, a jecista, ao continuar levando uma vida normal após definir-se como militante, teria possibilidades de defender os interesses da Igreja não só na escola, mas em outros ambientes onde, possivelmente, a atuação da Igreja ainda não se fazia de forma sistemática e ofensiva.
Então, valorizar o estudante e a escola surge como uma estratégia de fazer com que fosse ampliada a interferência da Igreja na sociedade. Por isso, valorizava-se também o estudo, como as portas para o conhecimento, para o descobrimento do mundo, afirmando ser a escola o lugar da democratização do saber.
O sistema escolar, os programas de ensino, o regulamento, a disciplina, os professores, as cadeiras e as carteiras, os livros... todo este conjunto de coisas e pessoas que movimentam a grande organização escolar existem em função do estudante. (Caderno de orientação à dirigente, p.8).
Porém, percebe-se que a estratégia de valorizar o lugar da ação, da prática jecista, não abre mão de destacar, ao mesmo tempo, que se a escola é o lugar do progresso, é também o lugar no qual a cultura e as tradições são preservadas. E, entre as tradições está a Igreja que, pela argumentação desenvolvida, sua existência e manutenção não é impeditiva e contrária ao
progresso e ao processo de construção do conhecimento.
Para compreender essa argumentação, é preciso considerar a concepção de educação e, portanto, de conhecimento defendida no caderno, pois, pelo que foi observado, sendo a educação compreendida como a formação moral, pode-se inferir que o conhecimento, o progresso devesse estar associado à manutenção de uma sociedade sobre a qual se tenha controle de ações, na qual inexistam oposições, uma vez que sendo todos educados e conformados na fé, o progresso seria a manifestação da passividade, da sujeição. Nessa sujeição, na aceitação das normas, para o que a fé, a religião se apresentam como fundamentais, residia a contribuição que a juventude poderia dar ao mundo.
Essa análise se confirma com a conclusão do artigo, quando se destaca o lugar da JECF para ajudar os estudantes a cumprir a missão que lhe foi confiada:
a JECF quer justamente despertar os estudantes para esta alta missão que lhes foi confiada. Mostrar ao estudante cristão que o mundo espera o seu testemunho que pode ser levado a todos os campos da atividade humana: política, arte, literatura, ciência... Há milhares de homens esperando a hora da graça da qual qualquer estudante pode ser o instrumento, há toda a ciência, e todo a tudo do mundo esperando ser orientados para o Cristo, e o jovem que estuda tem meios para fazê-lo. (Caderno de orientação à dirigente, p.11).
Por esse trecho, observa-se que não bastava uma juventude bem preparada no que diz respeito à produção científica, artística e à intervenção na política, mas que esse preparo se voltasse para Cristo, ou seja, que estivesse subordinado aos preceitos católicos. Assim, o bom preparo, a boa formação, seria sinônimo do compromisso e vínculo dos estudantes com os dogmas católicos. Nestes estaria o fim de tudo e só pelo cumprimento, aceitação e propagação da moral cristã, toda a formação escolar e tudo o mais deveria ser justificado.
O reconhecimento da escola e do estudante como elementos estratégicos à realização dos interesses da Igreja tinha na JECF a sua representação. No caderno, a JECF é apresentada como um movimento organizado, ao qual cabia orientar, coordenar, planificar a educação e a ação da juventude, não apenas para atuar no meio estudantil, mas para servir de “direção de toda uma vida”. E, para tanto, para formar mentes capazes de defender os interesses da Igreja, por acreditar que não se tratam de interesses de uma minoria, mas de todos, o método escolhido foi o ver-julgar-agir, utilizado pela Ação Católica.
de parâmetros, esses parâmetros precisariam ser direcionados, para que, o agir não trouxesse surpresas desagradáveis, que contradissessem os interesses católicos, haja vista ser na ação, no agir, que estaria o fim da prática da JECF. Isso justifica a preocupação em orientar como deveriam ser formados os novos grupos de militantes.