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4 THEORETICAL FRAMEWORK AND PROPOSITIONS

5.1 Design, procedure and sample characteristics

Sabemos que a narrativa de Fogo morto evoca um momento histórico e, por isso, é preciso que se leve em consideração a relação entre o espaço, o tempo e as personagens no romance, a fim de que se identifiquem, nessas categorias, os aspectos que marcam a historicidade da obra e configuram, consequentemente, a atmosfera de decadência a que se refere Candido em “Um romancista da decadência” (2004, p. 57). Assim, é necessário que se verifique o trabalho do narrador no que diz respeito à configuração do tempo e do espaço e sua relação com as personagens, pois é, principalmente, a partir dos anseios e questionamentos das personagens que o leitor entra em contato com o sentimento de perda e de decadência vivenciados por elas na narrativa em questão.

Para tal, propõe-se, como tem sido feito comumente pela crítica, apresentar separadamente as observações acerca das personagens centrais de Fogo morto, levando-se em conta, no presente trabalho, o mestre José Amaro e o Coronel Lula de Holanda, dado que são essas as duas personagens de maior expressão trágica no romance, justamente em consequência do universo decadente em que vivem e de sua inadequação a ele. Em seguida, relacionar-se-ão as características comuns às duas personagens, tendo em vista traçar pontos que permitem a aproximação entre ambas.

3.2.1 O mestre José Amaro

O mestre José Amaro – personagem central da primeira parte de Fogo morto – é um seleiro, trabalhador independente, que vive em uma casa nas terras do engenho de Santa Fé do coronel Lula de Holanda, localizada à beira da estrada que liga o engenho ao Pilar, município paraibano representado no romance. Sem pagar foro ao senhor de engenho, sabe-se que o mestre habita a casa desde criança, herdada do pai (também seleiro) que, após cometer um crime em Goiana – “Vim para aqui com o meu pai que chegou corrido de Goiana. Coisa de um crime que ele nunca me contou.” (REGO, 1970, p. 6) –, chega ao Santa Fé e é acolhido por seu Tomás, o fundador do engenho em questão, sogro de Lula de Holanda.

Vive o mestre Zé – como é chamado por muitas das personagens – com a mulher, Sinhá, e a filha, Marta, dos serviços prestados à população, que busca o trabalho do seleiro na tenda do serviço, posicionada na frente da casa, também na beira da estrada. É nesse espaço que se ambienta a primeira parte de Fogo morto, atuando como ponto de parada de variados tipos do local, como o negro alcoólatra José Passarinho, o cego Torquato, o capitão Vitorino Carneiro da Cunha – personagem a que se dedica a terceira parte do romance – o aguardenteiro Alípio, entre outros, cujos diálogos com o mestre seleiro revelam, aos poucos, a história deste e sua visão do mundo.

Orgulhoso de sua condição de homem branco e livre, José Amaro é apresentado a partir das relações sociais, do trabalho de seleiro e, ainda, pela perspectiva psicológica, apresentada ao leitor nos momentos em que a focalização é da personagem e o leitor não só convive com seus pensamentos, como vê as demais personagens e os acontecimentos por meio desse protagonista. Contudo, o orgulho começa a ser perdido quando o mestre nota que a profissão de seleiro, no tempo da história, ou seja, dos fatos narrados, começa a ser desvalorizada pela produção em massa proporcionada pela industrialização do Nordeste, sendo esse um dos motivos que o levam a notar o descaso e as mudanças que ocorrem ao seu redor, que o levarão à desgraça no decorrer da história.

Para isso, contribuem a discussão que tem com o senhor de engenho José Paulino, o mais importante da região, a expulsão da casa em que vive por Lula de Holanda e, ainda, os boatos que correm a respeito da sua transformação em lobisomem, fazendo com que a população do romance afaste-se dele, levando-o ao isolamento em que se encontra no final da história. A expulsão da casa é, sem dúvida, o que mais afeta o seleiro, dado que perde, junto à casa, a sua identidade e tudo o que conquistara, sendo a perda da casa o mesmo que a perda da identidade.

A partir de tais acontecimentos, José Amaro entra em um processo de questionamento e percepção do mundo, mas não consegue encontrar soluções para os problemas, acabando por cometer o suicídio que fecha Fogo morto. Assim, a personagem entra em decadência no decorrer da história, sendo os fatos acima mencionados os responsáveis pela configuração da atmosfera trágica que a envolve, manifestada principalmente por meio do pensamento dela e da relação que tem com o espaço – físico e social – em que vive.

3.2.2 Lula de Holanda

A segunda parte de Fogo morto, intitulada “O engenho de seu Lula”, conta a história do engenho Santa Fé, desde a sua construção, na metade do século XIX, até o momento em que se passa a história principal, no começo do século XX, e que tem como base as relações familiares entre Lula de Holanda e a muher, Amélia, e a administração do engenho. Trazendo para o primeiro plano a família proprietária, o percurso histórico inicia-se com a chegada do fundador do engenho, o Capitão Tomás, e finaliza-se sob o comando do genro, Lula de Holanda, que, segundo Alfredo Bosi (1970, p. xxxi), fecha-se no mutismo e na solidão, causando assim a decadência da produção do Santa Fé.

A inferioridade do engenho em relação aos demais da região já fora mencionada em romances anteriores de José Lins do Rego – Menino de engenho e Banguê – que, conforme Rolando Morel Pinto afirma em “Da memória à imaginação” (1963, p. 109), apresentava-se da perspectiva dos olhos do espectador-criança – Carlos de Melo – e pela “crônica maledicente do povo”. Os habitantes viam o Santa Fé como um lugar, se não maléfico, ao menos sombrio em relação ao resto da Várzea: “Corriam histórias da casa de Seu Lula: o povo de lá não comia, as negras viviam de jejum; uma lata de manteiga era para um mês […]” (REGO apud PINTO, 1963, p. 109), sendo em Banguê que “[…] os últimos anos de vida e a morte [de Lula] vêm narrados […]” (PINTO, 1963, p. 108). Contudo, conforme menciona Pinto (1963, p. 108), a personagem em questão passou por um processo de recriação em Fogo morto, sendo necessária a “[…] alteração de sua origem e de sua estrutura mental […]” para que se realizasse o paralelismo dramático entre Lula e as outras duas personagens do romance: José Amaro e Vitorino Carneiro da Cunha. Abordado, portanto, primeiramente sob a perspectiva memorialista do menino de engenho Carlos de Melo, Lula é retomado em Fogo

morto, passando pelo processo de transformação de homem real em personagem (PINTO,

1963, p. 110), que, dotado de traços antes desconhecidos, revela o caminho da apreensão à compreensão a qual se refere Candido (1957, p. 2).

A personalidade de Lula é marcada pelo apego ao passado familiar e à ostentação da riqueza que possuiu nos tempos do casamento com Amélia, representada pelo cabriolé que, ao transportar a família do Santa Fé, exalta a riqueza dos moradores do engenho. Essa riqueza começa a ser perdida após o falecimento do Capitão Tomás, momento em que a administração do engenho é passada para Lula de Holanda, que não se interessa pelo negócio. Incapaz, Lula é assombrado pela epilepsia e apega-se cada vez mais à religião, fechando-se na casa grande do Santa Fé e deixando de lado a administração do engenho, que chega ao estado de fogo morto – de improdutividade – no final do romance.

Preso a valores de outro tempo e ao orgulho familiar, Lula mantém-se, junto à mulher e à filha, distante dos acontecimentos cotidianos do Pilar, fechado na casa-grande, devotado à religião, sem que perceba as necessidades apresentadas pela produção mecanizada que se instaura na região e se adapte a elas. O passar do tempo envelhece o engenho e seus moradores, sendo a riqueza material – joias, cabriolé e piano – incapaz de manter o status da família na sociedade, que teme os habitantes do Santa Fé. O recolhimento de Lula de Holanda resulta no abandono das terras do engenho, espaço que, atrelado aos sentimentos da família, configura a atmosfera de decadência que se instaura no lugar.