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O início da história da fotografia surgiu em torno do séc. XVI, quando Leonardo da Vinci descobriu o processo da “câmera escura”. Posteriormente Nièpce e Daguerre desenvolveram uma chapa de iodeto de prata capaz de registrar mudanças de cor quando submetida à luz, o que foi um marco importante na prática fotográfica. A partir daí, muitas inovações técnicas foram surgindo: do filme em rolo ao zoom das máquinas, o que permite uma aproximação ou distanciamento dos sujeitos e dos lugares, influenciando em muito a representação dos sujeitos quanto ao objeto fotografado.

Chega-se, por fim, à atualidade, com o advento da máquina digital e as infinitas possibilidades dessa tecnologia ao permitir o aperfeiçoamento das imagens para cumprir a finalidade de reforçamento de um dado imaginário. Toda vez que um novo mecanismo técnico e científico é introduzido na cultura de uma determinada sociedade, novas relações são produzidas levando à necessidade de “ olhar retrospectivamente, no sentido de rever as explicações que até então sustentavam nossas práticas e teorias” (MACHADO, 2004).

A máquina digital, a grande inovação da atualidade fotográfica, tem produzido este divisor de águas. Sua introdução deve causar mudanças no processo fotográfico, desde a relação dos indivíduos com a câmera, sendo menos criteriosos nos registros, visto o aumento da capacidade de armazenamento, até a facilidade de visualização instantânea e os

novos modos de seleção, circulação e consumo social das fotografias, como bem relata Machado (2004).

Enfim, pode-se dizer que os hábitos e costumes da interação social para a visualização das imagens e suas histórias sobre elas estão em pleno momento de mudança. Se os hábitos começam a mudar, também as relações sociais, construções e representações sociais mediados por esse objeto, a fotografia, tendem a acompanhá-los. Em sendo uma época de transição, o aprofundamento da análise dos impactos sociais derivados demandará algum distanciamento de tempo, o suficiente para que alguns aspectos se consolidem ou não e a análise crítica possa ser feita com maior comprovação empírica. O que é invariável, entretanto, é sua característica de resultado de um sistema de representação.

No caso de fotografias não digitais, ou mesmo estas, é importante relatar a ênfase dada por Machado (1984) de que as fotografias não são nada mais que uma “interpretação” de um mecanismo aos raios de luz recebidos. Quando um pesquisador busca analisar uma fotografia, ou várias, precisa ter em mente que se encontra buscando a interpretação de uma outra interpretação, já mediada pelo saber científico. Não possui o fato original, mas sua “interpretação tecnológica” feita por um equipamento resultante de uma ideologia que permitiu que aquele tipo de conhecimento científico fosse desenvolvido a seu contento. Ou seja, a máquina fotográfica, seja quais forem suas características, é resultado de um sistema de representação que, por trás do sentido de objetividade e cientificidade, reproduz um modo de olhar, agir e interagir com o mundo de uma determinada classe social e econômica.

Como afirma o mesmo autor (1984, p.14), a ideologia seria assim “a solidariedade dos sistemas de representação ao grupo social que os forjou numa condição dada”. A fotografia, na sociedade capitalista, seria, então, uma das maiores “armas” da comunicação de massa, forjando um sistema de representação de comunicação importantíssimo na sociedade, ocultando, porém, esta condição de produção e interpretação ideológica e, portanto, o seu préstimo à estrutura social vigente.

Porém, “a ideologia é menos um conteúdo abstrato objetivado num corpo de idéias do que um certo modo de arranjar, organizar, combinar e fazer funcionar homens, objetos e sinais do mundo” (MACHADO, 1984, p. 19). Para isso, as entidades elementares dos

sistemas de representação, organização e combinação são os seus signos que, pela definição clássica, seriam: aquilo que está no lugar de alguma coisa.

o signo ideológico resulta de um consenso entre indivíduos socialmente organizados, razão pela qual as suas formas de manifestação decorrem das condições dessa organização. Em cada etapa do desenvolvimento social, determinados “sinais” particulares se tornam valorizados pelo corpo social que os preenche de sentidos explícitos e implícitos e deles se valem nas trocas simbólicas cotidianas (MACHADO, 1984, p. 23).

Assim, pode-se dizer que a fotografia tem se tornado um signo dentro do sistema de representação da sociedade moderna. Um signo que pode encontrar-se nos “interstícios” e “brechas” mencionadas por Machado, por onde a ideologia dominante atinge os grupos e indivíduos com maior eficácia, em que o mais importante não é “representar o real”, mas “passar pelo próprio real”, o que seria a “identidade perfeita entre o signo e o designado” (1984, p. 26-27).

Importante ainda salientar que a fotografia apresenta-se como um recorte do visível, uma visão parcial da imagem vivenciada, um processo de materialização de uma imagem.

O quadro da câmera é uma espécie de tesoura que recorta aquilo que deve ser valorizado, que separa o que é importante para os interesses da enunciação do que é acessório, que estabelece logo de início uma primeira organização das coisas visíveis (MACHADO, 1984, p. 76). Evidentemente, essa escolha, esse recorte não são nunca inocentes, nem gratuitos. Toda síncope do quadro é uma operação ideologicamente orientada, já que entrar em campo ou sair de campo pressupõe a intencionalidade de quem enuncia e a disponibilidade do que é enunciado (MACHADO, 1984, p. 76-77).

A inocência inexiste por parte de quem retrata, de quem é retratado e de quem interpreta. Os valores sociais, culturais, ambientais e históricos encontram-se embutidos na motivação do registro da imagem. A intencionalidade do clique da máquina encontra-se permeada por uma carga social e individual que altera desde a visão, o ângulo, o enquadramento, o foco, a espontaneidade, até a própria interação da experiência vivida.

Machado (1984) realça duas propriedades fundamentais na perspectiva usada na tecnologia ocidental, que fazem com que o olhar se expanda além do recorte das fotografias e se abstraia da sua materialidade: a infinitude e a homogeneidade. As duas buscam esconder a fragmentação e a realização da cena. Tanto a propriedade de infinitude, em sentido de continuidade da cena ou do extra-quadro, quanto a homogeneidade que procura apagar o recorte feito pelo quadro, caminham no sentido de apagar a construção, a seleção,

as relações de produção da realidade registrada, enfim, buscam ocultar sua carga ideológica social, para que a fotografia não tenha sujeito, seja apenas uma representação, como diz Machado, um “discurso de ninguém” (1984, p. 84).

Isto leva a um outro ponto importante a ser analisado, o da visão da câmera nas imagens. Esta, pouco aparece, provavelmente em função da necessidade da criação do efeito de realidade na fotografia. A infinitude e a homogeneidade não permitem a imagem da câmera, pois esta revelaria o trabalho de produção dos signos, fato que deve ficar ausente na interpretação das fotografias (MACHADO, 1984, p. 93).

Outra significação da câmera é a de comandar a visão do sujeito que olha as fotografias, o que Machado chama de espectador

nós abandonamos o nosso olhar àquele outro olhar invisível mas onipresente – o da câmera – que comanda a nossa visão. Olha-se por “procuração”, apenas para onde a câmera aponta, não tendo nem poder e nem liberdade de olhar o que possa interessar, ocorrendo assim uma transferência de subjetividade, do operador da câmera para o espectador, fazendo com que este assuma o papel do outro, incorpore sua subjetividade (1984, p. 99-100).

Aspectos como enquadramento, angulação, foco, iluminação, composição e profundidade são colocados pelo autor como fundamentais para a definição da hierarquia de valores sociais na análise das fotografias, hierarquia esta que pode denunciar ao espectador a construção social e a falsa objetividade e realidade da imagem materializada na fotografia, caso se consiga decodificá-la. Porém, também se encontra presente nesta ordenação e organização a necessidade de “reprimir na fotografia o seu poder de perturbação e desconcerto”, pois isto pode “desarticular o real ao invés de promovê-lo”, e não é isto que a ideologia dominante deseja. O que deseja é o que Barthes (1984, p. 66) chama de fotografia unária, que é aquela que não proporciona nenhum duelo, nenhum distúrbio, que busca uma unidade de composição – que busca ser banal.

Na fotografia encontra-se também o sentimento de posse do referente. Machado esclarece isso de maneira magnífica quando relata

Porque a fotografia aparece, aos olhos ingênuos, como uma fixação “real” do referente, a posse de uma antologia de imagens parece redundar num domínio sobre a coisa fotografada. É assim que a fotografia aparece sob a ideologia dominante: como apropriação do referente, não para fins de conhecimento, mas para garantir uma posse, um poder, ou pelo menos um controle (1984, p. 41).

Guarda-se a memória coisificada, materializada, reificada. Como acentua Fromm (1984), quando analisa a linguagem verbal do sentido de poder, os turistas “têm” as fotografias, “tiram” fotografias (de quem?), e as guardam e dominam, obtendo assim um imaginário controle do seu referente.

Por último, mas não esgotando as possibilidades de análise, identifica-se uma característica importantíssima das fotografias que é composição da cena para o ato fotográfico, ou como diz Barthes (1984, p. 22 - 24)

a partir do momento que me sinto olhado pela objetiva, tudo muda: ponho-me a ‘posar’, fabrico instantaneamente um outro corpo, metamorfoseio-me antecipadamente em imagem. Essa transformação é ativa: sinto que a Fotografia cria meu corpo ou o mortifica, a seu bel- prazer ...

Decido “deixar flutuar” em meus lábios e em meus olhos um leve sorriso, que eu gostaria que fosse “indefinível”, no qual eu daria a ler, ao mesmo tempo que as qualidades de minha natureza, a consciência divertida que tenho de todo o cerimonial fotográfico: presto-me ao jogo social, poso...

O autor traz à luz o jogo social, que é o jogo de indivíduos e grupos dentro da sociedade, que a reproduz e a materializa em suas ações e, dentro deste jogo, a câmera não é passiva, impõe sobre os indivíduos um arranjo social em função de sua presença, criando um campo de forças que irão se cruzar, como Barthes relata

Diante da objetiva, sou ao mesmo tempo: aquele que eu me julgo, aquele que eu gostaria que me julgassem, aquele que o fotógrafo me julga e aquele de que ele se serve para exibir sua arte. Em outras palavras, ato curioso: não paro de me imitar, e é por isso que, cada vez que me faço (que me deixo) fotografar, sou infalivelmente tocado por uma sensação de inautenticidade, às vezes de impostura (como certos pesadelos podem proporcionar) (1984, p. 27).

Esse autor também ressalta a possibilidade de olhar-se como “o outro”, quando escreve: “Pois a Fotografia é o advento de mim mesmo como outro: uma dissociação astuciosa da consciência de identidade” (1984, p. 25). E esta consciência é que faz posar, que proporciona a posse, o controle e o domínio. Torna-se necessário, na sociedade atual, o controle de muitas situações, desde sentimentos a coisas e objetos; e a fotografia é a união destas situações, materializando algo que foi significante para o indivíduo juntamente com sua posse. Eis um dos fatores que fez com que a fotografia tenha se desenvolvido tão rapidamente.